Ao volante, somos todos patetas

 

Você já teve vontade de recomendar um livro antes mesmo de ler? É o que vou fazer aqui, sob o disfarce de recomendar a leitura da resenha que Mary Roach fez para o jornal The New York Times do livro Traffic, de Tom Vanderbilt.

O subtítulo do livro de Vanderbilt já diz quase tudo: "Por que dirigimos do jeito que dirigimos (e o que isso diz sobre nós)". E Roach diz tudo, quando afirma que um título alternativo para o livro seria "Idiotas".

Você sabia, por exemplo, que 12,7% da lentidão depois de um acidente nada tem a ver com a obstrução da pista pelo próprio, mas com o fato de os curiosos tirarem o pé do acelerador? Não conheço palavra específica para designar esse tipo de motorista em português, mas a resenha (e provavelmente o livro) usa duas, das boas: "gawkers" (boquiabridores?) e "rubberneckers" (pescoçudos?). Em alemão conheço o eufemístico "Schaulustiger" (espiófilos?).

Numa prévia ou pista do que terei a dizer amanhã em minha coluna na Folha, traduzo trecho da resenha de Roach sobre os jipões:


SUVs [veículos esportivos utilitários] são mais perigosos do que carros. Não só porque são mais lentos para parar e mais difíceis de conduzir, mas porque - por conferir uma sensação de segurança - convidam um comportamento negligente. "Quanto mais seguros os carros se tornam", diz Vanderbilt, "mais riscos os motoristas escolhem correr" (motoristas de SUVs têm maior probabilidade de não se importar com seus cintos de segurança, de falar no celular enquanto dirigem e de não usar cintos de segurança enquanto falam no celular).

Assim são as coisas em boa parte do universo da direção. Mais pessoas são mortas quando atravessam a rua na faixa do que fora dela. Motoristas passam mais perto de ciclistas numa rua com ciclovias do que numa sem ela.