Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Os culpados por Copenhague

 
 

Os culpados por Copenhague

A fauna incorrigível de negacionistas, "céticos" e admiradores do Sol que tem frequentado este blog não vai gostar, mas li uma boa análise do que ocorreu em Copenhague escrita por George Monbiot, colunista radical do jornal britânico The Guardian (veja mais abaixo o vídeo em que ele arrasa com Ian Plimer, o geólogo australiano incensado por negacionistas tupiniquins como José Carlos Azevedo).

Fiquei chocado, ao ler ontem no mesmo Guardian, que o ministro britânico Ed Milliband culpava (só) a China pelo fracasso de Copenhague, sem mencionar os EUA. Eis o que diz Monbiot a respeito:


Os governos britânico e americano culparam o governo chinês pelo fracasso das conversações. É verdade que os chineses trabalharam duro para atrapalhá-las, mas Obama também pôs Pequim numa posição impossível. Ele exigiu concessões ao mesmo tempo em que nada oferecia. Ele devia saber da importância de manter as aparências na política chinesa: sua diplomacia unilateral se resumiu a uma exigência de autorrebaixamento. Meu palpite é que isso foi uma manobra calculada, destinada a produzir intransigência, a partir da qual a China pudesse ser culpada pelo resultado que ele queria.

Escrito por Marcelo Leite às 10h09

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Morte na praia de Copenhague

 
 

Morte na praia de Copenhague

Cartaz da campanha Tic Tac

Leia a seguir trechos de um comentário sobre Copenhague, publicado ontem na Folha, e da coluna Ciência em Dia. As íntegras você pode ler aqui e aqui, respectivamente, mas é preciso ser assinante.


Só se surpreende com o fracasso da cúpula do clima em Copenhague quem alimentava expectativas irracionais sobre o que poderia resultar dali. Tanto as circunstâncias políticas quanto as características estruturais da negociação recomendavam ceticismo. Presente e passado cooperam abertamente pela derrota da atmosfera. (...)

O descasamento entre o calendário político dos EUA e o da ONU, que marcava um desfecho para Copenhague, é o menor dos problemas. Não seria a primeira vez que se adia a conclusão de negociações internacionais sobre temas espinhosos. Muito mais séria é a provisão para o fracasso embutida no próprio sistema criado para concertar as ações de 193 países a fim de enfrentar o aquecimento global.

O processo multilateral consagrado pela ONU exige decisões por consenso. Em outras palavras, tudo se reduz ao mínimo denominador comum. (...)

No passado, EUA, Rússia, Japão e Europa foram os maiores responsáveis pelo aquecimento. No futuro próximo, serão China, Índia e Brasil. Sem um entendimento entre esses grandes atores, nada se conseguirá em favor do clima.

Está na hora de abandonar o bizantino sistema da ONU. É urgente criar um foro dos poluidores que contam e podem realmente decidir alguma coisa, em separado, sem ter de jogar para a plateia ruidosa reunida em Copenhague.


Agora, a coluna:


Esta coluna vai para o prelo antes de encerrar-se a conferência do clima em Copenhague. De seguro só se pode dizer que, termine em acordo ou desacordo, terá sido insuficiente para equacionar a maior ameaça a rondar a humanidade. Sendo assim, em lugar de falar de homens e de política, falemos de conchas e carapaças, menos duras de roer.

[O] mundo dos homens pode pôr o dos moluscos em perigo. Se não em número, pelo menos em variedade (biodiversidade). E os crustáceos sofrerão junto.

Essas duas formas de vida marinha e várias outras -como os microscópicos foraminíferos- dependem do carbonato de cálcio (CaCO3) para construir as belas conchas e carapaças. É o seu calcanhar-de-aquiles. Se diminuir a quantidade de CaCO3 na água do mar, ficarão em maus lençóis.

[A]o queimar combustíveis fósseis e lançar bilhões de toneladas adicionais de CO2 no ar, não estamos só aumentando sua concentração na atmosfera e com isso aprisionando mais calor junto à superfície do planeta (aquecimento global). Alteramos também a química dos mares, que absorvem cerca de um quarto de todo o CO2 emitido por atividades humanas. (...)

Estima-se que a acidez dos oceanos já se tenha elevado em 30% em um século e meio. Os níveis de carbonato de cálcio no mar são os mais baixos dos últimos 800 mil anos. (...)

Moluscos e crustáceos, entre outras criaturas que dependem da molécula, teriam grande dificuldade de adaptar-se a mudança tão brusca. Muitas espécies podem simplesmente desaparecer da Terra.

Morreremos todos, mais um pouco, na praia.


Instigado por um leitor, não posso deixar de recomendar também a leitura de um texto imperdível  (em inglês) de Ben "Bad Science" Goldacre sobre as razões da popularidade da opinião contrária ("cética", negacionista) à responsabilidade humana no aquecimento global.

Escrito por Marcelo Leite às 15h27

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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