Nanodiamantes no gelo imemorial

Exemplo de lonsdaleíta, achado na ilha de Santa Rosa

"Diamantes no gelo" poderia ser o título de um poema que se estendesse sobre as artes da camuflagem e da dissimulação. Como aqui se trata de prosa dura e fria, a que convém à apresentação da ciência, que o leitor se conforme com o enigmático "Nanodiamantes no gelo imemorial".

Mesmo retendo no núcleo um eco esquálido do original sonoro, o título desta coluna descreve bem o trabalho que a equipe de Andrei Kurbatov e Paul Mayewski, da Universidade do Maine, acaba de publicar no periódico especializado "Journal of Glaciology". (Agradeço a Jefferson Cardia Simões, companheiro de jornada antártica e pesquisador visitante do Instituto de Mudança Climática daquela universidade, por chamar a atenção para o artigo.)

O grupo encontrou em amostras de gelo com 13 mil anos, na Groenlândia, uma nítida camada pontilhada de diamantes de tamanho nanoscópico. Cada um tem 2 a 40 nanômetros de diâmetro (um nanômetro corresponde a um bilionésimo de metro, ou milionésimo de milímetro --medidas muito pequenas, enfim).

É a primeira vez na história da glaciologia que esse tipo de diamante aparece no gelo. E a melhor explicação para sua presença ali está no impacto de um grande cometa ou asteroide com a Terra.

Esse tipo de diamante, que já foi encontrado em vários pontos da América do Norte, mas só em terra, normalmente não se forma pelos processos conhecidos na face da Terra. Não aparecem em minas e jazidas, por exemplo.

Só em laboratório, sob temperaturas na faixa de 1.000-1.700ºC e alta pressão, foi possível obtê-los. São condições como as que se acredita terem sido produzidas no impacto de um grande objeto sideral contra a Terra.

(...)

Os nanodiamantes são prováveis testemunhas mudas e insignificantes desse cataclismo. Dormiam esquecidos no gelo imemorial da Groenlândia. Voltaram a brilhar, agora sob a luz do conhecimento.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha.com.