Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Nós e os grandes primatas do zoo

 
 

Nós e os grandes primatas do zoo

A Folha de hoje traz um texto de análise (aqui, só para assinantes) de minha autoria sobre a proposta de fechar os zoológicos, defendida anteontem em entrevista pelo empresário e microbiologista Pedro Ynterian, presidente internacional do "Great Ape Project" e dono de um santuário de animais resgatados em Sorocaba.

Apesar da simpatia pela causa dos animais e de Ynterian, acho a ideia um pouco exagerada. Frequentei muito o Zoológico de São Paulo quando criança e adolescente, o que permitiu testemunhar a evolução "humanitária" dos recintos habitados pelos animais. Faz tempo que lá não vou, desde que minhas filhas deixaram de ser crianças, mas até onde sei não há mais muitos bichos confinados nas jaulas minúsculas e fedorentas de antigamente.

Fiquei fascinado na primeira vez em que vi a planície dos antílopes, se me recordo bem do nome. Idem com a imensa gaiola das harpias. Mas sempre acreditei piamente na informação de meu pai de que o balançar da cabeça do elefante era sinal de loucura, pois era exatamente o que meus próprios olhos informavam.

Reproduzo abaixo a primeira versão do texto escrito para o caderno Cotidiano, que teve de ser cortado para caber na página e no espaço que lhe foram destinados.


Uma década atrás, visitantes do Instituto Montanhas Rochosas em Snowmass, Colorado (EUA), davam com dois orangotangos de pelúcia no sofá da recepção.

Amory Lovins, ambientalista visionário, reagia entre sério e ofendido à indagação sobre o que aqueles macacos (“monkeys”) faziam ali: “Não são macacos, são grandes primatas” (“great apes”).

Era um alerta de que gente inteligente e competente se preocupava com o destino e a vida desse grupo de animais com quem os humanos partilham a família Hominidae.

São sete espécies na família: Homo sapiens, duas de gorilas (Gorilla gorilla e Gorilla beringei), duas de chimpanzés (Pan troglodytes e Pan paniscus, os bonobos) e duas de orangotangos (Pongo pygmaeus e Pongo abelii).

Das seis não humanas, duas se encontram criticamente ameaçadas de extinção e quatro, ameaçadas.

Além de partilhar a maior parte de seu genoma, são também os animais mais populares dos zoológicos. O interesse pode parecer mútuo, mas a presença das grades e dos vidros deixa claro quem é livre e quem é coisa.

Índios brasileiros, fueguinos e hotentotes africanos também foram um dia exibidos, como animais, na Europa. Isso para não falar da escravidão, que já foi considerada parte da ordem natural até por crentes em Deus.

Muita coisa na sensibilidade ocidental se modificou desde 1975, quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Libertação Animal”, que se tornaria a Bíblia do movimento pelos direitos dos animais. A obra acaba de ser relançado no Brasil pela editora Martins Fontes.

Duas cientistas também contribuíram para essa mudança: Jane Goodall, a amiga dos chimpanzés, e Dian Fossey, que pagou com a vida por defender gorilas da montanha contra caçadores.

Hoje se admite que os grandes primatas têm cérebros, mentes e comportamento similares, em muitos aspectos, aos de primos humanos. Inúmeros estudos demonstraram que são portadores de faculdades antes atribuídas exclusivamente a humanos, como o uso de símbolos, ferramentas, guerras e sexo interessado.

Singer e seus seguidores querem esvaziar as jaulas de grandes primatas nos zoos e dar-lhes status jurídico de pessoas. Negar-lhes isso seria aferrar-se ao que chamam de “especismo”, como escravocratas ao racismo.

Não é fácil traçar a fronteira, porém. Os amigos dos grandes primatas poderiam ser acusados de “familismo”, por exemplo. Libertar só os gorilas, orangotangos e chimpanzés deixaria encarcerados todos os macacos do Novo Mundo, como os nosso saguis, micos e bugios.

Esvaziar os zoos, além de quixotesco, impediria muitas crianças de travar um contato mais próximo com os animais. Um caminho intermediário seria exigir um tratamento mais humano para todos os animais, ou seja, espaço e condições de vida em que possam conviver bem.

Quando isso não for possível, como parece ser o caso de elefantes, a proibição parece justa. Não há razão, contudo, para confinar grandes primatas nascidos e criados em cativeiro a santuários, longe das vistas da público.

Escrito por Marcelo Leite às 19h18

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Foto brasileira ganha concurso marinho

 
 

Foto brasileira ganha concurso marinho

Guy Marcovaldi, do Projeto Tamar, ganhou o concurso "Oceano em Foco" do Marine Photobank com a imagem acima, em que o mergulhador liberta uma tartaruga afogada depois de presa numa rede de pescar. Foi considerada a melhor foto para sintetizar as muitas ameaças que cercam a vida no mar.

Escrito por Marcelo Leite às 14h08

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Bacalhau é tudo de bom

 
 

Bacalhau é tudo de bom

 

Uma semana atrás, Johnny Haaberg, representante do Conselho Norueguês da Pesca no Brasil e vice-cônsul da Noruega no Rio de Janeiro, teve publicado artigo (aqui, para assinantes) na página Tendências/Debates da Folha. Dizia que reportagem minha de 7 de outubro, no caderno Turismo do jornal, continha equívocos: “Os consumidores podem ter o prazer de comer o bacalhau norueguês sem se preocupar com a extinção do estoque”, assegurava o autor.

O representante da Noruega está no direito de defender o seu peixe, mas não no de minimizar a preocupação com o meu, o seu, o nosso bacalhau (Gadus morhua, que existe ou existia em todo o Atlântico Norte, não só nas lindas águas da Escandinávia). Por isso lhe respondi hoje, no mesmo espaço, com o artigo “Vocês querem bacalhau?” Adianto alguns trechos:


 

(…) Não havia equívocos na reportagem. Tanto é assim que o artigo, que se propunha a corrigir "impressão totalmente equivocada em relação ao status desse pescado", não contesta suas informações. Ao contrário, a contestação repete afirmações da reportagem. Por exemplo, a de que Noruega e Rússia administram o maior estoque viável do peixe Gadus morhua (nome científico do bacalhau verdadeiro), no mar de Barents. E a de que a cota de pesca do bacalhau para 2011, no Ártico Nordeste norueguês, foi elevada para 703 mil toneladas, já que a população do peixe estaria em recuperação. (…)

A espécie Gadus morhua está classificada como "vulnerável" pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na abreviação em inglês). É o terceiro nível de ameaça, na escala de sete graus que vai de “baixa preocupação” até “extinta”. O fato de haver uma população viável em Barents, manejada segundo recomendações científicas, não diminui a gravidade de sua situação noutros mares.


 

Escrito por Marcelo Leite às 11h05

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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