Micróbios podem causar esquizofrenia?

 

Vírus da gripe (influenza) aumentado cerca de 100 mil vezes

A Scientific American Mind não é o que se chama de periódico científico, ou seja, uma publicação técnica cujo conteúdo é avaliado por pesquisadores antes de ir para o prelo. É uma revista de divulgação, mas por isso mesmo está em melhor posição para reunir o saber disperso nos periódicos sobre determinado campo de pesquisa e apresentá-lo de forma coerente para o público interessado mas leigo - como faz agora na edição de abril com o tema fascinante da possível ação de vírus, bactérias e outros micróbios na doença mental, esquizofrenia à frente.

A hipótese é apresentada de maneira competente em reportagem de Melinda Wenner. Disponível em inglês, o texto recebeu o título "Infectado com Insanidade: Podem os Micróbios Causar Doença Mental? Vírus e bactérias podem estar na raiz da esquizofrenia e outros transtornos".

A maior parte das pessoas acredita que transtornos mentais como esquizofrenia, depressão e psicoses estão relacionadas com a história de vida (traumas, emoções) ou com fatores hereditários. A hipótese discutida no texto de Wenner, porém, tem mais de um século. Wenner conta que já em 1896 um editorial na revista-irmã Scientific American discutia a possibilidade de que micróbios tivessem parte na insanidade. Depois, com as vogas da psicanálise e da genética, essa teoria caiu em desuso.

Algumas evidências nesse sentido, contudo, não iam embora. Duas centenas de estudos, conta Wenner, relacionam casos de gripe no início da gravidez com posterior ocorrência de esquizofrenia no indivíduo em gestação. Esta forma de doença mental seria 5% a 8% mais freqüente em crianças nascidas no inverno e na primavera, quando infecções com o vírus da gripe são mais comuns. Outro micróbio que ataca grávidas já correlacionado com esquizofrenia é o Toxoplasma gondii.

Ninguém sabe, porém, como se dá esse elo entre infecção e doença mental. Correlação não indica necessariamente uma causa, pois não se exclui que a sucessão dos dois fatores (infecção na gravidez e esquizofrenia no indivíduo gestado) seja uma coincidência sem maior significado. Mas correlações como essa são pistas que os cientistas estão treinados a perseguir.

Eles têm alguns palpites sobre o que pode estar acontecendo. Os próprios micróbios podem estar afetando o desenvolvimento cerebral do feto, embora isso seja menos provável (há barreiras eficientes separando o feto da mãe e o cérebro do restatne do organismo).

Pode também ser efeito de citocinas, substâncias produzidas em grande escala pelo corpo atacado por uma infecção como a gripe, mas que também têm efeito sobre células nervosas. Pode, por fim, ser resultado do próprio sistema imune, que passa a atacar neurônios como se fossem corpos estranhos. Muita pesquisa ainda terá de ser feita para verificar essas possibilidades.

O ceticismo diante da hipótese infecciosa, contudo, não deve ser exagerado. Há pelo dois precedentes a ensinar que a ação de micróbios está na origem de doenças que por muitos anos foram atribuídas a outras causas, descobertas que deram grande contribuição para enfrentar problemas sérios de saúde pública. Uma foi o envolvimento da bactéria Helicobacter pylori nas úlceras e tumores estomacais. Outra, o papel do papilomavírus humano (HPV) nos cânceres de colo do útero.

Melinda Wenner alerta que um eventual envolvimento da gripe no começo da gravidez com esquizofrenia também pode ter conseqüências em saúde pública. Nos estados Unidos, por exemplo, recomenda-se que mulheres grávidas tomem vacina contra gripe. Se aquela hipótese da reação imune for correta, o procedimento poderia até aumentar os casos de esquizofrenia no futuro.