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Presente de Natal

 
 

Presente de Natal

Uma frase de sir Ernest Shackleton (1874-1922), explorador da Antártida e protagonista de uma das maiores aventuras de sobrevivência em qualquer parte do globo: "Dificuldades são apenas coisas a se superar, afinal de contas".

Escrito por Marcelo Leite às 20h06

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Natal branco

 
 

Natal branco

Acampamento de expedição anterior de Jefferson Simões (Foto: Nupac/UFRGS) 

Leia aqui a versão mais longa de minha reportagem de hoje na Folha de S.Paulo:

Um grupo de quatro pesquisadores da pioneira missão brasileira ao interior da Antártida passará o Natal muito longe de casa. Longe, até mesmo, do acampamento-base da Expedição Deserto de Cristal na área dos montes Patriot, a pouco menos de uma hora de vôo das imediações do monte Johns, onde se encontra o destacamento avançado.

A saída do grupo já atrasou em cinco dias e o tempo fechado, com ventos de até 90 km/h, deve continuar por pelos menos mais dois dias. Patriot e Johns estão a quase 6.000 km de Porto Alegre, onde fica o Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas (Nupac), organizador da expedição. Se o referencial for Brasília, sede do Proantar (Programa Antártico Brasileiro), a distância é 7.500 km

Os dois locais de acampamento ficam na Antártida Ocidental, a cerca de mil quilômetros do pólo Sul e a mais de 2.000 da estação brasileira Comandante Ferraz, na ilha do Rei George, junto da península Antártica -quase um prolongamento da América do Sul.

O grupo se deslocou até Johns há duas semanas para escavar amostras de gelo (testemunhos) úteis no estudo do clima do passado. É composto por Jefferson Cardia Simões, glaciologista que lidera a Deserto de Cristal, Francisco Aquino e Luiz Fernando Magalhães Reis, os três da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), e também por Marcelo Arevalo, da Universidade de Magalhães (Chile).

No acampamento-base em Patriot ficou a outra metade da equipe: Marcio Cataldo e Heitor Evangelista da Silva, ambos da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), mais Ulisses Franz Bremer e Rosemary Vieira, da UFRGS

A turma em Johns enfrentou nos últimos dias rajadas mais suaves que a de ontem. O vento estava com 65 km/h e a sensação térmica era de 40C negativos. A altitude é de 2.115 metros, sobre uma camada de gelo de mais de mil metros de espessura. Eles têm alimentos para cerca de mais dez dias.

Como faz uma semana que o tempo está ruim na Antártida Ocidental, aumentam as chances de que melhore até lá. Mas não muito. Segundo informação de Cataldo, enviada anteontem por e-mail desde o acampamento-base, uma nova frente pode estar em formação no sul/sudeste. Se isso ocorrer, o tempo continuará ruim.

As más condições impedem tanto o vôo do avião bimotor turboélice Twin Otter, que deveria levar o grupo do acampamento avançado para a base, quanto do cargueiro quadrirreator Ilyushin-76TD, que deveria levar a equipe da Folha de Punta Arenas a Patriot, para se reunir aos pesquisadores. O esperado vôo deve ocorrer, com sorte, amanhã ou depois.

Noites brancas

"Hoje [segunda-feira] é sem dúvida o pior de uma seqüência de quatro dias de nevasca intensa", contou Cataldo na mensagem. "Nossa previsão é de que não haja vôo tão cedo. Já são 8 da "noite" aqui, e o tempo só piorou: ventos fortes com rajadas de mais de 70km/h e "whiteout" com visibilidade de menos de 20 metros."

"Não precisa ser meteorologista para saber que amanhã [ontem] ainda estará muito ruim." Com efeito, o Ilyushin não decolou de Punta Arenas.

As aspas em "noite" são uma alusão ao fato de que, na latitude dos montes Patriot (mais de 80 sul) e no verão antártico, o Sol nunca chega a se pôr. E "whiteout" poderia ser traduzido como "branco total", situação em que a neve soprada pelo vento apaga todos os traços da já pouco matizada paisagem.

"Mesmo que o tempo melhore, haverá necessidade de retirar neve da pista, trabalho lento, que possivelmente consumirá um dia", ressalva Cataldo.

"Acho muito difícil que o vôo de vocês chegue antes do dia 25, mas vamos torcer! Aqui quem dá o tom é o tempo, e quanto a isso não podemos fazer nada."

Cataldo se refere à pista de "gelo azul" sobre a qual pousa o Ilyushin, com rodas (e não com esquis, como o Twin Otter). É uma faixa plana com 3.000 metros, balizada por quatro funcionário da empresa ALE (Logística e Expedições Antárticas), dois em cada ponta.

O nome da expedição (Deserto de Cristal) também faz referência à ocorrência dessa formação no platô Antártico, a região central mais elevada do continente. Ali, ventos descem do platô em direção à periferia da Antártida varrendo toda a neve precipitada, expondo o gelo sob a superfície.

Glaciares acelerados

Em alguns locais, esse manto branco azulado pode alcançar mais de 4.000 metros de espessura. É o resultado de neve compactada ao longo de séculos e milênios. Ao serem prensados sob o próprio peso, os cristais de água aprisionam em seu meio microbolhas de ar cuja análise permite reconstruir algo da atmosfera e do clima no passado.

Por tal razão, as colunas de gelo de 10 cm de diâmetro e dezenas de metros de comprimento, como a escavada pela equipe de Simões em Johns, são chamadas de "testemunhos". Segundo a última informação, o grupo havia alcançado dois terços da profundidade pretendida, ou 100 dos 150 m planejados, por dificuldades com a operação da broca sob a nevasca.

A informação contida nos testemunhos é relevante para entender melhor o aquecimento global e seus efeitos sobre a massa de gelo da Antártida. O continente contém 90% do gelo existente no mundo, ou 70% da água doce.

Quanto mais fundo se cava, mais antiga é a informação obtida. É com base em testemunhos de milhares de metros de profundidade que se sabe, por exemplo, que nunca nos últimos 600 mil anos houve na atmosfera do planeta uma concentração tão alta de gás carbônico (CO2), o principal gás agravador do efeito estufa, quanto nos dias de hoje, por força das emissões de atividades humanas.

Existe entre glaciologistas o receio de que o aquecimento global acelere a velocidade dos glaciares, rios de gelo com muitos quilômetros de largura que fluem lentamente em direção ao oceano Austral. Até agora essas geleiras encontravam a resistência de grandes plataformas de gelo que se formam sobre o mar, como as de Weddel e de Ross.

Esse efeito de tamponamento está diminuindo com a crescente esfacelação das plataformas, sob ação de águas oceânicas mais quentes. O gelo da própria plataforma, mesmo derretido, não aumenta o nível do mar, pois já se encontra imerso nele.

Já um eventual aumento de velocidade das geleiras lançará mais água no oceano, que antes se encontrava congelada sobre o continente. O mesmo processo estaria acontecendo na Groenlândia, onde estão outros 9% das geleiras terrestres.

Se todo o gelo da Antártida derretesse, o que só correria em centenas ou milhares de anos, o nível do mar subiria 70 metros no planeta inteiro. São 25 milhões de km3 de gelo, o suficiente para cobrir todo o Brasil com uma camada de 3 km de gelo.

O grupo de Jefferson Simões participa de um convênio internacional para medir a velocidade de glaciares. Os parceiros da UFRGS e do Proantar (programa Antártico Brasileiro) são a Universidade do Maine (EUA), que faz a análise do gelo, e o Instituto Antártico Chileno (Inach), que tem sede em Punta Arenas e fornece vôos com aviões Twin Otter.

"Sabemos que Paul Mayewski, do Instituto de Mudança Climática da Universidade do Maine, e Jefferson Simões, do Brasil, são uma garantia de qualidade científica", elogia o engenheiro químico José Retamales, diretor do Inach.

As medições ocorrem no platô Detroit, a centenas de quilômetros de onde a equipe da Expedição Deserto de Cristal _esta uma missão exclusivamente brasileira_ se encontra no momento. Essa área tradicional de atuação do Proantar, a península Antártica, onde a temperatura raramente cai abaixo dos 5 graus Celsius negativos, foi apelidada por americanos como "Copacabana".

Para os padrões antárticos, um local bem mais aprazível para a ceia natalina do que barracas sob 20 ou 30 Celsius negativos e fustigadas por ventos de 65-70 km/h.

Leia mais sobre a Expedição Deserto de Cristal na página especial "No Coração da Antártida", da Folha Online.

Escrito por Marcelo Leite às 08h23

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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