Fogo em pilha de madeira no pasto visto da Fazenda Bang Bang, em São José
do Xingu (MT), "um lugar de paz" (Foto: Ayrton Vignola Jr.)
A Folha de hoje traz reportagem sobre carta de proprietários de Mato Grosso, na maioria, que estão fartos do vaivém da bancada ruralista e do governador Blairo Maggi. Abaixo, alguns parágrafos da matéria (leia texto completo aqui, só para assinantes do jornal ou do UOL):
Um grupo de 35 fazendeiros ligados à organização não-governamental Aliança da Terra lançou ontem carta aberta defendendo a manutenção e a consolidação do Código Florestal, com "alguns ajustes". A manifestação evidencia que nem todos os produtores agropecuários do país rezam pela cartilha da bancada ruralista no Congresso Nacional. (...)
Mesmo pecuaristas do porte de Luiz Carlos Nunes Castelo, dono de 13 mil hectares no município de São José do Xingu (nordeste de Mato Grosso), assinaram o documento da Aliança. "O Código Florestal representa uma das mais importantes ferramentas para viabilizar a produção sustentável com responsabilidade socioambiental", defende a carta.
O principal ajuste proposto é incluir áreas de preservação permanente (como beiras de rio e topos de morros) no cálculo da reserva legal. A redução da reserva a 50% na Amazônia ficaria condicionada à previsão do zoneamento econômico-ecológico em cada Estado. (...)
Como o bonde da foto, acordo de Copenhague pode virar peça de museu
Escrevi um texto curto de análise, na Folha de hoje, para comentar o adiamento do anúncio da meta brasileira de corte de emissões de gases do efeito estufa, se é que ainda haverá uma. Leia alguns trechos:
É mais comum o governo Lula perder uma boa oportunidade de calar. Ontem ele deixou passar em branco uma chance de falar -e dizer a que veio, em matéria de aquecimento global e liderança mundial.
O acordo de Copenhague, que deveria ser fechado em dezembro para substituir o Protocolo de Kyoto a partir de 2012, está à beira do abismo. A última rodada de negociação, em Barcelona, vai de mal a pior. (...)
Era o momento adequado para Lula demonstrar a liderança inovadora que lhe atribuem no estrangeiro. Mesmo que não anunciasse os 40% de redução de emissões de gases do efeito estufa almejados por seu ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, qualquer cifra acima dos 20% garantidos pela trajetória atual de redução do desmatamento já ajudaria a aliviar a atmosfera.
A decisão fica adiada até 13 de novembro, quando faltarão 22 dias para Copenhague. O Brasil segue o exemplo dos EUA, que não conseguem fechar uma posição por dificuldades políticas domésticas. A diferença é que lá se trata de uma dissensão no Legislativo, não no Executivo. (...)
O Brasil pode, sim, contribuir para desatar o nó de Copenhague. Só depende de Lula.
(...) Pobre de quem nunca caminhou pela mata atlântica nem teve o privilégio de ver um tiê-sangue traçar um risco de fogo no ar, com suas penas. Poderá ter conhecido as sequoias da Califórnia, a Floresta Negra da Alemanha ou até a floresta amazônica, mas seu conceito de floresta sairá empobrecido. Nenhuma floresta deveria morrer, ao menos não de morte matada.
A mata atlântica, contudo, continua correndo risco de vida (alguém precisa preservar esta locução sob ameaça de extinção, sob pressão do predador "risco de morte"). Resta menos de 8% de seu 1,3 milhão de quilômetros quadrados (km2) originais, cerca de um sétimo do território brasileiro atual.
Entre 2005 e 2008, mais mil km2 caíram, uma área equivalente a dois terços do município de São Paulo. O bioma é monitorado há décadas pela organização não-governamental SOS Mata Atlântica. O resultado pode ser visualizado neste mapa: http://mapas.sosma.org.br. Cuidado para não se deprimir muito.
O mapa mostra certas coisas curiosas. Uma das maiores concentrações de remanescentes de mata atlântica está em São Paulo. Justamente o Estado mais desenvolvido, mais populoso e mais associado com sua destruição, para ceder lugar ao café e depois à cana-de-açúcar.
São 25.359 km2, ou 15% da cobertura original. (...) Ainda dá para matar as saudades -se a mata não morrer antes.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo, aqui (só para assinantes).
Escrevi um comentário (aqui, só para assinantes da Folha ou do UOL) sobre o papel do ministro Carlos Minc que foi publicado ontem. Transcrevo os dois primeiros e o último parágrafo:
NUM GOVERNO mais dado às metáforas do futebol que às do basquete, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, exerce as funções de pivô. Nem sempre suas jogadas espalhafatosas pelo centro da quadra resultam em pontos, mas ele ao menos sua o colete na posição de articulador abandonada por Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, mais ocupada com seu próprio PAC (programa de avanço da candidatura).
Minc parece ser o único ministro na Esplanada ocupado em fazer o governo sair da defesa e da troca de passes em duas partidas decisivas para o desenvolvimento econômico e a imagem internacional do Brasil: Código Florestal e aquecimento global. Uma depende do resultado da outra. Lula é aguardado como herói em Copenhague, mas sairá de lá vaiado se tropeçar na primeira ou empatar na segunda. (...)
Minc luta às claras por metas ambiciosas. Com isso, faz mais inimigos no governo, do Itamaraty ao Ministério da Ciência e Tecnologia, adeptos da retranca nas negociações internacionais sobre mudança climática. Sem um jogador encrenqueiro como ele no meio de campo, o governo Lula só poderia contar com a repescagem no campeonato mundial do desenvolvimento limpo.
Faltam 42 dias para a conferência de Copenhague, na Dinamarca, e a previsão do clima não é das melhores. Tudo indica que resultará em fracasso. Como em Poznan, Polônia, há um ano. Como em Bali, Indonésia, há dois anos. Como em Kyoto, Japão, há 12 anos. (...)
Países ricos e pobres se engalfinham para empurrar a conta uns aos outros. Partem do princípio de que reduzir emissões prejudica a economia. Estão certos no curto prazo e provavelmente errados no longo, porque nenhuma economia sobrevive sem os insumos que a natureza lhe fornece de graça: chuvas no período certo, rios regulares, insetos polinizadores, vegetais para segurar a erosão etc. (...)
O Protocolo de Kyoto, adotado em 1997, previa uma redução modesta das emissões, e por esforço só de países mais ricos: 5,2% de corte, em média, até 2012, sobre os níveis de 1990. Até 2007, só 3,9% haviam sido obtidos -mesmo assim, porque a economia do Leste Europeu foi para o saco.
Em "kyotês", essas "economias em transição" viram suas emissões recuarem 37% entre 1990 e 2007. O resto avançou 11,2%, mais que o dobro do que deveriam reduzir. Os EUA, que nunca ratificaram Kyoto, progrediram 16,8%. Fizeram bonito só nações europeias como a Alemanha (-21,3%). (...)
Não há nem esboço de acordo, a 42 dias de Copenhague. (...)
Não é por outra razão que alguns militantes ambientalistas já se movimentam para organizar uma nova cúpula do ambiente, como a Eco-92 realizada no Rio. (...) Quem só pensa em Rio 2014 e Rio 2016 deveria começar a batalhar também pelo Rio 2012.
O engenheiro agrônomo Halan Vieira de Queiroz Tomaz, mestrando em Fitotecnia da ESALQ/USP, discorda de algumas afirmações de outro leitor Marcio Antonio Augelli na nota abaixo e pede espaço para responder. Ei-lo:
Há sim, avião, ônibus, caminhão e trator movidos a etanol! Claro que uns mais avançados e outros não em termos de tecnologia já desenvolvida.
No caso de avião, há bastante tempo que já está consagrado e se produz no Brasil o modelo Ipanema, utilizado em pulverizações de lavouras. O primeiro a álcool foi lançado em 2002, mais informações podem ser obtidas em www.aeroneiva.com.br.
O ônibus movido a etanol está em testes desde 2007, e começou a ser testado pelo Centro Nacional de Referência em Biomassa (Cenbio), sediado na USP. O professor José Roberto Moreira, do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP é quem coordena o projeto.
Diversas empresas já iniciaram testes com caminhões movido a etanol, onde prometem lançamentos nos próximos anos.
E em uma feira do setor de máquinas agrícolas, já foi apresentado um protótipo de trator desde o ano passado e que brevemente veremos o lançamento final.
Claro que ainda estamos vendo esses projetos 'engatinharem', mas para um país que é líder em produção de etanol de cana, não podemos ficar atrás em termos de alternativas de uso desse combustível.
Então o que quero deixar claro, é que existem sim máquinas movidas a etanol além de carros (de madames) e motos. Lembrando que, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) a cana-de-açúcar (etanol + cogeração) já participa em mais de 25% da matriz energética do país, um dado que não podemos desconsiderar.
E pra finalizar, seguindo o raciocínio do nosso nobre colega, ninguém para ao lado de um poço de petróleo (terrestre) ou embarca em uma plataforma ou ainda ao lado de um gasoduto e abastece o carro com petróleo ou gás natural.
Recebo do leitor Marcio Antonio Augelli, químico, os comentários abaixo a respeito da coluna "Tiro no próprio álcool", que reproduzo, com sua permissão, como contribuição ao debate:
Você parece ter sido influenciado por opiniões geradas a partir de "pesquisas" desenvolvidas pela Copersucar, as quais induzem ao um incrível erro no balanço energético do álcool como combustível. Veja: 1 - Nenhuma usina permite o acesso livre a dados sobre o uso de energia consumida a partir da rede elétrica de distribuição ou de combustível fóssil, na produção do etanol; 2 - Sequer a quantidade de adubos por hectare você consegue obter de maneira clara; 3 - Portanto, o cálculo da energia envolvida em todo o processo de obtenção no etanol é desconhecido, e pesquisas a respeito são feitas por pesquisadores ligados à própria produção, inclusive para teses de doutorados no exterior a respeito do assunto; 4 - Uma maneira clara indicada por um aluno, em discussão sobre o tema é que ninguém pára ao lado de um canavial e abastece o carro com cana; 5 - Você conhece algum avião, ônibus, caminhão, trator, movidos a etanol? Ora, se são movidos a combustíveis oriundos da destilação fracionada do petróleo, qual é a vantagem em não se usar também a gasolina? Etanol, então, é combustível de carro de madame que faz fila dupla na porta de escola....
Voltando ao tema principal de sua coluna, que é a lista dos carros mais poluidores: Veja bem: um motor de 1600 cilindradas, AP, da Volksvagen, tem as seguintes taxas de compressão ( segundo o manual de meu veículo): gasolina: 9.8 álcool: 13.1 flex: 10.2 lembrando que a taxa de compressão exprime a relação entre o volume da câmara de combustão completamente distendida para o volume da mesma completamente comprimida.
Como você pode ver, o motor flex possui taxa de compressão equivalente àquela do motor a gasolina; para você usar o álcool em um motor a combustão, a taxa de compressão deve ser mais elevada, dada as características do combustível, vai daí que usando a taxa de compressão menor a quantidade de etanol a ser injetada tende a ser maior, resultando em maior combustão incompleta e, portanto, em maior poluição e consumo de combustível. Lembrar também que a queima do etanol transfere uma quantidade de energia cerca de 30% menor ( lembra quando aprendeu termoquímica, e calculava entalpia de reação?). Tudo isso eu estou falando como profissional da área química. Consulte um engenheiro mecânico sem rabo preso com a indústria automobilistica ou com usinas e ele comprovará o que estou afirmando.
A cidade mais importante da Austrália ficou coberta de poeira e banhada numa luz vermelha, hoje, em consequência de uma tempestade de areia vinda do "outback", quer dizer, da área desértica no centro do país, a oeste.
Há vários vídeos no YouTube, como você pode ver aqui. Surgem palavras como "fim do mundo", "Armagedom", o que soa como algum exagero. Parece inevitável, porém, que muitos associem o fenômeno à mudança do clima como efeito do aquecimento global. Se estiver sem tempo, veja só este vídeo:
À primeira vista, representa um avanço o ranking de carros poluidores apresentado pelo Ibama na semana que passou. Porém, como tudo que vem do governo (qualquer governo), ainda mais quando está envolvido o espetacular ministro Carlos Minc, é bom tirar o pé do acelerador do entusiasmo. Em especial se o seu carro for flex.
O álcool combustível, agora renomeado com a marca globalizada de "etanol", é um trunfo do Brasil. Fruto de um programa nacionalista e intervencionista da ditadura militar, o Proalcool, virou campeão ambiental. Em nenhum outro lugar do mundo se obtém etanol na quantidade e com a produtividade permitida pela cana-de-açúcar por aqui -agora já sem nenhum subsídio estatal.
O álcool pode ser considerado um combustível mais "limpo" porque o carbono que lança na atmosfera, na forma de gás carbônico (CO2), é reutilizado na próxima safra de cana enquanto as plantas crescem. O CO2 é a matéria-prima da fotossíntese. Apenas com ele, água e luz (energia solar), os vegetais produzem a biomassa cuja energia química usufruímos, antes de mais nada como alimento. (...)
A clara vantagem antipoluição do álcool foi de certa forma -uma forma canhestra- reconhecida no trabalho do Ibama, lançado às pressas por Minc. Como não dá para comparar álcool e gasolina nesse quesito, tamanha a desvantagem da segunda, ele foi omitido da "nota verde". A emissão de CO2 está numa pontuação separada, só para veículos a gasolina. (...)
Se o saldo da publicação do ranking for a conclusão, entre consumidores, de que abastecer o carro com álcool polui tanto quanto fazê-lo com gasolina, Minc acaba de dar mais um tiro no próprio pé -o do acelerador.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes)
Recebi de Niro Higuchi, um antigo interlocutor e mestre, as ponderações abaixo sobre a comparação entre florestas tropicais e boreais (taiga) que abordei em coluna recente e que suscitou alguma divergência nos comentários. Pelo que diz Higuchi, eu estive errado tanto na questão da área da taiga quanto na de carbono estocado (a taiga só tem mais que florestas tropicais se for computado o que está no solo). Agradeço a ele pelo esclarecimento.
A tabela 1 mostra os reservatórios de carbono de cada bioma (segundo IPCC). O maior reservatório de C na vegetação está nas florestas tropicais, igual a 212 bilhões de t C. Somando boreal e tundra, temos na vegetação 94 bilhões de t C. Nos solos (excluindo raízes), a floresta boreal + tundra têm muito mais do que a floresta tropical. Em termos de área, boreal + tundra tem uma área maior do que a tropical. A estimativa de troca entre biosfera e atmosfera é de 60 bilhões por ano; destes, 32 bilhões são atribuídos para as florestas tropicais. Esta estimativa é, praticamente, em cima da vegetação e não dos solos. Por estas razões, a ênfase tem sempre o viés para as florestas tropicais.
Quando se fala em florestas e seu efeito sobre o clima planetário, as pessoas pensam logo nas florestas tropicais. Com isso, quase sempre vêm à mente a Amazônia e, claro, o Brasil. Afinal, o território do Brasil abriga a maior floresta do mundo, correto? Não.
A maior área florestada da Terra está milhares de quilômetros ao norte. Cobre quase toda a faixa de altas latitudes boreais, entre os paralelos 53 e 67 Norte. Vale dizer, a maior parte do Canadá e da Rússia.
O nome correto dessa floresta em que predominam coníferas (árvores com folhas na forma de agulhas) é taiga, embora seja também chamada de floresta boreal. Só na Rússia há 9 milhões de quilômetros quadrados de taiga, uma área maior que a do Brasil. A floresta amazônica nacional tem menos da metade disso.
Sozinha, a taiga representa um terço da superfície de floresta do mundo. Ela guarda também um terço do carbono estocado em ambientes terrestres, na forma de madeira, folhas, raízes, matéria vegetal e micro-organismos do solo. Destruída, o que não tem chance de acontecer no tempo de vida do leitor, lançaria 550 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera, com reforço devastador ao aquecimento global.
A taiga não está nem de longe ameaçada como a floresta amazônica, mas isso também não quer dizer que esteja segura. O alerta sobre o risco que corre a mata boreal foi lançado na semana passada por Corey Bradshaw, Ian Warkentin e Navjot Sodhi no periódico científico "Trends in Ecology and Evolution" (simpaticamente abreviada "Tree", árvore, em inglês). (...)
Há indícios fortes de que o fogo -uma ocorrência natural na taiga- venha consumindo áreas cada vez maiores desse bioma boreal. (...)
Para piorar a situação, a taiga se encontra justamente na região do planeta -altas latitudes do hemisfério Norte- em que a temperatura mais deve subir sob efeito do aquecimento global. Projeta-se um aumento de 5C a 10C neste século. O Alasca, onde está a parcela americana da floresta boreal, já tem invernos em média 4,5C mais quentes que meio século atrás. (...)
Bradshaw, Warkentin e Sodhi defendem que o papel crucial da taiga na armazenagem de carbono justifica a criação de extensas áreas protegidas: "Essas grandes reservas florestais são possíveis em florestas boreais do Canadá e da Rússia, e argumentamos que esses países, em particular, têm uma responsabilidade moral e global de criar tais reservas".
Parece até que os autores estão falando do Brasil.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Quem sabe sabe. Fred Pearce é um veterano jornalista de ciência e meio ambiente, que deve ser lido com toda a atenção. Dificilmente o leitor deixará também de divertir-se, ainda que por razões tragicômicas - como na inspirada denúncia que acaba de assestar contra sir Richard Branson, o "alternativo" dono da Virgin Air.
Fred Pearce foi atrás dos índices de emissões de gases do efeito estufa da "verde" Virgin. Descobriu que ela perde feio, no quesito gramas de carbono por passageiro/km, para empresas com péssima imagem ambiental, como a RyanAir. Não deixe de ler.
Preparação para mudança climática custaria até três vezes mais, alerta estudo
O Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento (IIED, na abreviação em inglês) lançou hoje o relatório "Avaliando os custos da adaptação à mudança climática", em parceria com o Imperial College de Londres, com um alerta preocupante: estão subestimados os custos até agora calculados pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, órgão criado pela ONU) para que os países se preparem para a parcela de aquecimento global que não pode mais ser evitada. Pelos novos cáculos, a conta poderia ser até três vezes mais alta.
O principal autor do estudo é Martin Parry, que foi um dos coordenadores, entre 2002 e 2008, do grupo de trabalho do IPCC que se debruçou justamente sobre impactos, vulnerabilidade e adaptação. A Convenção da ONU sobre Mudança Climática estimava que seriam necessários de US$ 40 bilhões a US$ 170 bilhões por ano _ou o custo de até três Olimpíadas_ para pagar obras de infraestrutura e perdas econômicas provocadas por secas, inundações, epidemias etc. Parry e co-autores estimam que o valor deve multiplicar-se por 2 ou 3, quando se computam uma série de aspectos deixados de fora pelo IPCC.
"A quantidade de dinheiro sobre a mesa em Copenhague é um dos fatores-chave para determinar se alcançaremos um acordo sobre mudança climática", afirmou Parry em comunicado do IIED. "Mas estimativas anteriores da adaptação avaliaram substamcialmente mal a escala dos fundos necessários."
Alguns destaques do estudo:
Água - A estimativa anterior de US$ 11 bilhões excluía o custo da adaptação a enchentes e para transprote de água entre regiões;
Saúde - Os US$ 5 bilhões previstos desconsideravam países desenvolvidos e se baseavam apenas em malária, diarréias e desnutrição, ou seja, no máximo 30% a 50% dos problemas de saúde que afligem o mundo;
Infraestrutura - Pode sair até oito vezes mais caro que os US$ 10 bilhões/ano para mantê-la e ampliá-la de modo a garantir desenvolvimento para países pobres, como na África;
Zonas costeiras - US$ 11 bilhões excluíam aumento da intensidade de tempestades e se baseavam em previsões subestimadas de elevação do nível do mar (18-59 cm, quando estudos posteriores a 2007 sugerem até 150 cm);
Ecossistemas - O IPCC deixou de fora o custo de preservar ecossistemas para que mantenham seus serviços à economia, o que pode custar US$ 350 bilhões.
Parece unânime entre comentaristas da política a avaliação de que a provável candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo Partido Verde oxigenou a pré-campanha eleitoral. Ótimo para a campanha. Péssimo para a senadora. (...)
Ela quer usar o palanque e a televisão para impor temas ambientais ao debate sobre os rumos do país. Tem experiência e conhecimento para isso. É duvidoso, contudo, que tenha maturidade para elevar esse debate acima do patamar tacanho em que aliados costumam mantê-lo. (...)
Marina Silva é prisioneira do cercado temático -o salvacionismo ambiental- em que construiu trajetória admirável. Com todas as realizações e a repercussão mundial de sua carreira, prossegue refém de causas ou modelos locais e regionais, como as reservas extrativistas e a luta antibiopirataria. Todas com escasso potencial para forjar uma proposta ousada de desenvolvimento para a Amazônia, menos ainda para o Brasil. (...)
No governo Lula, sua maior contribuição foi uma ideia abstrata: a "transversalidade" da questão ambiental. Perdeu todas as batalhas importantes para a rainha do pragmatismo, a ex-pedetista Dilma Rousseff, cuja candidatura agora balança. Mas teve a coragem de entregar a cabeça ao presidente, não o juízo; meses depois, consegue dar o troco, com o vagar e a astúcia de um jabuti.
Tanto apego às origens, contudo, explica também atitudes descabidas como aceitar, ainda ministra, participar de uma reunião de apologia ao criacionismo, ou patrocinar celebridades esotéricas como Fritjof Capra. Marina Silva tem o direito de ser religiosa ou mística, óbvio. Como integrante de um governo leigo, não devia dar o mau exemplo de promover doutrinas anticientíficas.
A deficiência crônica de um projeto para o Brasil passa decerto pela incorporação visionária da questão ambiental. Não existe proposta coerente e articulada para revolucionar padrões de uso da terra, do capital natural e humano e de energia moldados por séculos de dilapidação colonial, mentalidade escravista e desenvolvimentismo a ferro e fogo.
Esse programa não virá de Dilma, Serra ou Ciro. Nem de Marina Silva. O projeto de que o país precisa, diante do xeque-mate planetário armado pelo aquecimento global, terá de delimitar e negociar a contribuição de alguns setores que a neorreligião verde nasceu para demonizar: petróleo, hidrelétricas, energia nuclear, biotecnologia, agronegócio... A candidata Marina Silva não está pronta para isso.
Recebo da ONG Conservação Internacional comunicado à imprensa ("press release") sobre campanha rápida de levantamento de biodiversidade organizada no Equador. Leia trecho do comunicado e depois mais algumas imagens dos bichos.
As novas espécies foram descobertas durante um Programa de Avaliação Rápida (RAP, na sigla em inglês) da ONG Conservação Internacional (CI) nas florestas da Cordilheira do Condor no sudeste do Equador, uma área de grande importância biológica, ecológica e social, próxima à fronteira com o Peru. A expedição científica teve como foco a bacia do alto rio Nangaritza, que é isolada de outras regiões dos Andes em termos geológicos, o que ajuda a estimular a evolução de espécies endêmicas, ou seja, aquelas que não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo.
No total, foram descobertos quatro anfíbios, um réptil e sete insetos, incluindo uma salamandra de olhos esbugalhados e um minúsculo e venenoso sapinho-ponta-de-flecha do gênero Dendrobates. A CI espera que estas descobertas estimulem o governo do Equador a fortalecer a proteção da área, que fica próxima a um parque internacional da paz, criado no final dos anos 90 para marcar o fim das hostilidades entre o Equador e o Peru depois de décadas de disputa pela área fronteiriça.
Sapinho do gênero Dendrobates (Foto: Jessica Deichmann)
Salamandra do gênero Bolitoglossa (Foto: Jessica Deichmann)
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