Brasil carbônico


Intensidade de gases-estufa das economias (em toneladas de CO2-equivalente por milhão de dólares de PIB em 2000)
Fonte: Relatório "A Global Green New Deal"
, 2009, do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente)

Não é segredo que o país está sujando sua matriz energética, ao diminuir a participação de fontes renováveis (como usinas hidrelétricas) em favor de combustíveis fósseis (termelétricas a gás, óleo e até carvão). (...)

A realidade é ainda mais grave: o Brasil também vai mal noutro indicador importante, o da intensidade carbônica da economia, ou quantidade de gases do efeito estufa emitida para produzir cada unidade de PIB. Mal, não, pior, pois entre as grandes economias somos a única que não melhorou na capacidade de gerar riqueza sem sujar a atmosfera.

Os dados estão no relatório "A Global Green New Deal" (um "New Deal" verde global), do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, para o qual chama atenção o economista José Eli da Veiga. O texto pode ser baixado da internet. (...)

Não se iluda concluindo que a culpa é do desmatamento, porque a tabela exclui "mudança do uso da terra", jargão da burocracia climática para a conversão de florestas em áreas agrícolas. O problema está na produção de energia, mesmo. Nada a estranhar, num país em que o presidente e sua pré-candidata encaram o petróleo (do pré-sal) como signo do futuro.

Nessa matéria, convivemos também com os fantasmas do passado. Não tenho competência nem paciência para demolir o artigo "Ninguém sabe", de José Carlos Azevedo, publicado na seção Tendências/Debates da Folha numa apropriada quarta-feira de cinzas. Mas estranhei a citação de K. Trenberth, identificado como meteorologista do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática): "Não há previsões climáticas feitas pelo IPCC. E nunca houve". (...)

Fui atrás do artigo e as duas frases de fato estão lá, ainda que para explicar as limitações dos cenários criados pelo IPCC, e não para invalidá-los. Encontrei no texto de Kevin Trenberth outro trecho, porém, que traduzo para o leitor julgar se foi honesto o uso da fonte:

"O relatório do IPCC deixa claro que estamos comprometidos no futuro, de maneira substancial, com mais mudança climática, mesmo se pudermos estabilizar concentrações atmosféricas de gases do efeito estufa. E esse comprometimento é ainda maior, pois o melhor que podemos esperar no curto prazo, realisticamente, é talvez estabilizar emissões, o que significa aumento das concentrações de gases perenes do efeito estufa, indefinidamente, futuro adentro. Portanto, a mudança climática futura está garantida".


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).