Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

A virada de Lomborg

 
 

A virada de Lomborg

"Líder dos céticos do clima muda de ideia", noticiou ontem a Folha. Bjorn Lomborg, autor do best seller O Ambientalista Cético, agora se alista entre os que acham que o aquecimento global causado pelo homem ("antropogênico", no jargão do setor) precisa ser combatido.

Só que Lomborg não dá ponto sem nó. Se para vender um novo livro ele precisar dar a impressão de que virou casaca, ele o fará, ainda que negando que o tenha feito. Em lugar de Soluções Espertas para a Mudança do Clima: Comparando Custos e Benefícios, a coletânea que ele organizou poderia chamar-se "O Ambientalista Midiático".

Na realidade, Lomborg não mudou de posição. Seu negócio continua sendo alvejar o processo de negociação internacional que levou ao Protocolo de Kyoto. Primeiro, semeou um monte de dúvidas sobre a gravidade do aquecimento global antropogênico. Depois, defendeu que havia coisas mais urgentes e fáceis de resolver no mundo, como Aids. Agora, duvida que cortar emissões de carbono seja a melhor opção para combater o problema.

Ganha um barrilzinho de petróleo igual ao que Lula reebeu da Petrobras quem adivinhar quais setores da indústria se beneficiam com as propostas "espertas" do Consenso de Copenhague. Mas é justo conhecer e debater os argumentos desse povo amigo de Lomborg no novo livro, entre autores e revisores do Painel de Especialistas que leu e criticou os artigos originais. Afinal, eles podem estar certos, e Kyoto até aqui se mostrou de fato um caminho problemático.

Para dar uma ideia do conteúdo do livro, eis aqui alguns parágrafos seletos traduzidos da introdução e das conclusões disponíveis na página da Amazom.com:


  • Como escrevi em O Ambientalista Cético (2001), o aquecimento global causado pelo homem existe. Ainda há trabalhos significativos e importantes em curso sobre a gama de resultados que devemos esperar, mas é vital enfatizar o consenso sobre as questões científicas mais importantes. Há muito deixamos para trás discordâncias predominantes sobre a ciência da mudança do clima. O debate crucial e relevante, hoje, se dá sobre o que fazer a respeito da mudança do clima - a economia de nossa resposta.
  • Seria moralmente indefensável despender enormes quantidades de dinheiro para obter pequeno efeito sobre o aquecimento global de longo prazo e o bem-estar humano, se pudermos alcançar muito mais impacto sobre o clima -- e deixar as gerações futuras em situação melhor -- com um investimento menor em soluções mais espertas.
  • A mudança do clima é indubitavelmente uma das preocupações principais que o mundo enfrenta hoje. Atraiu a atenção de altos escalões da política e repetidos esforços para formar um consenso global sobre cortes de carbono. Mas muitas questões permaneceram desconsideradas e sem resposta. Deveriam os políticos prosseguir com planos para fazer promessas de cortes de carbono que, baseadas em experiência anterior, são de cumprimento improvável? O que se poderia alcançar plantando mais árvores, cortando metano (CH4) ou reduzindo as emissões de fuligem? É sensato pôr o foco em uma solução tecnológica para o aquecimento? Ou devemos manter o foco na adaptação a um mundo mais quente?
  • O mais importante: a pesquisa aqui reunida e apresentada responde a questão fundamental que com frequência desconsideramos -- não SE deveríamos fazer algo a respeito do aquecimento global, mas sim QUAL A MELHOR MANEIRA de proceder. O ponto de partida para cada capítulo é que o aquecimento global representa um desafio que a humanidade precisa enfrentar.
  • Pergunta para o Painel de Especialistas, com cinco membros (três ganhadores de Nobel):
    Se a comunidade global quiser gastar até, digamos, 250 bilhões de dólares por ano ao longo dos próximos dez anos para diminuir os efeitos adversos das mudanças do clima e maximizar o bem para o mundo, quais soluções gerariam os maiores benefícios líquidos?
  • É claro que, onde for possível fazer reduções relativamente baratas nas emissões de carbono por meio de uso mais eficiente de energia, se trata de algo perfeitamente racional. No entanto, Tol mostrou de forma contundente no capítulo 2 que mesmo um imposto de carbono global altamente eficiente, voltado para o cumprimento da meta ambiciosa de manter o aumento de temperatura abaixo de 2°C, reduziria o PIB mundial anual de maneira impressionante -- cerca de 12,9%, ou 40 trilhões de dólares, em 2100. O custo total seria cerca de 50 vezes o do dano evitado ao clima. E, se os políticos escolherem políticas de cotas e comercialização (cap-and-trade) menos eficientes e coordenadas, o custo pode disparar para 10 a 100 vezes adicionais.
  • Impor um preço no carbono poderia e deveria exercer um papel de âncora - poderia ser usado para financiar P&D e emitir um sinal de preço que induza a mobilização de alternativas tecnológicas eficientes e econômicas. Investir 100 bilhões de dólares anualmente significaria que podemos resolver a essência do problema da mudança do clima ao final deste século.
  • É uma lástima que tantos formuladores de políticas e militantes tenham se fixado no corte de carbono de curto prazo como resposta principal ao aquecimento global. É penoso ler a pesquisa neste volume e perceber que existem alternativas adequadas e eficientes. O próximo passo deve ser assegurar que respostas espertas e sensatas ao aquecimento global recebam mais atenção.
  • Se os líderes do mundo não mudarem de curso, eles estarão nos causando -- e a futuras gerações -- um gigantesco desserviço. Farão muito menos bem por um custo muito mais alto. Se nos preocupamos com o ambiente e em dotar este planeta e seus habitantes com o melhor futuro possível, na realidade temos uma única opção: todos precisamos começar a priorizar seriamente, desde já, as maneiras mais eficazes de resolver o aquecimento global.

Escrito por Marcelo Leite às 09h31

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

IPCC: Fora Pachauri

 
 

IPCC: Fora Pachauri

O relatório do Conselho Inter-Academias sobre os procedimentos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), divulgado anteontem (30/8), pode ser interpretado de mais de uma maneira. Nenhuma delas permite concluir que o trabalho do órgão seja um "caos", como alguns relatos buscaram caracterizá-lo. (...)

O documento das academias parece brando com o IPCC, mas não é. No fundo --ou melhor, nas entrelinhas-- podem-se entrever alguns recados não verbalizados. O mais importante é que o indiano Rajendra Pachauri deveria deixar a presidência do painel. (...)

Em meio a uma guerra de comunicação sobre um erro crasso no Quarto Relatório de Avaliação (AR4, de 2007), Pachauri comportou-se com arrogância, pondo em risco a credibilidade amealhada pelo IPCC ao longo de duas décadas. Tratava-se da previsão do AR4 de que as geleiras do Himalaia poderiam desaparecer até 2035, uma bobagem isolada e irrelevante para abalar a conclusão de que o aquecimento global é inequívoco e parte dele é provocado pelo homem ("antropogênico", no jargão da mudança do clima).

O indiano demorou a responder e não reconheceu de imediato o erro, nem se desculpou logo por ele. Agora tem de aturar a dissecação do episódio pelo comitê. Dois de 12 revisores do trecho haviam apontado inconsistências e falhas de referência (a fonte era uma relatório da ONG ambiental WWF, e não um trabalho científico convencional), mas foram ignorados por autores e editores do relatório. (...)

Diante dessas e de outras cincadas, conclui-se que a proposta do comitê auditor de criar um comitê executivo e o cargo de diretor executivo, abaixo do presidente do painel, todos com mandatos vinculados ao período de produção de um novo relatório (6 anos), constitui uma indireta para Pachauri pegar o boné. Ele comanda o IPCC desde 2002 e tem mandato até que saia o quinto relatório, em 2013 ou 2014. Nega que vá renunciar, mas isso pode ocorrer na próxima reunião dos representantes dos 194 países do painel, em outubro. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha.com.

Escrito por Marcelo Leite às 16h44

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.