Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Lula brinca com números do carbono

Lula brinca com números do carbono

O presidente Lula escapou de passar vergonha na reunião do G8 com países emergentes, na ilha de Hokkaido (Japão). Se o presidente norte-americano fosse alguém um pouco mais preparado que George W. Bush, como Al Gore ou Barack Obama, é possível que não saísse ileso da peça que pregou nos líderes dos países mais ricos e poluidores do mundo com a ajuda de números escolhidos a dedo.

Lula apresentou um ranking de emissões de gases do efeito estufa em que o Brasil aparece em 18º lugar (com 1,28% das emissões). Em primeiro aparecem os EUA, com 21,13%.

Ora, qualquer pessoa que acompanhe o assunto do aquecimento global sabe que, pelos dados oficiais da ONU, o país ocupa a 4ª posição. O presidente brasileiro, contudo, ancorou sua performance propagandística numa fonte insuspeitada, a Energy Information Administration (EIA), dos EUA - na realidade, um cozido feito pela Embrapa a partir das cifras da EIA.

A mágica luliana foi omitir a principal fonte das emissões brasileiras, o desmatamento (no jargão da ONU e do IPCC, "uso do solo/mudança do uso do solo"). Foi o que explicou a jornalista Daniela Chiaretti em ótima reportagem no jornal Valor Econômico (aqui para assinantes). Segundo o último e único inventário oficial das emissões nacionais, com dados de 1994, cerca de 75% do carbono lançado por brasileiros na atmosfera, engrossando o efeito estufa, provêm do uso do solo. Hoje em dia, esse valor deve ser menor, mas ninguém sabe quanto, porque o governo federal enrola quanto pode a finalização do novo inventário.

Bush reagiu a Lula de maneira enigmática, perguntando em que lugar ficava a Alemanha (em sexto, na lista marota). Talvez tenha pensado em deixar constrangida a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, uma das mais ativas no G8 para que o grupo adote metas drásticas de redução das emissões de carbono já em 2020. Física e ex-ministra do Ambiente em seu país, é estranho que Merkel não tenha reagido à manipulação dos dados (pelo menos o noticiário que li não registra nada de sua parte).

Al Gore, que em suas palestras contra o aquecimento global se apresenta dizendo que já foi o "próximo presidente dos EUA", não deixaria passar em branco. Perguntaria na lata para Lula: "Em que lugar seu país fica quando são incluídas as emissões do desmatamento?"

O presidente brasileiro estaria bem enrolado. Se respondesse a verdade, com dados completos para variar, reforçaria o argumento dos países ricos de que os emergentes também podem e devem adotar metas para cortar o carbono e de quebra ainda fragilizaria a posição brasileira.

Teria de explicar naquele foro por que resiste tanto a adotar metas de redução de desmatamento, se já conseguiu cortar em 60% o desmate nos três últimos anos. Se estivesse acompanhando de perto a situação brasileira, Gore poderia também questionar se os últimos dados do Inpe não indicam uma retomada do desmatamento - mais aí Lula teria de explicar que sua Casa Civil reteve os dados e que eles só serão divulgados na próxima terça-feira, quando a reunião do G8 já terá acabado...

Escrito por Marcelo Leite às 13h27

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Martin Wolf e o clima

Martin Wolf e o clima

Leio no jornal Valor Econômico (aqui, para assinantes, ou aqui) excelente artigo do colunista Martin Wolf sobre o G8, o G5 e as negociações sobre mudança climática. Reproduzo alguns trechos do final:


(...) As emissões chinesas por unidade de PIB (em paridade de poder de compra) são duas vezes maiores do que as americanas e o triplo das japonesas. Até onde possível, portanto, as melhores tecnologias precisam ser usadas em toda parte. Entretanto, o conjunto existente de tecnologias que geram baixas emissões não está exaustivamente distribuído pelo mundo. Se isso for implementado, argumenta Stern, as emissões poderão ser reduzidas num montante entre cinco e 10 gigatoneladas por ano em torno de 2030 (10% a 20% das emissões em 2005). Grandes esforços precisarão também ser feitos para desenvolver e incrementar tecnologias quase comerciais e para a criação de novas tecnologias. O fato de todas as tecnologias necessárias ainda não existirem torna bastante incertas as estimativas de quanto custará atingir as metas. Inclusive o número citado por Stern: 1% da Produção Mundial Bruta (PMB). 

Entretanto, o problema mais intratável de todos envolve a desejada equanimidade. As emissões precisam ser reduzidas em todos os países, mas o custo de disso não precisa ser, necessariamente, arcado por todos. Existem três poderosos argumentos em defesa de que os custos recaiam sobre países de alta renda: em primeiro lugar, eles criaram o atual problema; segundo, continuam poluindo bem mais per capita; e, terceiro, eles são capazes de arcar com tais custos. Três quintos do estoque de gases-estufa gerados pela ação humana foram produzidos pelos países de alta renda. Em 2004, as emissões americanas per capita foram cinco vezes maiores do que as da China e 17 vezes as da Índia. (...)

Mas esse, por mais difícil que seja, é o caminho que, segundo Stern, o mundo deveria trilhar para chegar a 2020, quando os países em desenvolvimento deveriam também adotar limites. Ele sugere especificamente que o atual mecanismo precisa deixar de centrar em projetos individuais e assumir uma abordagem "por atacado, talvez baseada em metas de eficiência específicas para cada setor ou em parâmetros de referência tecnológicos". Poderá isso ser viável na China, Índia e outras economias emergentes? Para falar a verdade, duvido. Mas parece ser a única maneira de progredir. Além disso, persuadir países em desenvolvimento a acatar limites obrigatórios, mesmo em 2020, deverá ser difícil, tendo em vista a extrema iniqüidade do ponto de partida. 

Os líderes do G-8 afirmam ter realizado importante progresso. Isso é bobagem. Eles sequer começaram a fechar todos os acordos necessários, especialmente com os países em desenvolvimento. Apenas fizeram o próprio G-8 dar um primeiro passo. Sequer puseram em prática políticas para concretizar as reduções necessárias das emissões em seus próprios países - entre 75% e 90% em torno de 2050. 

Esse é o mais complexo problema de ação coletiva na história humana. Sua solução requer ação concertada de participantes desiguais durante pelo menos um século. Entretanto, a coisa certa a fazer é tentar. Se não nós, quem? E se não agora, quando? 

Escrito por Marcelo Leite às 15h46

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Abrolhos pode dobrar de tamanho

Abrolhos pode dobrar de tamanho

Peixe Mycteroperca bonaci, em Abrolhos (Foto: Ronaldo Bastos Francini-Filho/CI)

Comunicado à imprensa da ONG Conservação Internacional (CI) informa que o arquipélago de Abrolhos, na costa da Bahia, pode ter até duas vezes mais recifes de coral do que se sabia até agora. O levantamento, realizado por pesquisadores da CI, da Universidade Federal do Espírito Santo e da Universidade Federal da Bahia, foi apresentado hoje no 11º Simpósio Internacional de Recifes de Coral em Fort Lauderdale, Flórida (EUA).

O estudo apresenta um mapeamento de recifes em profundidades entre 20 e 70 metros, realizado com ajuda de um sonar de varredura lateral, que traça um mapa tridimensional do relevo marinho. Até o presente só havia relatos informais de pescadores sobre os novos bancos. A descoberta indica que, mesmo naquele que é o maior e mais rico banco de corais do Atlântico Sul, muitos habitats marinhos ainda são desconhecidos e se encontram desprotegidos.

Outro trabalho científico publicado na semana passada pelo mesmo grupo indicou que esses recifes mais profundos podem conter até 30 vezes mais biomassa, na forma de peixes, do que os corais superficiais que fizeram a fama de Abrolhos. Segundo Ronaldo Bastos Francini-Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba e co-autor desse artigo anterior, barcos pesqueiros já descobriram essa reserva e a estão explorando.

“Os dados de ambos os estudos apontam para a necessidade de uma rede de áreas marinhas protegidas que contemple outros ambientes ainda não protegidos”, afirma no comunicado Guilherme Dutra, diretor do Programa Marinho da Conservação Internacional.

A seguir, mais algumas informações da CI sobre Abrolhos:


O Banco dos Abrolhos é um alargamento da plataforma continental que começa próximo à foz do rio Doce, no Espírito Santo, e segue até a foz do Rio Jequitinhonha, na Bahia. Com cerca de 46 mil km², compreende um mosaico de ambientes marinhos e costeiros margeados por remanescentes da Mata Atlântica, abrangendo recifes de coral, bancos de algas, manguezais, praias e restingas.

A região concentra a maior biodiversidade marinha conhecida no Atlântico Sul, abrigando várias espécies endêmicas, como o coral-cérebro, e espécies ameaçadas de extinção. Berçário das baleias-jubarte, a região dos Abrolhos foi declarada, em 2002, área de Extrema Importância Biológica pelo Ministério do Meio Ambiente.

Foto: CHARLES YOUNG/CI

Escrito por Marcelo Leite às 19h17

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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