Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Sapo devidamente engolido

 
 

Sapo devidamente engolido

Alguns herpetólogos estão em pé de guerra por causa da coluna "A consciência do cururu". Veja por exemplo a manifestação que recebi de Vanessa Kruth Verdade, pesquisadora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo:


Tem sapo que não dá pra engolir!

Diz-se por aí que "quem ama o feio bonito lhe parece". Sou herpetóloga (que é o especialista em anfíbios e répteis) e trabalho há anos com sapos, rãs, pererecas, parte da lista de "seres indignos de comiseração", como mencionado no texto de Marcelo Leite sobre a "consciência do cururu". Por que trabalho com sapos? Porque sou capaz de enxergar por trás dos medos e crendices de quem não os conhece.
 
Aquela pele úmida e fria é o órgão mais importante dos sapos, que, além de permitir a respiração, produz uma quantidade incrível de substâncias químicas que os protegem e mantêm saudáveis. É interessante dizer que o veneno de hoje ajuda pessoas amanhã.
  
Quantas pessoas sabem que existem analgésicos, peptídeos que combatem tumores, testes de gravidez, inibidores do vírus HIV e mais uma infinidade de fármacos que estão sendo elaborados a partir do veneno de sapos? Mas e o cururu com isso? Pois é, o veneno do cururu também contém inúmeras substâncias que atuam diretamente no coração e nos vasos, com potencial para tratamento de doenças cardíacas. Visto assim, o veneno do sapo não parece algo tão ruim!

Mas, então, o pobre bichão (o cururu é uma das maiores espécies de sapos brasileiras) estava feliz da vida vivendo onde sempre viveu, pelo interior do Brasil, quando alguém teve a infeliz idéia de levá-lo para a Austrália. E pra lá ele foi. Chegou e fez o que sabe fazer: ser um cururu, comer o que lhe cabe na boca e reproduzir. Só isso.

O que veio depois, na verdade, não tem mais nada a ver com o cururu. Mas o problema foi criado. E pra resolver? Primeiro a gente arruma um culpado - o sapo. E resolve como? Os cururus devem ser eliminados, mortos. Sem dor na consciência.

Espera! Na consciência de quem? Dos voluntários que estão resolvendo um problema que também não criaram e têm consciência disso? Ou dos cururus? Que não têm consciência? Ou têm? Aha! Chegamos a um ponto importante.

Certamente cururus não têm aquela consciência do tipo "penso, logo existo", mas têm algo que chamamos senciência (consciência de sensações e sentimentos). Sapos cururus sabem quando algo vital para se manterem vivos não vai bem, por exemplo se falta água, comida, se a temperatura não está de acordo, sentem dor e estresse (para saber mais sobre senciência leia o texto de Trajano e Silveira na revista Ciência e Cultura).

Em outras palavras, sapos cururus não querem morrer, tendo consciência ou não dos motivos. Pensando assim, nada mais justo, que, se esse deve ser seu destino, sua morte aconteça com sofrimento mínimo. Que haja discussão a respeito! Que o ponto seja o sofrimento dos cururus e não dos voluntários! E que, nas próximas reportagens, discuta-se não o suposto absurdo de se estar considerando o bem estar de um animal que será morto, mas sim o problema das espécies invasoras e as consequências ambientais que as alterações provocadas pelo homem trazem!

Escrito por Marcelo Leite às 18h24

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A consciência do cururu

 
 

A consciência do cururu

Conheço poucos bichos horríveis como um sapo-cururu. O Bufo marinus é tão feio, mas tão feio, que chega a parecer simpático, se encarado com alguma boa vontade. Simpatia, porém, tem limite. (...)

Além da feiura e do veneno (um coquetel de neurotoxinas capaz de pôr um cachorro mais empreendedor no bico do corvo), o sapo originário das Américas tornou-se uma praga em terras da Austrália, para onde foi levado em 1935. (...)

Além da mortandade de insetos que nada tinham a ver com a história, muito bicho mais simpático anda esticando as canelas por lá depois de morder o Bufo marinus, com isso forçando mecanicamente a liberação das toxinas (é lenda a história de que o sapo "cospe" veneno). (...)

Agora leio no boletim da revista "The Scientist" que em 2009 o cururu alcançou a Austrália Ocidental, Estado mais a oeste do país. E, com ele, chegou também a polêmica.

O grupo de voluntários KTB-Kimberley Toad Busters (caçadores de sapos da região norte da Austrália Ocidental) está revoltado. Depois de matar mais de meio milhão de cururus em cinco anos de atividade, na tentativa de conter a marcha dos anuros para oeste, a ONG foi desprovida de sua principal arma antianfíbios, o CO2 (dióxido de carbono).

A determinação partiu do Departamento de Ambiente e Conservação do governo estadual. Um pesquisador da repartição fez experimentos com alguns sapos-cururus, cujos resultados teriam sugerido que a morte por exposição ao CO2 talvez não seja humanitária o bastante. Suspendeu-se seu uso até que novos testes sejam realizados.

O KTB se defende dizendo que o CO2 anestesia os bichos de imediato, sem sinais de estresse, e que eles ficam inconscientes até morrer. (...)

E eu nem sabia que os sapos-cururus também tinham consciência, além de veneno...


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h19

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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