Da arte de enxugar geleiras

O caderno Ilustríssima de ontem, na Folha, traz longa resenha de quatro livros sobre a polêmica em torno da mudança do clima causada pelo homem (ou aquecimento global antropogênico), com belas ilustrações de Mariana Zannetti. Reproduzo aqui trechos incompletos sobre os dois melhores livros:

 


(...)

 

[É] imprescindível ler "Merchants of Doubt" [Mercadores da Dúvida, Bloomsbury Press, 2010, 368 págs., U$ 27, R$ 46], de Naomi Oreskes e Erik M. Conway.
É espantoso constatar que Fred Seitz e Fred Singer, dois dos mais vociferantes críticos do aquecimento global, estão há muito tempo no negócio de lançar dúvidas sobre qualquer ramo de investigação científica que possa prejudicar a indústria. Eles abominam todo tipo de regulamentação para mitigar efeitos não pretendidos do capitalismo sobre o ambiente e a saúde humana.

Os dois Fred são físicos, mas não especialistas em clima, como tampouco o são Alexander e José Carlos Azevedo, o mais ativo cético brasileiro, morto em fevereiro deste ano (Singer, especialista em foguetes e satélites, é o que chega mais perto disso). Formados no auge da Guerra Fria, ocuparam posições de algum destaque na administração republicana de Ronald Reagan (1981-89). Defenderam a Iniciativa de Defesa Estratégica, uma fantasiosa "Guerra nas Estrelas" projetada para anular com armas orbitais o poderio nuclear soviético, se utilizado. Participaram da fundação de "think tanks" conservadores de Washington, como o Instituto George C. Marshall.

De 1979 a 1985, Seitz dirigiu um programa para a empresa de cigarros R.J. Reynolds, dotado com US$ 45 milhões para financiar pesquisadores dispostos a encontrar evidências que exonerassem o produto de danos à saúde humana, ou que pelo menos pusessem em dúvida estudos indicando o contrário. Em meados da década de 1990, já no debate sobre fumo passivo, Singer ajudou a preparar um relatório descascando a agência ambiental americana (EPA) por suas conclusões sobre o risco.

Coordenando os esforços estava a firma de relações públicas Hill and Knowlton. Seu fundador e presidente, John Hill, havia traçado a estratégia diversionista, já em 1953, que faria escola: "As dúvidas científicas precisam continuar".

Não foi outra a estratégia -desacreditar pesquisas- empregada num longo rol de controvérsias: fumo passivo, chuva ácida, buraco de ozônio, DDT, inverno nuclear, aquecimento global... Um grande aliado nessa empreitada, narram Oreskes e Conway, foi a imprensa, em especial órgãos de orientação conservadora ou pró-empresarial, como o diário "Wall Street Journal".
(…)

Estamos, aqui, no campo dos valores, não dos fatos. Tal admissão só se encontra, sem meias palavras, noutro livro surpreendente, "Why We Disagree about Climate Change [Por que Discordamos sobre Mudança do Clima, Cambridge University Press, 2009, 432 págs., £ 16,99, R$ 44], de Mike Hulme.

Hulme, ele sim, é um pesquisador atuante na área. Trabalhou na Unidade de Pesquisa do Clima da Universidade de East Anglia - epicentro britânico do Climagate - e dirigiu por sete anos o Centro Tyndall de estudos interdisciplinares sobre aquecimento global, no Reino Unido. Seu relato, um arrazoado sobre as guerras do clima, surpreende porque, sem negar as constatações científicas que ajudou a inscrever nos relatórios do IPCC, Hulme não poupa ceticismo (no bom sentido) diante de correligionários, pondo-se a examinar criticamente seus pressupostos, como um bom cientista social.

Um dos alvos favoritos de Hulme é o catastrofismo de seus pares nas mensagens sobre o aquecimento global. Mais que uma questão física, o aquecimento global tornou-se, em sua óptica, uma questão social e política complexa demais, que não comporta uma resposta simples e mágica como aparenta ser a mera redução de emissões de gases do efeito estufa. É o tipo do problema "enroscado" ("wicked"), para o qual só se obtêm soluções "canhestras" ("clumsy").

O retrospecto desanimador da negociação internacional sobre emissões, do Rio e Kyoto a Copenhague e Cancún, só lhe dá razão. O Protocolo de Kyoto (1997) mandava reduzir em 5% os gases estufa de nações desenvolvidas até 2012. Desde então, as emissões globais subiram 16%.

Enquadrar a mudança do clima como uma ameaça cataclísmica para a qual só a ciência teria remédio é condenar o debate ao impasse, por tentar silenciar vozes opostas (por mesquinhas e sibilantes que sejam). Hulme propõe examinar as narrativas e mitologias embutidas na questão do aquecimento global, de maneira a aliviá-la das camadas de expectativas que sobre ela se foram acumulando, até torná-la intratável. (...)