Descobri que o jornalista Marcos Sá Correa, uma das cabeças à frente da competente Piauí (nossa New Yorker) e do site O Eco (leia aqui o que ele escreveu hoje), também se excede na fotografia. Foi por meio de seu blog que descobri essa outra face: feliz, como atesta a foto acima, feita no Parque Nacional de Iguaçu.
Não deixe de se maravilhar, como eu, com esta galeria de sua autoria no Flickr.
Ex-praticante de ioga, coisa que fiz por uns dois ou três anos (insuficientes para decorar os nomes dos chacras e todo aquele blablablá), andava precisado de uma boa desculpa para voltar. Agora já tenho: a meditação, sempre presente nas aulas que fazia, parece capaz de cortar pela metade o risco de ataques do coração.
Você poderá suspeitar dos resultados, que li numa notícia do boletim ScienceNow, porque foram obtidos por Robert Schneider, da Universidade Maharishi de Administração, em Fairfield, Iowa (EUA). Mas Schneider teve a colaboração de Theodore Kotchen, da Escola Médica de Wisconsin, em Milwaukee. E o trabalho foi aceito para apresentação (ontem) no congresso da Associação Americana de Cardiologia em Orlando, Flórida.
Para o estudo, 201 pacientes pretos e pardos - "afro-americanos", na nomenclatura dos EUA - com obstruções coronarianas foram divididos em dois grupos. Um recebeu terapias convencionais. O outro praticou 15 a 20 minutos diários de meditação transcendental, técnica desenvolvida pelo guru indiano Maharishi, em média por cinco anos.
O segundo grupo teve 47% menos infartos, derrames e mortes que o primeiro. Medicamentos para reduzir o colesterol, como estatinas, reduzem o risco em 30-40%. Drogas que controlam a pressão arterial conseguem 25-30%, segundo a reportagem de Jue Wang na ScienceNow.
Espero que a ioga, se de fato voltar a praticá-la, melhore também a memória. Já ia postando esta nota quando sobreveio a sensação de já ter escrito sobre isso. Uma googlada - bendita memória artificial - revelou que o pressentimento era correto: há mais de três anos, em 14 de junho de 2006, escrevi a coluna "Meditação ajuda coração doente" para a Folha de S.Paulo. Dizia:
A meditação transcendental faz bem ao coração que sofre. Muita gente não acredita, por duvidar de tudo que venha de Maharishi Mahesh Yogi, ex-guru dos Beatles envolvido no passado em denúncias de sexo com suas fiéis. Mas quem diz, agora, é a sexta revista médica mais influente do mundo, a "Archives of Internal Medicine".
(...)
A hipótese do grupo de [Cathleen] Merz [pesquisadora do Centro Médico Cedars-Sinai] é que a meditação module a resposta do sistema nervoso ao estresse da vida contemporânea, uma bateria de sinais enviados ao corpo que compõe a chamada ativação neuro-humoral. Ela pode conduzir a uma série de problemas crônicos, como inflamações, que aumentam o risco de uma falha fatal do coração.
"O ensino de MT é altamente padronizado, de modo que o treinamento de mais de 50 participantes nos três anos de estudo foi consistente ao longo do tempo", explica [ Maura Paul-]Labrador [primeira autora do estudo].
No passado, as alegações de efeitos cientificamente comprováveis da MT deram origem a uma controvérsia acalorada, com acusações de fraude e preconceito. Mas Merz avisa que já está estudando a possibilidade de pedir financiamento para fazer um estudo maior ainda.
Paula e Ana (no banco de trás) com soldado oriental na "Faixa da Morte" do Muro (Foto: Claudia Kober)
Hoje faz 20 anos que o Muro de Berlim começou a cair. Ainda não chegou de todo ao chão. A história tem um ritmo às vezes difícil de suportar.
Basta viajar a Berlim, como fiz em julho depois de 13 anos de ausência. Quem não for cego vai notar - em meio a toda a exibição de glamour arquitetônico - os guetos de desolação pessoal e desajuste. Não faltam solitários e casais de meia idade esperando passar o tempo em bancos de praças de concreto com mato crescendo entre as rachaduras, um sanduíche vagabundo na mão, ou a garrafa.
A Queda do Muro, maiusculizada, não pode contudo deixar de ser comemorada e rememorada por quem já antes, mesmo que de esquerda, abominava as práticas soviéticas (e chinesas, por falar nisso). Era uma farsa que se acabava.
Talvez a maior farsa de todas se encenasse na Alemanha Oriental, com seu nome ridículo: República Democrática Alemã. A única coisa que abundava ali era falta de liberdade. Todo mundo vigiava todo mundo, parente contra parente, amigo desconfiando de amigo. Um encrave provinciano em que todos falavam uma língua de filósofos mas que se presta tão bem a enunciar ordens para cães.
Cada um que tenha nascido antes de 1970 extrairá da Queda do Muro suas próprias lições. As minhas se resumem a um alerta contra o entusiasmo em política. Daquele momento histórico prenhe de júbilo e euforia a memória preferiu reter mais cenas constrangedoras do que esperançosas.
As filas de alemães orientais para coletar seu Begrüßungsgeld, um troco que a rica Alemanha Ocidental dava de presente para os primos pobres que atravessavam pela primeira vez a fronteira, antes da reunificação em 3 de outubro de 1990.
Em 1º de julho do mesmo ano, dia da unificação monetária, a multidão reunida na Alexanderplatz erguendo notas de cem marcos no ar, como troféus. Quatro anos depois, veria pela TV cenas similares com o lançamento do real no Brasil.
Numa visita a fábricas fechadas em Bitterfeld - a Cubatão alemã-oriental -, ex-gerentes comunistas, ou gerentes ex-comunistas, fazendo rapapés para os novos patrões ocidentais enquanto afastavam às cotoveladas os jornalistas.
Soldados soviéticos com rostos infantis e asiáticos, no domingo de folga em Potsdam, posando para fotos ao lado de Mercedes-Benz e de turistas tão embasbacados com seus quepes monumentais quanto eles com os carrões.
Berlinenses ocidentais resmungando - ou hostilizando abertamente - contra os poloneses e ciganos romenos que invadiram a cidade nos primeiros meses de 1990 e passavam como gafanhotos pelos supermercados, esvaziando prateleiras de leite e de sabão em pó.
A história acontecia diante dos olhos, mas seus trabalhos, como na guerra, tinham um quê de mesquinho, sujo, pedestre. Era uma rendição em câmera lenta, inescapável e necessária, mas abjeta.
Pessoas que só haviam aderido ao socialismo por imposição ou oportunismo se livravam dele com um duplo rancor - contra o capataz comunista que fingia pagá-los enquanto fingiam trabalhar e contra os ricaços ocidentais que fingiam abraçá-los enquantro troçavam deles pelas costas.
Foi isso que testemunhei durante seis meses, de março a setembro de 1990, enquanto morei em Berlim Ocidental, como correspondente da Folha. A maior parte do Muro ainda estava lá, nos pedaços que qualquer passante podia descascar com formões e marretas alugados. Mas também nas cabeças, mais duras.
O governo democrata-cristão de Lothar de Maizière, encarregado de apagar a luz da RDA, se esforçava por manter as aparências de dignidade. Não era uma derrocada, mas uma nação que soberanamente se lançava nos braços de um país-irmão, de igual para igual. A seu lado, uma doutora em física e porta-voz não muito loquaz ouvia tudo e aprendia, sem a vocação de De Maizière para o rodapé da história: Angela Merkel.
Dos briefings quase diários de Merkel sobre a negociação do tratado de reunificação seguia para o Centro Internacional de Imprensa. Não havia internet, nem telefones celulares, apenas máquinas de escrever, fax e telex. Sendo esta a ligação mais barata, era opção obrigatória naqueles tempos de Plano Collor.
Funcionárias uniformizadas e monoglotas (quando muito conheciam rudimentos de russo) recebiam o texto em qualquer língua e o transcreviam de graça, com eficiência prussiana, em fitas perfuradas, que depois seriam empregadas para transmitir com rapidez a reportagem para o Brasil. Aos poucos, elas foram desaparecendo, engolidas na implosão da burocracia. Ao final, sentava e escrevia os textos diretamente na máquina de telex, em ligação direta com o Brasil.
Tudo ruía lentamente, como o Estado socialista, sob o peso da própria inoperância. O centro de imprensa ficava em Berlin-Mitte, na banda oriental, para onde seguia diariamente de carro saindo de Charlottenburg (bairro de Berlim Ocidental que abriga a famosa avenida Ku'Damm). Nas primeiras semanas, sendo estrangeiro, só podia cruzar a fronteira pelo Checkpoint Charlie, na Friedrichstraße.
Os guardas de fronteira alemães-orientais eram de início minuciosos e rudes, ciosos da reputação de atirar para matar. Verificavam o visto no passaporte e examinavam a parte debaixo do veículo com espelhos. Mandavam invariavelmente abrir o porta-malas do Corolla 1982.
Começaram então, imperceptivelmente, a relaxar. Um esquecia o espelho; noutro dia era o porta-malas. Lá por julho ou agosto o agente de gravata desfeita só acenava com a mão de dentro da cabina, como um guarda de trânsito ordenando que a história se acelerasse.
Não dava para passar mais depressa. O recinto estava cheio de obstáculos, barreiras e meandros. A história, como ensinam os livros de Stephen Jay Gould sobre evolução, se faz com o material disponível.
Sempre dá para mudar, mas não muito, nem necessariamente na direção almejada. Acaso e passado têm um peso enorme. Progresso é uma outra história, na qual foi bom deixar de acreditar.
Recebi de uma amiga o seguinte comunicado, que reproduzo:
Jornalistas de todo o país estão convidados a participar de enquete que dará subsídios para criar nova agência brasileira de notícias sobre temas de ciência e tecnologia.
A pesquisa, lançada esta semana pelo Museu da Vida – ligado à Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) – tem como objetivo compreender o papel desempenhado por dois serviços internacionais de notícias na produção de matérias jornalísticas em ciência e tecnologia no país.
Com perguntas sobre como os jornalistas brasileiros se usam os serviços do EurekAlert e do AlphaGalileo, o questionário on line busca identificar quais as principais qualidades e limitações desses agentes de notícias.
Segundo a diretora do Museu da Vida, Luisa Massarani, “as respostas ajudarão a elaborar projeto de uma Agência de Notícias na WEB orientada a divulgar a produção científica e tecnológica brasileira produzida nas universidades e nos centros de pesquisa nacionais”.
A revista No Coração da Antártida, publicada em 22/3/2009 pela Folha de S.Paulo, que tive o prazer de escrever e editar na companhia de Claudio Angelo, Marilia Scalzo e um bando de gente competente, foi escolhida como finalista de um das categorias do Prêmio Esso de Jornalismo:
FINALISTAS AO PRÊMIO ESSO DE INFORMAÇÃO CIENTÍFICA, TECNOLÓGICA E ECOLÓGICA
Marcelo Leite, Toni Pires, Claudio Ângelo, Marília Scalzo, Marcelo Pliger, Thea Severino, Adriana Caccese de Matos, Renata Steffen e Flávio Dieguez, com o trabalho NO CORAÇÃO DA ANTÁRTIDA, publicado no jornal FOLHA DE S. PAULO.
Marques Casara, André Campos, Carlos Juliano Barros, Dauro Veras, Leonardo Sakamoto, Paola Bello e Sérgio Vignes, com o trabalho QUEM SE BENEFICIA COM A DEVASTAÇÃO DA AMAZÔNIA, publicado na revista OBSERVATÓRIO SOCIAL EM REVISTA (São Paulo).
Júlia Kacowicz, com o trabalho O HOMEM E O MAR, publicado no jornal DIÁRIO DE PERNAMBUCO (Recife).
Os vencedores deste ano serão conhecidos no próximo dia 8 de dezembro, durante cerimônia de premiação a ser realizada no Hotel Copacabana Palace, no Rio.
Mais informações sobre a viagem que Toni Pires e eu fizemos ao continente gelado aqui.
Simões com motos da Expedição Deserto de Cristal, na Antártida
Se você tem interesse ou curiosidade em saber mais sobre o Ártico e a Antártida, não deixe de comparecer quarta-feira pela manhã (09:00-11:00) ao evento Polar-Palooza, no Instituto de Oceanográfica da USP, Cidade Universitária. Lá você poderá conhecer pessoalmente Jefferson Cardia Simões, o gaúcho (foto) que liderou a expedição Deserto de Cristal, da qual participei em dezembro-janeiro passados (leia mais aqui).
Adendo para cariocas e fluminenses: O Polar-Palooza se repete na Cidade Maravilhosa, quiçá olímpica.
Sexta-feira (02/10) 09:00 às 11:00 - Casa da Ciência no Rio de Janeiro, Rua Lauro Miller, 3 - Botafogo
Sexta-feira (02/10) 14:00-17:00 - Teatro Solar Meninos de Luz, Rua Saint Roman, 149, Copacabana
Além de Simões, o evento conta com a presença de outros pesquisadores polares brasileiros e estrangeiros. Reproduzo abaixo parte do comunicado que recebi sobre o evento:
Os polos da Terra são as mais frias, mais distantes e as mais inexploradas regiões do planeta. O que acontece lá afeta o tempo e o clima em todos os lugares, até em países tropicais como o Brasil, perto do equador e geograficamente distante dos pólos Norte e Sul. Hoje, o Ártico e a Antártida mudam mais rapidamente do que qualquer outro lugar da Terra, e suas alterações afetam todos nós, tanto agora como no futuro. Explorar os polos continua a ser uma grande aventura, apesar dos ganhos tecnológicos do século 21.
Durante os últimos dois anos, 50.000 pesquisadores de mais de 60 nações exploraram os pólos como parte do 4º Ano Polar Internacional. Eles estudaram pingüins e ursos polares, geleiras e o oceano Antártico. Usando satélites e robôs subaquáticos, descobriram coisas incríveis: águas polares podem ser mais ricas em biodiversidade do que as caribenhas, e novas espécies podem ser encontradas onde quer que você olhe!
Agora os pólos vêm a São Paulo. Pesquisadores brasileiros se juntam a cientistas americanos para compartilhar histórias do Norte e do Sul, e novas descobertas surpreendentes. O especial na apresentação - para jovens e idosos, especialistas e público em geral - são as suas histórias pessoais, usando vídeos de alta definição e artefatos autênticos, tais como as roupas usadas para se proteger contra o frio polar.
Apresentadores:
Glaciologista Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, líder da expedição Deserto de Cristal" a primeira missão brasileira no interior do continente congelado;
Bióloga-marinha Lucia Siqueira Campos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderou algumas das incríveis viagens de descoberta que fazem parte do “Censo da Vida Marinha Antártica” latino-americano (LA CAML).
Visitantes dos Estados Unidos:
Geóloga Kathy Licht, estuda rochas glaciais para compreender o manto de gelo antártico;
Ornitólogo George Divoky – recém-chegado de perigosos encontros com os ursos polares em Cooper Island, Alasca;
Glaciologista Sridhar Anandakrishnan, cujo trabalho atual consiste em estudar os gigantescos mantos de gelo da Groenlândia e na Antártica.
Essa equipe exibirá vídeos de alta definição de suas aventuras e explicará por que os pólos têm importância para o Brasil. Haverá tempo suficiente para perguntas e respostas, em uma oportunidade única de interagir com alguns dos exploradores dos maiores extremos da Terra.
2009 é o 50º aniversário do Tratado da Antártida, um marco do acordo internacional que tem preservado a Antártida para a investigação científica pacífica.
POLAR-Palooza Brasil é possibilitada pelo apoio do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas da UFRGS e da Fundação Nacional pela Ciência dos Estados Unidos (NSF).
A Ilustrada de ontem, (sábado) trouxe resenha minha do livro de Demétrio Magnoli, Uma gota de sangue - História do pensamento racial. Leia os dois primeiros e os dois últimos parágrafos abaixo, ou então leia a íntegra aqui (se for assinante da Folha ou do UOL):
Não se iluda o leitor com o título da obra. O livro do geógrafo e colunista Demétrio Magnoli não é um compêndio. Trata-se de um texto de intervenção no debate brasileiro sobre cotas raciais.
Seu mérito maior é ter muito menos defeitos que o best-seller "Nós Não Somos Racistas", do jornalista Ali Kamel. A tese é a mesma: as ações afirmativas e o movimento negro resultam de uma armação ideológica. Ela conspira contra o princípio da igualdade perante a lei, contra a ideia de nação e, no caso brasileiro, contra seu generoso mito fundacional, a mestiçagem. (...)
Não se busque neste livro de combate a propalada generosidade da mestiçagem. Para Magnoli, políticas racialistas ressuscitam o racismo e, em essência, não diferem das políticas do nazismo e do apartheid. Pouco importa se de um lado está o sujeito do preconceito e, de outro, seu objeto -a crença em raças os irmana.
Não há e não pode haver aperfeiçoamento das ações afirmativas. Aos pardos e pretos pobres de hoje, no Brasil, sob o fardo extra de descender mais obviamente de escravos, resta a esperança de que um dia a nação brasileira cumpra a promessa de dar oportunidades iguais para todos -seja em que geração for.
Muita gente do mundo científico não sabe, as a prestigiada publicação da Academia Nacional de Ciências dos EUA, a PNAS, tinha uma espécie de "tapetão" para artigos apadrinhados: membros da NAS podiam "comunicar" artigos de amigos diretamente aos editores do periódico e facilitar assim o processo de revisão (peer review). Esta segunda porta recebia muitas críticas e agora vai ser fechada, segundo leio no blog ScienceInsider. A partir de julho de 2010, todos os artigos só entrarão pela porta tradicional, da submissão para revisão cega.
Leio no jornal Valor Econômicoreportagem segundo a qual o PV, além de Marina Silva, quer também Gabriel Chalita na eleição de 2010:
Dirigentes do PV contam com a eleição, no Estado, de um senador da provável chapa PSDB/ PMDB e apostam na força eleitoral de Chalita, que em 2008 obteve 102 mil votos para a Câmara Municipal de São Paulo. Ligado à Renovação Carismática da Igreja Católica, Chalita é apresentador na TV Canção Nova, autor de livros e foi secretário da Educação do governo de Geraldo Alckmin (PSDB-SP).
Se eu fosse carola como eles, diria: "Meu Deus!" Sarneyzinho, Gabeira e Chalita no mesmo palanque, justo o de Marina Silva. As voltas que o mundo dá. Só falta agora alguém propor que ele seja o vice da candidata verde.
Imagine um portal de publicações científicas que agregue o conteúdo de 637 periódicos especializados editados em 14 países. Que, ao longo de 12 anos, tenha veiculado 204.764 artigos de pesquisa em 13.824 edições dessas revistas. (...)
Trata-se da SciELO, a Biblioteca Eletrônica Científica Online ("Scientific Electronic Library Online", na sigla em inglês). Apesar do nome, nasceu há 12 anos em São Paulo. De lá para cá, espalhou-se pela América Latina e pela península Ibérica. Agora, atravessou o Atlântico Sul. (...)
É provável que nenhuma outra instituição ou iniciativa tenha feito tanto para tornar a pesquisa brasileira mais visível no cenário internacional. Ao veicular de graça na internet as edições completas dos periódicos científicos associados, a SciELO torna-as acessíveis para qualquer outro pesquisador, ou curioso, do planeta. (...)
A última aquisição foi a África do Sul, onde se fala inglês de verdade -além de africâner, xhosa, zulu e sotho. Uma participação ainda modesta, com apenas cinco periódicos e um total de 25 números. Bem menos que a potência científica da Espanha, cuja adesão teve início em 1999 e conta hoje com 39 revistas (das quais pelo menos cinco em inglês).
A entrada da África do Sul acaba de render mais algumas fichas para a SciELO. Wieland Gevers, um bioquímico que presidiu a Academia de Ciências daquele país de 1998 a 2004, escreveu para o periódico americano "Science" -um dos mais lidos e influentes do mundo- um editorial sobre globalização das publicações científicas que elege a SciELO como exemplo a ser seguido por outras nações africanas e regiões do mundo. O texto saiu na edição de anteontem. (...)
Não é café pequeno. Em alguns gabinetes de Brasília, contudo, a SciELO costuma provocar urticária. Ali se faz vista grossa -e põe grossa nisso- para a inovação brasileira que faz sucesso por todo lado: Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Espanha, México, Paraguai, Peru, Portugal, Uruguai, Venezuela - e, agora, África do Sul.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Reproduzo abaixo cópia da carta da senadora Marina Silva em que sedesliga do PT:
Brasília, 19 de agosto de 2009
Caro companheiro Ricardo Berzoini,
Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica.
O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção. Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.
Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.
Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida.
Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.
É evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas públicas para mantê-las.
Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil – com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais – é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte por quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.
Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias. Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada militante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras em outras searas.
Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.
Rato-herói em ação sobre mina terrestre (Foto: Divulgação/Apopo)
A ideia era tão boa que à primeira vista acreditei ser mentira: ratos treinados para farejar minas terrestres e orientar homens treinados em desativá-as. O nome de fantasia, melhor ainda: HeroRAT, ou Rato-Herói. Dormi em cima da informação até arranjar um tempinho para confirmá-la, o que fiz hoje.
Tudo começou com um panfletinho da organização Apopo que recebi em Lindau, na Alemanha, durante uma reunião de prêmios Nobel em julho (leia mais aqui e aqui, nestei último caso só para assinantes da Folha e do UOL). Ela foi fundada pelo belga Bart Weetens, da Universidade de Antuérpia, com base na idéia de usar roedores para ajudar a resolver o problema de minas terrestres na África. Era um panfleto pedindo doações, na linha "adote um rato e salve crianças africanas arriscadas de perder a perna ou a vida". Nada consegui apurar durante a reunião, mas guardei o papel.
Um movimento tectônico inesperado sobre minha mesa trouxe-o à tona e de volta à atenção. Meia hora de pesquisa na internet revelou que é sério. Weetens treina os ratos africanos do gênero Cricetomys (que têm o tamanho de um gato pequeno) na Tanzânia, em colaboração com a Universidade Agrícola Sokoine, e os emprega para retirar explosivos de campos minados em Moçambique. Há uma série de vídeos no YouTube, começando por este aqui:
Por que usar ratos, e não os tradicionais cães? Bem, eles são mais leves, o que diminui a chance de detonar as minas, que são acionadas pelo peso. São fáceis de encontrar na África e baratos de criar. Seu faro é tão ou mais apurado que o canino. Os tratadores lhes dão nomes e carinho, transformando-os em verdadeiros bichos de estimação (essa bonita expressão do português está desaparecendo, em favor da colonizada palavra "pet").
Rato-herói em ação em Moçambique (Foto: Divulgação/Apopo)
No laboratório, os roedores são treinados a andar em linha reta, presos a um fio-guia, e a arranhar o chão quando farejam a substância explosiva TNT, um cheiro previamente associado com a recompensa (banana, por exemplo). No campo minado, a área é sistematicamente dividida com uma grade de fios-guia, que o bicho passa a percorrer. Quando cavouca o chão, o tratador marca o lugar. Outra técnica usada é levar para o laboratório amostras de terra retiradas de 100m em 100m no percurso de uma estrada em construção, por exemplo.
Não é sensacional? Depois descobri que na página da Apopo há uma série de reportagens em órgãos da imprensa internacional sobre a experiência. Nada vi no Brasil, mas se alguém tiver lido ou visto algo sobre ela em português, será um prazer incluir o link aqui.
Este blog ficará mais ou menos fora do ar até dia 4 de agosto, por motivo nobre: férias do responsável. De domingo (28/6) até quinta (2/7) estarei no 59] Encontro de Prêmios Nobel de Lindau (Alemanha), de onde pretendo postar algo, mas depois o silêncio será mais provável. Até a volta.
Dois gigantes da divulgação científica - os periódicos científicos da família Nature e todos os produtos leigos da grife Scientific American - se encontram agora sob o mesmo teto, o do Grupo Editorial Nature (NPG) britânico. Leia o que diz comunicado distribuído a jornalistas de ciência pela Nature:
NPG e Scientific American estão se unindo em um único negócio, subordinado ao diretor administrativo do NPG, Steven Inchcoombe. As duas marcas icônicas de Nature e Scientific American posicionarão o NPG como o mais autorizado e abrangente grupo de mídia científica, abarcando do consumidor ao acadêmico, do estudante de ensino básico ao pesquisador.
É impressionante ver reunidas as duas fontes de informação que estiveram na origem de meu interesse e aperfeiçoamento como jornalista de ciência. A SciAm não figura mais como uma fonte relevante ou frequente de pautas para repórteres da área (e a Nature, cada vez menos), mas ainda assim são publicações para lá de respeitáveis, cuja leitura contribui muito para manter todos os interessados em pesquisa a par do que vai pelo mundo, sobretudo fora de suas áreas de especialidade.
Verticalização, porém, sempre traz seus riscos. A Nature montou uma máquina eficiente de divulgação antecipada do conteúdo de duas dúzias de revistas e periódicos, à qual se agrega agora a SciAm. Esse serviço é por vezes acusado de privilegiar trabalhos com mais apelo científico que jornalístico [CORREÇÃO em 25/6, 11h20: obviamente, "mais apelo jornalístico que científico"], e a estréia da SciAm fornece algum apoio à tese.
No site da Nature para jornalistas de ciência, o artigo destacado da SciAm versa sobre uso de técnicas forenses para localizar a origem de uma carga de dez toneladas de marfim ilegal apreendida em 2006. Leitura de interesse certo, pois envolve um elemento inconteste de sucesso na área - bichos, e ainda por cima bichos ameaçados e populares como elefantes. Note, porém, a capa da SciAm internacional de julho (não confundir com a tradução brasileira):
Capa da edição de julho (Reprodução)
O tema é a nova geração de biocombustíveis (álcool celulósico, obtido de restos vegetais, capim etc. - já apelidado em inglês de "grassoline"). Parece bem mais relevante, diante da necessidade mundial de desembarcar dos combustíveis fósseis, tanto é que ganhou a capa. Mas tem menos chance de atrair a atenção de repórteres de ciência, deve ser o cálculo.
Passei os olhos pelo artigo, bem informativo. Não toca, porém, na enorme diferença de rendimento entre cana-de-açúcar e milho para obtenção de etanol no momento presente, nem das sobretaxas protecionistas impostas pelos EUA (que usam milho) ao produto do Brasil (campeão da cana). "Cana" e "Brasil", aliás, são mencionados uma só vez na reportagem de capa.
Recebi comunicado sobre curso de jornalismo científico no Recife em setembro, que reproduzo:
Com objetivo de fornecer ferramentas para a reflexão sobre os mecanismos e os processos de cobertura de temas de ciência e tecnologia em diferentes meios de comunicação – como televisão, rádio e internet, por exemplo – e aprimorar sua cobertura jornalística, será realizado o curso "Ciência e Mídia – Capacitação em jornalismo científico", em Recife, de 2 a 4 de setembro.
O curso, que é gratuito, terá 50 vagas e será voltado para jornalistas interessados em jornalismo científico, que já atuem, ou não, na área. O programa do curso reúne palestras, mesas-redondas e atividades práticas ministradas por cerca de 20 profissionais com diversas atuações na área de divulgação científica.
Será oferecido auxílio – passagem, hotel e alimentação - para 20 jornalistas que atuem em universidades, institutos de pesquisa e meios de comunicação de massa no Nordeste, exceto Recife, local onde o curso será realizado.
O curso é uma iniciativa da Coordenação de Gestão do Conhecimento do Departamento de Ciência e Tecnologia/Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica/Museu da Vida/ Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, da Assessoria de Comunicação do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz e da Coordenação de Comunicação Social da Fiocruz.
SERVIÇO:
Início das inscrições: 22 de junho
Público-alvo: jornalistas que atuem em meios de comunicação de massa, universidades e instituições de pesquisa
Fim das inscrições e prazo para postagem de documentação: 27 de julho (não serão aceitos documentos com data de postagem posterior)
Endereço para envio da correspondência: Ciência e Mídia - Curso de Capacitação em Jornalismo Científico Ministério da Saúde Departamento de Ciência e Tecnologia Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 8º Andar, Sala 851 70058-900 Brasília – DF
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