Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

O desaparecimento de florestas e bidês

 
 

O desaparecimento de florestas e bidês

Tenho certo fascínio por estatísticas que agregam atos individuais em cifras portentosas. O think-tank ambiental Worldwatch Institute, dos EUA, é mestre nisso - com um viés verde. Na nova edição de sua revista (capa acima), Noelle Robbins revela que o equivalente a 270 mil árvores vão parar todos os dias nos lixões do mundo na forma de papel.

Cerca de 10% disso, diz Robbins, é papel higiênico. Faça as contas: dá quase 20 árvores por minuto, só para uma pequena parte afluente da humanidade realizar essa forma específica de higiene corporal. Para a maioria da população, contudo, não é essa a solução tecnológica do problema - o repertório de alternativas inclui folhas, areia e água.

Como o consumo de papel higiênico está crescendo, a matéria de Robbins se inclina pelo incentivo à reciclagem e aperfeiçoamento do produto. Para pessoas de "fino tato", como dizia uma antiga propaganda, que já enfrentam problemas mesmo com supermaciez e folha dupla, não é uma opção.

Recomenda-se, nesses casos e para todas as pessoas, o meio mais antigo de limpeza corporal - água. Como os banheiros não têm mais bidês, polivalente modalidade de louça sanitária provida de certeiro chuveirinho que, reza a lenda, era proibido mostrar nas raras cenas de Hollywood filmadas em banheiros, resta a ducha sanitária - aquele chuveirinho dependurado ao lado da privada nas construções mais recentes e nos melhores hotéis.

Seu emprego requer alguma prática e habilidade. Iniciantes costumam promover inundações parciais do banheiro, mas mesmo eles dificilmente gastarão mais água no processo do que se consome na fabricação da quantidade equivalente de papel. Com o tempo vem a destreza, e uma pequena porção de líquido garantirá eliminação completa de resíduos, em lugar de espalhamento - para o bem da civilização.

Para quem nunca viu um bidê, achei na internet esta imagem bem ilustrativa:

Escrito por Marcelo Leite às 09h07

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Justiça para Belo Monte

 
 

Justiça para Belo Monte

Reproduzo comunicado de imprensa que acabo de receber:


Justiça suspende leilão e licença de Belo Monte

Juiz federal de Altamira concordou com o MPF em uma das ações civis públicas que tratam das irregularidades no empreendimento

 

A Justiça Federal determinou a suspensão da licença prévia da hidrelétrica de Belo Monte e o cancelamento do leilão, marcado para a próxima terça (20/04). O juiz Antonio Carlos de Almeida Campelo concedeu medida liminar (urgente) por ver “perigo de dano irreparável”, com a iminência da licitação.

A decisão é fruto da apreciação de uma das duas ações civis públicas ajuizadas pelo Ministério Público Federal tratando das irregularidades do empreendimento. Trata, especificamente, da falta de regulamentação do artigo 176 da Constituição Federal, que exige edição de lei ordinária para o aproveitamento de potencial hidráulico em terras indígenas.

“Resta provado, de forma inequívoca, que o AHE Belo Monte explorará potencial de energia hidráulica em áreas ocupadas por indígenas que serão diretamente afetadas pela construção e desenvolvimento do projeto”, diz o juiz na decisão.

Além de suspender a licença prévia e cancelar o leilão, o juiz concordou com as outras medidas solicitadas pelo MPF: que o Ibama se abstenha de emitir nova licença, que a Aneel se abstenha de fazer novo edital e que sejam notificados o BNDES e as empresas Norberto Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Vale do Rio Doce, J Malucelli Seguradora, Fator Seguradora e a UBF Seguros.

A notificação, diz o juiz, é “para que tomem ciência de que, enquanto não for julgado o mérito da presente demanda, poderão responder por crime ambiental”. As empresas também ficam sujeitas à mesma multa arbitrada contra a Aneel e o Ibama em caso de descumprimento da decisão: R$ 1 milhão, a ser revertido para os povos indígenas afetados.

O MPF aguarda ainda julgamento de outro processo, também da semana passada, em que questiona irregularidades ambientais na licença concedida à Belo Monte.

Procuradoria da República no Pará
Assessoria de Comunicação

Escrito por Marcelo Leite às 21h21

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Belo Monte, ou a política como avatar

 
 

Belo Monte, ou a política como avatar

O rio Xingu, a montante da futura hidrelétrica de Belo Monte (Foto: Ayrton Vignola)


A Folha de hoje traz comentário (aqui, só para assinantes do jornal e do UOL) meu com esse título. Reproduzo alguns dos trechos iniciais:


A pior coisa que poderia acontecer com o movimento socioambientalista contra a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, era a adesão de James "Avatar" Cameron à causa. Não do ponto de vista da eficácia, talvez, pois o engajamento do cineasta bilionário projetou o assunto até às colunas sociais. Mas pragmatismo tem limites, ou deveria ter. (...)

A arribação do jet-set ao Xingu só contribui para alimentar o clima de Fla-Flu que se construiu antes mesmo da usina. Deputados do PC do B, militares, ruralistas e barões do setor elétrico ganham pretexto para mais um chilique nacionalista. Ambientalistas de poltrona se inebriam com a gaia onisciência dos povos da floresta, de pele vermelha ou azul.

A maior vítima desse travesti da luta política é a objetividade possível. Nenhum dos lados se presta a um debate substantivo sobre Belo Monte, porque pisar nesse terreiro implicaria uma negociação com final em aberto, ou seja, admitir que sua conclusão poderia ser tanto construir como não construir a hidrelétrica. (...)


A propósito, recebi de Verena Glass, assessora de comunicação do Movimento Xingu Vivo para Sempre, a seguinte manifestação:


Em seu artigo “Belo Monte, ou a política como avatar”, publicado nesta quarta, 14, na Folha de São Paulo, o senhor tece uma série de considerações sobre a adesão do cineasta James Cameron à campanha contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, na sua opinião um erro estratégico diante do crescimento de um neo-nacionalismo anti-ambientalista e xenófobo que tem tomado o Congresso Nacional. Não questionamos esta sua opinião, que lhe é de direito expressar. Mas cá entre nós, o clima de Fla-Flu entre defensores (governo) e opositores (comunidades tradicionais, Ministério Público, acadêmicos e ambientalistas) da usina foi criado pelo PAC, quando foi tomada a decisão política de construção da obra em detrimento de todos os demais elementos legais e constitucionais. Infelizmente, estas questões foram pouco abordadas pela imprensa brasilei ra, que, na maioria dos casos, se limitou a fazer uma cobertura da perspectiva econômica e dos interesses dos grupos empresariais envolvidos. A adesão de Cameron à campanha contra Belo Monte foi um dos poucos momentos a quebrar este moto-continuo.
 
Mas queremos questionar a sua segunda afirmação, a de que “a maior vítima desse travesti da luta política é a objetividade possível. Nenhum dos lados se presta a um debate substantivo sobre Belo Monte”. De fato, é acintosa a decisão do governo de ignorar os próprios pareceres técnicos contrários à obra, a insegurança econômica e a ineficiência energética apontada por órgãos estatais, e os resultados das audiências públicas constitucionais. Nós, da sociedade civil, no entanto, realmente não podemos ser acusados de nos furtarmos aos debates. Foram inúmeras as vezes em que buscamos o diálogo com o governo, seja em pedidos de conversa com os movimentos, seja em audiências públicas organizadas pelo Ministério Público Federal e pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados em Brasília (em ambos o s casos, foram convidados  MME, MMA/IBAMA, FUNAI, etc., que não comparecem em bloco ao debate).
 
Quanto à objetividade dos nossos argumentos, desde os centenas de mapas e estudos técnicos, sociais, antropológicos e jurídicos elaborados pelo Instituto Socioambiental (ISA) a partir da década de 1980, passando por publicações como o livro Tenotã-Mõ, elaborado pelo Professor Oswaldo Seva, da faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp, em parceria com Glenn Switkes, da ONG International Rivers, até o relatório do Painel de Especialistas sobre Belo Monte, constituído a partir da demanda da Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP) de Altamira, do Instituto Sócioambiental (ISA), da International Rivers, do WWF, da FASE e da Rede de Justiça Ambiental, e elaborado por 38 técnicos e pesquisadores de diversas áreas, de universidades de São Paulo, Pará, Amazonas, Rio de Janeiro, Brasília, Peru e Estados Unidos, o que não nos faltou foi conhecimento técnico, argumentação fundamentada e disposição para o debate.
 
Do conhecimento empírico dos moradores das barrancas do Xingu a estudos minuciosos, temos todos os elementos para sustentar os nossos posicionamentos. Mas acreditamos também que a opinião pública brasileira deve ser confrontada com os aspectos emocionais que tocam os que se deparam com a brutalidade do projeto de Belo Monte, sejam crianças ou caciques das aldeias, sejam celebridades internacionais. A sensibilidade por vezes cumpre importante papel, quando a razão se põe surda e muda.
 
Estamos a disposição para lhe enviar todos os materiais que já produzimos sobre o projeto de Belo Monte, e contamos com a sua seriedade e reconhecida excelência profissional para qualificar este debate na mídia.
 
Movimento Xingu Vivo para Sempre

Escrito por Marcelo Leite às 19h23

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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