Antártida mais quente - e o Brasil?


Imagem de Eric Steig mostra aquecimento acentuado na Antártida Ocidental

A Folha de hoje traz reportagem (aqui, para assinantes) minha sobre novo estudo na Nature mostrando que a Antártida como um todo esteve em aquecimento no último meio século. Reproduzo os parágrafos iniciais:


Não resta muita dúvida: a parte mais vulnerável da Antártida também está se aquecendo, como o resto do mundo. A tendência vale ainda para o continente como um todo e para a última metade de século, sustenta artigo no periódico científico "Nature" de hoje.

A Antártida inteira esquentou cerca de 0,6C de 1957 a 2006. Na Antártida Ocidental, aquele terço do continente voltado para a América do Sul, o aquecimento foi ainda mais acentuado: 0,85C.

Os dois terços orientais viram os termômetros subirem menos: 0,5C. Isso subverte a visão tradicional sobre o continente gelado em tempos de mudança climática: aquecimento só na península Antártica e resfriamento do resto (sobretudo a Antártida Oriental).

O grupo liderado por Drew Shindell (Nasa) e Eric Steig (Universidade de Washington) usou poucos dados de estações meteorológicas. Elas não chegam a meia centena e estão localizadas perto da costa. Não servem para estimar a temperatura do continente inteiro.

"Ouve-se o tempo todo que a Antártida está se resfriando, e não é esse o caso", alerta Steig. "A Antártida não está se aquecendo na mesma taxa em todo lugar e, enquanto algumas áreas vêm se resfriando por muito tempo, a evidência mostra que o continente como um todo está ficando mais quente."


Para preparar a reportagem, entrei em contato com Thomas Mote, climatologista da Universidade da Geórgia (EUA) que já passou uma temporada com colegas geógrafos e glaciologistas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Como suas respostas só chegaram depois do fechamento e são relevantes para entender implicações dos achados de Steig para o Brasil, traduzo-as e reproduzo-as aqui, com sua autorização:


P - Qual é a importância da tendência detectada por Steig e colegas?
R - A resposta em si mesma é importante por ter semelhança com o sinal de aquecimento que estamos testemunhando por todo o hemisfério Sul. Isso sugere que a mudança de temperatura se deve ao aquecimento por [gases do] efeito estufa. Embora nenhum estudo seja conclusivo por si só, este estudo indica um aquecimento mais generalizado por toda a Antártida do que previamente assumimos.

P - Essa tendência de aquecimento é confiável e grave o bastante para suscitar preocupação quanto à estabilidade do gelo na Antártida Ocidental? Ou, pelo menos, para explicar a aceleração de correntes de gelo ali?
R - Trabalhos recentes têm sugerido que uma clima em aquecimento pode resultar em temperaturas mais quentes nos oceanos, que erodem as plataformas de gelo (gelo de água doce flutuante) por baixo . Derretimento aumentado na superfície erode as plataformas por cima.
Muito do gelo apoiado sobre rocha no manto da Antártida Ocidental se encontra abaixo do nível do mar e pode ser afetado por um oceano que se aquece. Também sabemos que algumas correntes de gelo e geleiras estão se acelerando. Tudo isso é consistente com um clima em aquecimento sobre a Antártida.
Em 2005, Chris Rapley, então diretor do British Antarctic Survey, questionou se o manto de gelo antártico ocidental não era "um gigante que desperta" e se não estamos nos aproximando ali de um limiar crítico em que o manto de gelo colapsaria. (Rapley não está mais no BAS.)
Os achados de Steig nos dizem que precisamos responder rapidamente à pergunta de Rapley, se o manto de fato é "um gigante que desperta". Pesquisas conduzidas durante o Ano Polar Internacional e novos instrumentos de satélite, como GRACE [Gravity Recovery and Climate Experiment], devem nos ajudar a responder.

P - É o caso de esperar alguma influência desses achados para o clima da América do Sul, particularmente no Sul do Brasil? Ondas de frio ou calor, secas, precipitação aumentada?
R - Pesquisas feitas na Universidade de Buenos Aires mostraram que o gelo marinho nos mares de Bellingshausen, Amundsen e Weddell podem influenciar a temperatura e a precipitação no Sul do Brasil. O gelo marinho também pode influenciar a frequência das massas de ar frio que invadem o Sul do Brasil.
Embora saibamos que o gelo marinho antártico e o clima do Sul do Brasil estão relacionadosm, a natureza dessa relação ainda não está bem compreendida. É uma questão importante, que merece mais estudo. Poderemos descobrir que no Sul do Brasil a Antártida é tão importante quanto a Amazônia para entender o clima.