O bonde do clima

 

O último bonde de Minneapolis (EUA), 1954 (Foto: reprodução/The Blotter)

Hoje, Finados, é um bom dia para pensar no futuro. O pessimismo, deste ponto de vista atual, mostra-se a maneira mais correta de encarar a realidade.

Uma das desvantagens de viver muito, pelo menos meio século, é ver de tudo acontecer -e também o seu contrário. Veja só o que está ocorrendo com o assunto mais importante do mundo, o clima do planeta.

Quem tiver mais de 30 anos talvez se lembre do bafafá em torno da Cúpula da Terra, a Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio em 1992, ou Eco-92. (...)

O assunto ressuscitou no começo de 2007. Com a divulgação a prestações do Quarto Relatório de Avaliação (apelidado AR4) do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, colegiado de pesquisadores instituído pela ONU e pela Organização Meteorológica Mundial), o aquecimento global voltou às manchetes.

A renovada preocupação com o clima não veio para ficar. Durou só enquanto as novidades do IPCC reverberaram em nossa propensão oca para alarmar-se com tudo e qualquer coisa. (...)

Alguém acredita que, nessa conjuntura, os governos mundiais conseguirão coordenar-se e adotar medidas penosas para conter o aquecimento global nos próximos 14 meses, alinhavando um substituto de Kyoto na Conferência de Copenhague?

Considere o caso do Brasil. O governo federal até produziu um documento preliminar que teve a coragem de chamar de Plano Nacional de Mudanças Climáticas. É pífio, por não conter objetivos claros de redução de emissão de gases do efeito estufa.

Nada a estranhar, num governo que só pensa em hidrelétricas na Amazônia, em tornar-se exportador de energia fóssil enterrada no pré-sal há centenas de milhões de anos e em salpicar o território nacional com meia centena de usinas termonucleares. E que já começa a entrar em pânico, ao descobrir que a marola financeira está mais para tsunami. (...)

Não há mais clima para nada disso. Nunca houve. Um dia não haverá mais clima para nada.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo, aqui (se for assinante do jornal ou do UOL).