Diligência

Já usei outra oportunidade para recomendar aqui um livro do médico americano Atul Gawande, "Complicações" (Editora Objetiva, 2002). Repito a dose agora com "Better" ("Melhor"; Metropolitan Books, 2007), ainda sem tradução no Brasil.

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Sua outra identidade o leva a frequentar a redação da revista "The New Yorker". Na edição deste mês, Gawande tem um artigo sobre custos de serviços de saúde. Vale a pena ler os parágrafos de abertura: "É primavera em McAllen, Texas. O sol da manhã está quente. As ruas são ladeadas por palmeiras e picapes.

McAllen fica no condado de Hidalgo, que tem a menor renda familiar do país, mas é uma cidade de fronteira, e uma próspera zona de comércio exterior que tem mantido a taxa de desemprego abaixo de 10%. McAllen se intitula Capital Mundial da Dança de Quadrilha. (...)

"McAllen se destaca, também, como um dos mais caros mercados de serviços de saúde do país. Só Miami -que tem mão de obra e custo de vida muito mais caros- despende mais por habitante em cuidados de saúde."
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As palavras, conceitos, dados e cenas se encadeiam de forma quase natural. Ele escreve como quem sutura, camada a camada. Sem pressa nem desleixo, pontos sólidos mas não apertados. Quem contempla a cicatriz quase imperceptível mal adivinha as bordas do que já foi uma ferida aberta.

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"Melhoramento é um trabalho perpétuo", sentencia Gawande logo na introdução. E se dedica a partir daí a traçar retratos comoventes de pessoas que se dedicam a ele de modo insistente, se não maníaco. Como Pankaj Bhatnagar, um pediatra e supervisor da Organização Mundial da Saúde que o autor acompanhou por três dias durante uma campanha de vacinação antipólio na paupérrima região de Karnataka, na Índia.

Pankaj vai de posto em posto interrogando vacinadores e auxiliares. Não faz reprimendas, mas suas saraivadas de perguntas invariavelmente trazem à tona falhas operacionais, como a encomenda insuficiente de gelo para acondicionar as doses.

Faz algo parecido com mulheres muçulmanas propensas a recusar a vacina dos hindus para seus filhos. Espinafra, porém, o funcionário que grita com uma delas. "Seus berros não ajudam em nada, assim como não ajudará a circulação do rumor de que estamos forçando as pessoas a tomar as gotas", transcreve Gawande.

O final do texto é primoroso, de humilhar jornalistas que se consideram bons redatores. As palavras são de Pankaj, mas Gawande as escolheu como fecho. Depois de perguntar ao colega o que faria quando a poliomielite acabasse na Índia, ouviu: "Bem, sempre haverá o sarampo".


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).