Gabão dá no couro

Tartaruga-de-couro (Foto: Projeto Tamar)

Como é raro a ciência da conservação produzir boas notícias, não resisto a dar uma - excelente - aqui, obtida por meio da Agência Fapesp: um levantamento aéreo de 600 km de praias do Gabão (veja mapas abaixo) estimou entre 15.730 e 41.373 o número de fêmeas de tartarugas-de-couro (Dermochelys coriacea) que desovam por ali. Como a população mundial de fêmeas em idade reprodutiva era calculada em 34 mil indivíduos, o estudo acrescenta de uma só tacada entre 46% e 122% ao contingente.

A D. coriacea é a maior tartaruga-marinha existente, com sua carapaça lisa de 1,8 m e peso de 500 kg na idade adulta (o recorde é de 2,9 m e 916 kg, segundo o sítio da Parceria de Tartarugas Marinhas do Gabão). É também um dos maiores répteis existentes no planeta.

No Pacífico, a população de tartarugas-de-couro declinou 95% nas últimas décadas. Era uma espécie classificada até agora como cirticamente ameaçada, portanto necessitada de boas notícias como essa. Presume-se que o Gabão detenha agora a maior população em reprodução do mundo. E 79% das áreas de desova, ali, estão em áreas protegidas.

Uma das muitas boas coisas que a profissão de jornalista me proporcionou foi ter o privilégio de assistir à desova de uma fêmea dessas num praia da costa do Pacífico da Costa Rica. Nunca vou esquecer os ovos parecidos com bolas de pingue-pongue, úmidos, depositados na cova, que a quele bicho desajeitado fora d'água laboriosamente cobriu com as nadadeiras de trás. No mar, pode mergulhar por 1 h e alcançar 1.000 m de profundidade.

Que os netos de meus netos possam um dia assistir ao mesmo espetáculo nas areias quentes do Gabão.