Marcelo Leite

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Vôo atrasado? Que tal 5 dias?

 
 

Vôo atrasado? Que tal 5 dias?

Se servir de consolo para o pessoal que está tentando viajar de avião no Brasil e enfrentando atrasos em metade dos vôos, segundo leio no UOL, o repórter fotográfico Toni Pires e eu estamos há CINCO dias aguardando nosso vôo para os montes Patriot, na Antártida. Leia mais sobre a Expedição Deserto de Cristal, que iremos acompanhar, na página especial da Folha Online.

Hoje mesmo ficamos cinco horas no aeroporto, já com as roupas térmicas para desembarque no continente gelado, aguardando liberação da pista em Patriot. Nada feito. Cozinhamos à toa.

"Liberação" da pista, diga-se, em sentido literal: tratores têm de raspar a neve que se acumulou nas últimas horas, para expor o gelo azul para pouso com rodas (e não esquis) do jato cargueiro quadrirreator Ilyushin-76TD.

Além disso, os ventos mal chegaram a ficar aquém do máximo de 40 km/h para pouso, e ainda havia as rajadas de 45 km/h, 50% mais que os 30 km/h aceitáveis. Depois vieram nuvens baixas e começou a nevar de novo. Voltamos para o Hotel Savoy, onde já estávamos há sete dias.

Tem mais essa: em lugar de duas horas antes do vôo, a apresentação para pegar o avião da ALE (Logística e Expedições Antárticas) ocorre DOIS DIAS antes da data marcada. Aí nos ligam 2 ou 3 vezes por dia, às 6h30, 9h30 e/ou 18h30, para dizer se há alguma chance de decolar nas horas seguintes. O candidato a passageiro tem então de 30 a 60 minutos para vestir toda a parafernália polar, fechar a conta do hotel e esperar na porta o ônibus para o aeroporto. Sem certeza alguma de que irá embarcar.

Do que é mesmo que esse pessoal aí no Brasil está reclamando?

Escrito por Marcelo Leite às 19h59

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Dez dias no monte Johns, a -35C

 
 

Dez dias no monte Johns, a -35C

Acabo de falar por telefone de satélite com Jefferson Cardia Simões, chefe da expedição Deserto de Cristal, pioneira missão científica brasileira no interior da Antártida. O glaciologista ligou por telefone de satélite para o hotel Savoy, onde o repórter fotográfico Toni Pires e eu estamos "ilhados" em Punta Arenas (Chile), aguardando nossa partida para os montes Patriot, no continente gelado.

Simões e três membros da equipe de oito pesquisadores se encontram há dez dias em monte Johns, a centenas de quilômetros do acampamento-base da Deserto de Cristal, em Patriot. A previsão era terem saído de lá ontem, mas o mesmo mau tempo que nos mantém em Punta Arenas os retém em Johns.

Não há condições de vôo e pouso do bimotor turboélice Twin Otter que irá resgatá-los e ao equipamento de perfuração de colunas de gelo que estão coletando (já alcançaram 95 m de profundidade). Os ventos nesse acampamento avançado atingem 65 km/h, a sensação térmica é de -35C a -40C e a visibilidade não ultrapassa 20 m, conta Simões.

"É acordar, trabalhar e furar", diz. "Não tem outra coisa para fazer."

Ontem, a umidade atrapalhou o trabalho do grupo, que inclui ainda Francisco Aquino e Luiz Fernando Magalhães Reis, como Simões da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), e Marcio Cataldo, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). A neve gruda mais na broca, que engastalha no poço de perfuração. Apesar disso, Simões prevê chegar a 100 m amanhã, sábado.

Nos montes Patriot, onde fica a pista de gelo azul onde deveria pousar o Ilyushin-76TD que nos levará, as coisas não estão muito melhores: condições ruins de contraste e horizonte, ventos de 35 km/h, com rajadas de até 50 km/h. Mas melhorou um pouco, pois no relatório anterior da empresa ALE (Logística e Expedições Antárticas) as rajadas estavam em 60 km/h.

Há chance - pequena - de um vôo bem cedo pela manhã. Cresce a torcida por um telefonema com boas notícias às 6h30.

Escrito por Marcelo Leite às 20h06

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O jeito é esperar

 
 

O jeito é esperar

Na "pingüinera" da estância Lorita, P. Arenas - Foto Toni Pires

Conversa rápida com Mark Rawsthorne, na sede da empresa Logística e Expedições Antárticas (ALE) da rua Arauco, em Punta Arenas (Chile), traz mais alguns detalhes sobre os sucessivos adiamentos do vôo que o repórter fotográfico Toni Pires e eu já deveríamos ter tomado para os montes Patriot, no coração da Antártida. Nenhum deles muito animador.

Rawsthorne, um especialista em exploração mineral e avalanches que três meses por ano trabalha como gerente da ALE em Punta Arenas, diz que esses atrasos são comuns e que o pessoal da empresa está acostumado --inclusive a lidar com a ansiedade de seus clientes presos na simpática e fria cidade do extremo sul chileno. "Para nós a decisão [de postergar a decolagem] é muito fácil", diz Rawsthorne sem rodeios. "Temos parâmetros muito claros e seguimos uma política de risco zero." Os parâmetros de segurança a que o gerente da ALE se refere envolvem duas variáveis principais: vento e visibilidade.

O vento constante não deve ultrapassar os 15 nós (um pouco menos de 30 km/h), e as ocasionais rajadas não podem ter mais que 20 nós (quase 40 km/h). O vento, aliás, é tanto o vilão quanto o santo da história. Se não soprasse de modo contínuo do platô Antártico --parte central do continente gelado, mais alta e mais fria, do qual descem ventos fortes chamados de "catabáticos"--, não haveria a pista de "gelo azul" sobre a qual pode pousar com rodas o avião-cargueiro Ilyushin-76TD com sua carga útil de 17 toneladas.

Os ventos catabáticos varrem ou sublimam toda a neve da superfície, expondo o gelo formado muito tempo atrás pela compactação da neve acumulada quando não há vento. Mas os mesmo ventos com freqüência impedem o pouso do avião, como hoje pela manhã, quando sopravam rajadas de 24 nós.

Há um problema adicional nos montes Patriot: a visibilidade também não está ajudando. Como os pilotos russos do Ilyushin seguem regras de vôo visual, precisam de condições mínimas de "contraste e horizonte", explica Rawsthorne.

Além dos parâmetros físicos informados automaticamente pela estação meteorológica de Patriot, a sede da ALE em Punta Arenas recebe também avaliações de contraste e horizonte de um meteorologista lá estacionado. Nos últimos dias, as nuvens têm ficado muito baixas e cai muita neve, o que deixa os pilotos sem horizonte para se orientar. Por isso o Ilyushin ainda não decolou.

Em resumo, só resta a seus 49 candidatos a passageiro aguardar com muita paciência (na sua configuração antártica, o IL-76TD leva 55 pessoas no máximo). Muitos deles vão escalar o maciço Vinson, maior elevação da Antártida, com seus 4.892 m. Além de pagar US$ 33 mil por cabeça, treinaram meses e meses para isso. Agora têm de ficar estacionados em Punta Arenas, com máxima de 15ºC e mínima de 7ºC --quando contavam estar já enfrentando até -35ºC em Patriot e coisa pior em Vinson.

Haja paciência. Para agravar, não basta que as condições meteorológicas melhorem --elas têm de se estabilizar por algumas horas, pelo menos. Caso contrário, o cargueiro não voa. Parece jogo de azar. E todo mundo assinou um monte de papéis reconhecendo que é assim mesmo, que não há nada a fazer e que não é culpa da ALE.

É o preço a pagar para ser uma das cerca de 200 pessoas que visitam o interior da Antártida a cada ano sem serem pesquisadores, funcionários de governo ou militares (outros 14 mil turistas, aproximadamente, visitam o litoral do continente a bordo de navios).

O jeito é esperar.

Escrito por Marcelo Leite às 21h06

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Mais más notícias

 
 

Mais más notícias

Lamento SINCERAMENTE informar que o nosso vôo foi adiado por mais 24 horas, pelo menos. Só amanhã, sexta, se der, o repórter fotográfico Toni Pires e eu embarcaremos para os montes Patriot, na Antártida, onde encontraremos os oito pesquisadores brasileiros da pioneira Expedição Deserto de Cristal.

Nuvens baixas, vento com rajadas de 24 nós (uns 45 km/h), neve caindo - o mesmo de sempre. Não há como pousar em Patriot Hills. Os maratonistas e ultramaratonistas (leia abaixo) não podem sair de lá, por exemplo. E a gente não pode ir.

Escrito por Marcelo Leite às 11h36

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Notícias más e boas

 
 

Notícias más e boas

A má notícia é que nosso vôo de Punta Arenas para os montes Patriot foi mais uma vez adiado. Mais uma vez, condições meteorológicas inadequadas na base da empresa Logísticas e Expedições Antárticas (ALE) no continente gelado, a mais de 2.000 km e quatro horas e meia de vôo daqui do extremo sul do Chile. Só voaremos amanhã, quinta - se voarmos...

A boa notícia é que a equipe do glaciologista Jefferson Simões (UFRGS/Proantar) em monte Johns já chegou a 90 m de perfuração de sua coluna de gelo ("testemunho" para estudar o clima e a atmosfera dos últimos 4 ou 5 séculos). A meta é chegar a 150 m. Sua volta de monte Johns, antes prevista para amanhã, pode ficar para sábado, dia 20.

Escrito por Marcelo Leite às 11h01

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Terminam maratona e ultramaratona na Antártida

 
 

Terminam maratona e ultramaratona na Antártida

O belga Marc de Keyser, vencedor da ultramaratona na Antártica
Foto: Divulgação/Polar Running Adventures

Enquanto o repórter fotográfico Toni Pires e eu aguardamos o vôo para os montes Patriot, fico sabendo que terminou ontem (15/12) a quarta edição da Maratona de Gelo Antártica (42 km) e da ultramaratona 100K (100 km). Se calhar, encontraremos os ultra-atletas no aeroporto de Punta Arenas, pois eles também são transportados pela empresa Logística e Expedições Antárticas (ALE) e poderão embarcar de volta para a América do Sul no vôo de retorno do Ilyushin-76TD que nos levará a Patriot.

Apenas 12 homens e 3 mulheres correram a maratona. Menos ainda participaram da corrida 100K: 2 e 1, respectivamente. O vencedor masculino da maratona foi o britânico Miles Cudmore, com o tempo de 4h36m53s. Entre as mulheres chegou na frente a finlandesa Kirsi Montonen, com 5h03m48s.

Marc de Keyser, belga, correu os 100 km em 12h49m51s, e Jukka Viljanen, finlandês, em 14h01m20s. A canadense Pushpa Chandra fez o mesmo em 18h33m08s.

As maratonas são organizadas pelo irlandês Richard Donovan, ele mesmo um ultramaratonista. Depois de correr maratonas no Ártico e na Antártica, nos desertos do Saara e de Atacama, nos Andes, no Himalaia e na Amazônia, o economista de profissão abriu a empresa Polar Running Adventures. Toda a logística é da ALE.

Vôo adiado

Enquanto escrevia esta nota, ligou Felicia Ennis, da ALE, para avisar que não decolaremos nesta manhã. Há ventos de mais de 40 km/h na pista de gelo azul em Patriot, portanto acima do limite de segurança de operação. A temperatura lá é de -11C.

Aqui em Punta Arenas, também venta forte desde a madrugada, com jatos de 35 km/h, e a temperatura caiu mais um pouco: máxima de 13C e mínima de 7C. Apesar disso, faz um dia bonito, com muito sol e poucas nuvens, desde pelo menos as 5h30 da manhã.

Felicia ligará de novo às 18h30, para dar a nossa próxima previsão de vôo.

Escrito por Marcelo Leite às 11h35

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Partida para Antártida fica para amanhã

 
 

Partida para Antártida fica para amanhã

Acabo de receber um telefone de Felicia Ennis, da empresa Logística e Expedições Antárticas (ALE, em inglês): o vento está até bom, abaixo de 30 km/h, nos montes Patriot, nosso destino, mas há muitas nuvens baixas. Com isso, a partida do avião-cargueiro Ilyushin-76TD ficou mesmo para amanhã (16), a data prevista. Devemos aguardar um novo telefonema no Hotel Savoy de Punta Arenas (Chile), às 6h30 ou, se o clima nessa região da Antártida continuar desfavorável para o pouso, às 9h30.

O repórter fotográfico Toni Pires e eu já estávamos com tudo pronto. Como instruído no momento da pesagem e do recolhimento da bagagem, às 15h30, mantivemos no hotel só as roupas "urbanas", que ficarão para trás, e uma muda completa de roupas polares, com as quais deveremos embarcar: 4 calças sobrepostas, 3 camisetas térmicas, 1 ou 2 jaquetas de feltro sintético e a parka de plumas - além de gorro, pescoceira, 2 pares de luvas sobrepostas, 3 de meias e uma bota parecida com a de Neil Armstrong - pelo menos no tamanho - quando ele pousou na Lua, em 20 de julho de 1969.

É equipamento que não acaba mais.

Leia a cobertura completa de nossa viagem para acompanhar a primeira missão científica brasileira no interior do continente, na página especial "No Coração da Antártida" da Folha Online.

Escrito por Marcelo Leite às 20h35

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Blogueiro conta como será viagem à Antártida

 

A partir desta quarta-feira (17), o repórter fotográfico Toni Pires e eu acompanharemos o grupo de pesquisadores brasileiros que está no interior da Antártida para investigar as variações do clima e da composição química da atmosfera nos últimos cinco séculos.

Os cientistas chegaram na terça-feira (9) ao monte Johns, um dos lugares menos conhecidos do planeta, na Antártida. O local é o ponto extremo da expedição Deserto de Cristal, a primeira missão científica independente nacional ao continente gelado. Veja, neste videocast, uma breve descrição do que faremos a partir de terça-feira - se o tempo ajudar, claro.

Em tempo: hoje, 14 de dezembro, faz 97 anos que Roald Amundsen alcançou o pólo Sul.

Leia mais sobre a expedição e a Antártida na reportagem abaixo e na página especial da Folha Online.

 



A primeira expedição brasileira ao interior da Antártida já retirou mais de 40 metros de cilindros de gelo perto do monte Johns, 2.115 m de altitude, a uma distância de 1.083 km do pólo Sul. Sob os seus pés há uma camada de cerca de um quilômetro e meio de espessura de gelo azul, neve compactada durante séculos e milênios agora exposta pelo vento, que sublima a camada mais superficial e fofa.

 

Sua missão sobre esse manto de gelo antártico, nunca antes explorado de modo sistemático por equipes brasileiras, é escavar um testemunho de gelo com até 150 metros de profundidade. Os cilindros retirados na vertical guardam muita informação, selada no interior de microbolhas de ar, sobre a atmosfera e o clima da Terra no passado (no caso, nos últimos 400 ou 500 anos).

Jefferson Cardia Simões, Francisco Aquino e Luiz Fernando Magalhães Reis, todos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), e Marcelo Cataldo, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), aterrissaram às 13h45 (hora de Brasília) de segunda-feira. Os termômetros marcavam -19ºC, mas a sensação térmica era de -25ºC, por força do vento.

Nos próximos dias, a Folha vai acompanhar de perto a expedição, chamada Deserto de Cristal. É a primeira vez que um jornal brasileiro envia repórteres ao interior da Antártida. A reportagem deverá partir de Punta Arenas, extremo sul do Chile, na próxima terça-feira (15), e retornar no dia 29 --a agenda depende, claro da meteorologia notoriamente variável do continente branco.

Na quarta-feira à tarde, falando por telefone (em ligação transmitida diretamente via satélite), Simões informou que a sensação térmica estava na casa dos -30ºC, mas suportável. "O tempo está bom, tivemos três dias de muito sol", disse.

"Em quatro ou cinco dias chegaremos lá [aos 150 metros de escavação]. Só estamos torcendo para não dar nenhuma tempestade." Os cientistas só contam ali com quatro barracas: dormitório, cozinha, banheiro e "laboratório" --aquela sob a qual os cientistas escavam, protegidos do vento.

O monte Johns fica uns 400 km a oeste do acampamento-base que o grupo montou em 30 de novembro junto aos montes Patriot. Ali está também a base da empresa que transportou a equipe de pesquisadores de Punta Arenas (Chile) a Patriot e depois a Johns, onde o quarteto deve permanecer até quinta-feira.

Terra incógnita

A área em estudo, entre os montes Johns e Woolwards, fica numa das regiões menos conhecidas da Antártida. Segundo Simões, uma equipe científica norte-americana a cruzou no início da década de 1960. Alguns chilenos estiveram lá, por períodos breves.

"É um grande deserto de neve e gelo se estendendo por todo horizonte, ou seja, um verdadeiro deserto de cristal", descreve Simões, por e-mail. As conexões de computador também são feitas por meio de telefones transmitido via satélite.

"Mesmo a palavra 'monte' [Johns] é inadequada, pois na verdade só existe um rochedo que atinge 90 metros acima da superfície do gelo. Isso é tudo o que aparece de uma montanha coberta por mais de 1.000 metros de gelo."


 

Escrito por Marcelo Leite às 18h46

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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