Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Ainda mais carbono na atmosfera

Ainda mais carbono na atmosfera

 

O Projeto Carbono Global, esforço coordenado de vários grupos de pesquisa pelo mundo "para estabelecer uma base de conhecimento comum e consensual de apoio ao debate e à ação política para diminuir a taxa de aumento de gases do efeito estufa na atmosfera", acaba de lançar um balanço tenebroso, o "Carbon Budget 2008" (veja aqui uma apresentação PowerPoint sobre os dados). Resumo da ópera:

  • Concentração de CO2 na atmosfera - Subiu 2,2 ppm (partes por milhão), 10% acima da média 2000-2007 (2 ppm) e quase 50% acima da média dos últimos 20 anos (1,5 ppm). Ou seja, está ocorrendo uma aceleração no aumento da camada de gases que agrava o efeito estufa. Estamos 38% acima dos níveis de 1990, ano de referência do semidefunto Protocolo de Kyoto. Chegamos a 383 ppm, contra 280 ppm antes da Revolução Industrial. É o maior valor nos últimos 650 mil anos.
  • Emergentes na frente - Países em desenvolvimento, em especial China e Índia, mas também o Brasil, já respondem por mais da metade das emissões mundiais de CO2. Queima de combustíveis fósseis (carvão mineral, óleo e gás natural) e produção de cimento são os maiores responsáveis pelo aumento. Em 2006, a China ultrapassou os EUA e se tornou a maior emissora. De um ponto de vista histórico, porém, os países menos desenvolvidos (80% da população) respondem só por um quinto do carbono extra lançado na atmosfera.
  • Sumidouros encolhem - Parte do carbono lançado pela humanidade na atmosfera é reassimilado por sistemas naturais, como oceanos e florestas. Mas essa parcela "neutralizada" está diminuindo: 50 anos atrás, 60% do emitido eram reabsorvidos; hoje, só 54%.

Isso tudo com o Protocolo de Kyoto, que previa redução de 5%, por países desenvolvidos, sobre os níveis de 1990. Imagine sem ele, como corremos o risco de ficar se fracassarem as negociações em curso pelos próximos 14 meses, diante da prioridade óbvia que a crise financeira norte-americana está assumindo.

De todo modo, se vier um acordo (o que é imprescindível; todavia, o imprescindível não aconteceu antes de 1914 e 1938), países como China, Índia e Brasil dificilmente escaparão de algum compromisso, mesmo porque nada aconteceria se eles também não agirem para reduzir suas emissões, com ou sem metas obrigatórias. Não é mais uma questão de política, mas de física.

Escrito por Marcelo Leite às 15h09

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Lula, a ONU e a matriz energética

Lula, a ONU e a matriz energética

Ando meio em falta com os leitores deste blog, mas lhes agradeço por mantê-lo vivo com seus comentários, apesar da falta de assiduidade do titular.

Destaco hoje o discurso de Lula na ONU (leia aqui, ou ouça aqui). Não é nenhuma peça inesquecível de retórica, mas tem o mérito de apontar o dedo para os aspectos morais da crise econômica americana - aquilo que os economistas costumam chamar de "moral hazard", não sem pedantismo, mas quase sempre referindo-se aos mercados imperfeitos dos países pobres ou em desenvolvimento.

(Por falar nisso, um parêntese: não deixe de ler a reportagem reveladora e arrasadora de Sergio Leo, do jornal Valor Econômico, sobre como foi feito - nas coxas - o relatório "Doing Business", do Banco Mundial, que põe o Brasil lá em baixo em matéria de ambiente para negócios; o caso teve continuação aqui.)

O que me chamou a atenção no discurso presidencial foi a afirmação de Lula sobre a matriz energética cada vez mais limpa do país:


O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa.


Ora, como escrevi muito mais de dois anos atrás numa coluna ("Pobre e menos limpinho"), para mim o país andava era na rota de sujar sua matriz. Escrevi na época:


O governo brasileiro gosta de jactar-se pela matriz energética "limpa" do país. Nada menos que 45% da energia consumida aqui sai de fontes renováveis, como hidrelétricas (a média mundial é 13%). Considerada só a geração de energia elétrica, a fatia sobe para 85%, graças à abundância de rios e de chuvas para encher reservatórios.

A má notícia é que não vai continuar assim. Segundo Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (apesar do nome, a EPE é vinculada ao Ministério das Minas e Energia), em uma década essa participação cairá para 70%. A previsão está em artigo seu no jornal "O Estado de S. Paulo". Vem aí uma matriz obrigatoriamente mais suja, pois a diferença de 15 pontos percentuais terá de ser suprida por termelétricas a combustíveis fósseis (óleo, gás natural ou até carvão) ou energia nuclear.


Como então é que agora o governo vem dizer que as renováveis estão aumentando e já chegam a 90% da geração elétrica? Reverteu-se a tendência?

Depende do horizonte considerado. No curto prazo, o aumento da produção de cana e álcool está levando a um aumento na participação da queima de biomassa para produzir eletricidade.

No planejamento de longo prazo, para 2030, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta uma piora nos próximos anos e uma retomada de limpeza mais à frente. Veja o gráfico que consta do Plano Nacional de Energia 2030, com respeito à energia primária (todas as formas de energia em conjunto):

Reprodução do PNE 2030, pág. 38

No caso da geração elétrica, pelas contas da EPE, a participação das hidrelétricas cairá de 91% (em 2005, incluindo importação de Itaipu) para 78% em 2030. A diferença será coberta com um aumento da participação de biomassa, gás natural e... usinas nucleares, que passariam de 1% a 3% do total da eletricidade gerada.

Até o conceito de limpeza, como se vê, anda meio relativo.

Escrito por Marcelo Leite às 22h29

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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