Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Eduardo Giannetti

 
 

Eduardo Giannetti

Esta é a primeira parte da transcrição da entrevista com Eduardo Giannetti da Fonseca (peço desculpas por eventuais lapsos de revisão no longo texto):


Folha – Como se deu sua aproximação com Marina Silva, foi através de Guilherme Leal e do Instituto Arapyaú, de cujo conselho o Sr. faz parte?

Eduardo Giannetti da Fonseca – Sempre tive admiração pela Marina como figura da vida pública brasileira. Não estava confortável com o caráter plebiscitário da disputa Serra-Dilma. Fiquei muito animado ao saber que o GL estava trabalhando com a MS nesse projeto. E, fundamentalmente, eu quero contribuir para a consolidação da Marina Silva como liderança para o Brasil no século 21. A presença dela no cenário político brasileiro como uma figura de expressão e representante de uma corrente importante de opinião é fundamental. Eu aprecio muito a maneira como ela se posiciona no debate público. Ela me passa uma força e um potencial de mudança no modo de se fazer política no Brasil, um compromisso para valer com a ética, um apreço demonstrado pela trajetória de vida dela pela educação. Uma pessoa vinda de condições muito adversas aproveitou de maneira intensa todas as oportunidades educacionais que a vida lhe propiciou. O meio ambiente é uma questão fundamental para a vida política brasileira e ela é a líder em condições de trazer isso com um grau de centralidade e integração que nenhum outro candidato apresente. Finalmente, acho que ela é portadora de uma visão mais generosa de futuro para o Brasil, ao contrário dos outros candidatos, que têm uma visão mais gerencial do Estado. Ela é portadora de um sonho: um mundo menos sujeito ao econômico no processo histórico. Especialmente educação, meio ambiente e diversidade cultural.

Folha – A questão da sustentabilidade também pesou, então.

Giannetti – Essas questões são tratadas no Brasil de modo inteiramente compartimentado. Fica o pessoal da economia puxando de um lado, o pessoal do meio ambiente puxando do outro. Nós precisamos aprender a integrar tudo isso melhor e a entender a particularidade do Brasil em relação ao seu patrimônio ambiental e a seu potencial de crescimento não dilapidador.

Folha – Qual é seu papel no momento de pré-candidatura de Marina Silva e qual deverá ser no futuro? O Sr. deve se envolver diretamente em formulação de programa de governo?

Giannetti – Esse processo está começando, tenho tido conversas freqüentes coma senadora, estamos nos conhecendo melhor, afinando o nosso pensamento, descobrindo aquilo em que concordamos e aquilo em que eventualmente não concordamos. Um processo de aproximação, no qual espero contribuir com ideias para áreas em que pela trajetória dela não teve um trabalho de reflexão e aprofundamento, como todos nós em muitas áreas não tivemos. Minha presença é complementar, trazendo minha bagagem, minha experiência de alguém que está há 20, 30 anos debatendo questões da vida econômica e social brasileira. Eu não tenho perfil executivo e nunca me envolvi num processo eleitoral. Eu sequer declarei meu voto até hoje, sou um virgem (risos). Me animei com essa perspectiva, porque Marina me passa uma promessa de renovação e uma postura diferente no modo d fazer política. Não aceitar certos compromissos, com forças muito retrógradas, absoluta transparência, enorme compromisso com ética. Trazer educação, trazer meio ambiente, e integrar tudo isso numa visão de um Brasil que resolvendo seus problemas elementares de convivência poderia apresentar algo de original em relação ao padrão iluminista ocidental. O Brasil não precisa ser uma cópia imperfeita do padrão americano, precisa encontrar qual é a sua identidade, o seu caminho, incorporando do mundo ocidental tudo de maravilhoso que ele tem para nos oferecer, mas também não entrando nas armadilhas e nos limites que esse padrão ocidental mostrou, que são basicamente dois: ele não é sustentável, ambiente, não é generalizável, universalizável, e depois ele promete uma felicidade que ele nunca consegue entregar, nunca materializa. Essa promessa de que o consumo e a afluência material vão resolver o problema do bem-estar e da felicidade humana era uma promessa iluminista que o tempo mostrou que não se completa. Além disso, tem um tremendo limite material de destruição das condições biológicas da vida, do sistema biológico dentro do qual a natureza existe. Eu desenvolvi essas idéias num livro chamado “Felicidade”, que é o que tem mais a oferecer como reflexão de filosofia política e do que poderia ser o Brasil original, que não é mera cópia imperfeita do padrão americano. Eu me pergunto: se tudo der certo no Brasil, nós viramos um Estado empobrecido do sul dos Estados Unidos? É esse o nosso sonho civilizatório? Eu tendo a crer que não. Mas se não é isso, o que é?

Folha – Deve ser duro, para quem tem essa visão mais ampla, agüentar o ramerrame político da campanha, as disputas pequenas por poder, prestígio, projeção. O Sr. está preparado para isso?

Giannetti – Sempre prezei a minha independência intelectual. Não sou o tipo de pessoa que se submete no pensamento a algum tipo de projeto de poder. Não posso abrir mão da minha capacidade de pensar por conta própria. Eu quero oferecer o resultado da minha atividade para um projeto político que tem complementaridade com o meu pensamento. Não fujo de modo algum de questões espinhosas ligadas a decisões aplicadas e muito concretas na área de economia, política macroeconômica...

Folha – A sua contribuição deve se dar então mais nessa área de política macroeconômica?

Giannetti – Eu diria que sim, mas não só.

Folha – No que mais?

Giannetti – Na construção de um projeto do Brasil com que sonhamos, de um país que não submete tudo às decisões de ordem econômica, O sonho que o Keynes tinha no belíssimo ensaio dele, “As possibilidades econômicas para os nossos netos”. Quando a humanidade tiver resolvido certos problemas materiais, vencido a escassez, qual será o lugar do econômico na existência humana? Keynes acreditava que seria muito secundário. Ele não ocuparia, nem pautaria, todo o processo decisório. Crescer o PIB de qualquer maneira não seria a ambição desesperada de todas as nações. E não foi por aí que as coisas se encaminharam. Pelo contrário: a humanidade parece que quanto mais prospera mais obcecada fica com o econômico. Uso uma analogia com a saúde: imagine uma pessoa que quanto mais a saúde melhora mais preocupada e obcecada fica com a própria saúde. A saúde deveria ser uma coisa que libera o ser humano para poder viver uma vida plena. Se você não tem saúde, você precisa recuperar. Mas no momento que recupera, deveria liberar para que as pessoas possam apostar nos seus projetos. A humanidade não consegue dar esse passo. Quanto mais prospera e mais avança a tecnologia, a produtividade, mais preocupadas as pessoas e as sociedades ficam mais enredadas com o econômico.

Folha – O Brasil é um bom exemplo disso?

Giannetti – Com agravantes de desigualdade que exacerbam muito a preocupação com o econômico. A desigualdade tem um aspecto interessante: para os que estão carentes e passando por privações, o econômico fica compreensivelmente supervalorizado, mas também para os que estão no topo porque confere a eles um poder desmesurado em relação aos que não têm. Ela distorce os valores nas duas pontas. Por exemplo: conversando com a senadora, em vários momentos concluímos que o importante é a igualdade de oportunidades. Precisamos caminhar para um país muito mais generoso na abertura de oportunidades para que os indivíduos possam se capacitar e se diferenciar, inclusive no valor que atribuem ao econômico como realização. O importante não é a igualdade de resultados mas a igualdade de oportunidades, e a capacitação, o leque de opções efetivas abertas ao indivíduo. O que é totalmente intolerável é o sujeito cujo futuro está determinado pela condição que acidentalmente lhe ocorreu ao nascer.

Escrito por Marcelo Leite às 18h27

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

A pior coisa do jornalismo...

 
 

A pior coisa do jornalismo...

... não é a sem-cerimônia com que redatores e editores distribuem rótulos e preconceitos a torto e a direito.

... não é a disputa por migalhas de poder, espaço e aparência de esperteza.

... não é a ignorância empalidecedora da língua portuguesa, que prodigaliza crases antes de palavras masculinas.

... não é a capacidade de sacrificar amizades, torturar ideias e torcer palavras para obter um título mais vibrante ou atingir um colega.

A pior coisa do jornalismo é tirar (transcrever) fitas de entrevistas gravadas. De longe.

Na semana passada, gravei três. Pela ordem: Kumi Naidoo, diretor executivo internacional do Greenpeace; Al Gore (vocês sabem quem é); e Eduardo Ginannetti da Fonseca, conhecido economista e ensaísta que aderiu à pré-campanha de Marina Silva.

Só Kumi não me deu esse trabalho infernal de tirar a fita, porque decidimos publicar seu material como um perfil do primeiro africano a dirigir a ONG-espetáculo. Bastou ouvir a gravação e sapecar o texto.

Gore foi de certo modo camarada, fixando em 20 minutos o tempo máximo da entrevista telefônica - prazo cumprido à risca. Em pouco mais de uma hora de trabalho mecânico, a conversa estava transcrita/traduzida. O resultado aparece na íntegra na Entrevista da Segunda que saiu hoje na Folha: "Podemos solucionar a crise do clima com folga".

Quem deu trabalho mesmo foi Giannetti, um bom papo. Gravamos 1h18min de conversa sobre ideias para a campanha de Marina, do que aproveitei bem menos da metade, por limitações de espaço. A reportagem e a entrevista publicadas ontem na Folha podem ser lidas aqui, aqui e aqui, por assinantes da Folha e do UOL.

Escrito por Marcelo Leite às 17h15

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.