Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ecologias

Da arte de enxugar geleiras

 
 

Da arte de enxugar geleiras

O caderno Ilustríssima de ontem, na Folha, traz longa resenha de quatro livros sobre a polêmica em torno da mudança do clima causada pelo homem (ou aquecimento global antropogênico), com belas ilustrações de Mariana Zannetti. Reproduzo aqui trechos incompletos sobre os dois melhores livros:

 


(...)

 

[É] imprescindível ler "Merchants of Doubt" [Mercadores da Dúvida, Bloomsbury Press, 2010, 368 págs., U$ 27, R$ 46], de Naomi Oreskes e Erik M. Conway.
É espantoso constatar que Fred Seitz e Fred Singer, dois dos mais vociferantes críticos do aquecimento global, estão há muito tempo no negócio de lançar dúvidas sobre qualquer ramo de investigação científica que possa prejudicar a indústria. Eles abominam todo tipo de regulamentação para mitigar efeitos não pretendidos do capitalismo sobre o ambiente e a saúde humana.

Os dois Fred são físicos, mas não especialistas em clima, como tampouco o são Alexander e José Carlos Azevedo, o mais ativo cético brasileiro, morto em fevereiro deste ano (Singer, especialista em foguetes e satélites, é o que chega mais perto disso). Formados no auge da Guerra Fria, ocuparam posições de algum destaque na administração republicana de Ronald Reagan (1981-89). Defenderam a Iniciativa de Defesa Estratégica, uma fantasiosa "Guerra nas Estrelas" projetada para anular com armas orbitais o poderio nuclear soviético, se utilizado. Participaram da fundação de "think tanks" conservadores de Washington, como o Instituto George C. Marshall.

De 1979 a 1985, Seitz dirigiu um programa para a empresa de cigarros R.J. Reynolds, dotado com US$ 45 milhões para financiar pesquisadores dispostos a encontrar evidências que exonerassem o produto de danos à saúde humana, ou que pelo menos pusessem em dúvida estudos indicando o contrário. Em meados da década de 1990, já no debate sobre fumo passivo, Singer ajudou a preparar um relatório descascando a agência ambiental americana (EPA) por suas conclusões sobre o risco.

Coordenando os esforços estava a firma de relações públicas Hill and Knowlton. Seu fundador e presidente, John Hill, havia traçado a estratégia diversionista, já em 1953, que faria escola: "As dúvidas científicas precisam continuar".

Não foi outra a estratégia -desacreditar pesquisas- empregada num longo rol de controvérsias: fumo passivo, chuva ácida, buraco de ozônio, DDT, inverno nuclear, aquecimento global... Um grande aliado nessa empreitada, narram Oreskes e Conway, foi a imprensa, em especial órgãos de orientação conservadora ou pró-empresarial, como o diário "Wall Street Journal".
(…)

Estamos, aqui, no campo dos valores, não dos fatos. Tal admissão só se encontra, sem meias palavras, noutro livro surpreendente, "Why We Disagree about Climate Change [Por que Discordamos sobre Mudança do Clima, Cambridge University Press, 2009, 432 págs., £ 16,99, R$ 44], de Mike Hulme.

Hulme, ele sim, é um pesquisador atuante na área. Trabalhou na Unidade de Pesquisa do Clima da Universidade de East Anglia - epicentro britânico do Climagate - e dirigiu por sete anos o Centro Tyndall de estudos interdisciplinares sobre aquecimento global, no Reino Unido. Seu relato, um arrazoado sobre as guerras do clima, surpreende porque, sem negar as constatações científicas que ajudou a inscrever nos relatórios do IPCC, Hulme não poupa ceticismo (no bom sentido) diante de correligionários, pondo-se a examinar criticamente seus pressupostos, como um bom cientista social.

Um dos alvos favoritos de Hulme é o catastrofismo de seus pares nas mensagens sobre o aquecimento global. Mais que uma questão física, o aquecimento global tornou-se, em sua óptica, uma questão social e política complexa demais, que não comporta uma resposta simples e mágica como aparenta ser a mera redução de emissões de gases do efeito estufa. É o tipo do problema "enroscado" ("wicked"), para o qual só se obtêm soluções "canhestras" ("clumsy").

O retrospecto desanimador da negociação internacional sobre emissões, do Rio e Kyoto a Copenhague e Cancún, só lhe dá razão. O Protocolo de Kyoto (1997) mandava reduzir em 5% os gases estufa de nações desenvolvidas até 2012. Desde então, as emissões globais subiram 16%.

Enquadrar a mudança do clima como uma ameaça cataclísmica para a qual só a ciência teria remédio é condenar o debate ao impasse, por tentar silenciar vozes opostas (por mesquinhas e sibilantes que sejam). Hulme propõe examinar as narrativas e mitologias embutidas na questão do aquecimento global, de maneira a aliviá-la das camadas de expectativas que sobre ela se foram acumulando, até torná-la intratável. (...)

 

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h06

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Clima pesado

 
 

Clima pesado

Leia abaixo os parágrafos iniciais de análise de minha lavra na Folha de hoje:

 


A revista britânica "Nature" publica nesta semana uma entrevista reveladora com Phil Jones, climatologista que se tornou o pivô do escândalo conhecido como "Climagate" há um ano.

Acusado de manipular e ocultar dados e de distorcer a ciência ligada ao aquecimento global, a partir de e-mails furtados por hackers dele e de seus colegas, Jones foi inocentado. Conta que recebeu ameaças, que pensou em suicídio e que, por alguns meses, só dormia com a ajuda de remédios.

O abatimento de Phil Jones mostra como o pesquisador médio está mal preparado para enfrentar a guerrilha movida pelos "céticos do clima", que defendem que o aquecimento causado pelo homem não existe.

Eles têm por objetivo central plantar uma semente de dúvida na ciência do clima, no que são auxiliados pelas incertezas inerentes à atmosfera. Bombardeiam os adversários com questionamentos e pedidos de informação, a fim de garimpar deslizes que possam tornar-se munição.

(...)

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h33

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Nós e os grandes primatas do zoo

 
 

Nós e os grandes primatas do zoo

A Folha de hoje traz um texto de análise (aqui, só para assinantes) de minha autoria sobre a proposta de fechar os zoológicos, defendida anteontem em entrevista pelo empresário e microbiologista Pedro Ynterian, presidente internacional do "Great Ape Project" e dono de um santuário de animais resgatados em Sorocaba.

Apesar da simpatia pela causa dos animais e de Ynterian, acho a ideia um pouco exagerada. Frequentei muito o Zoológico de São Paulo quando criança e adolescente, o que permitiu testemunhar a evolução "humanitária" dos recintos habitados pelos animais. Faz tempo que lá não vou, desde que minhas filhas deixaram de ser crianças, mas até onde sei não há mais muitos bichos confinados nas jaulas minúsculas e fedorentas de antigamente.

Fiquei fascinado na primeira vez em que vi a planície dos antílopes, se me recordo bem do nome. Idem com a imensa gaiola das harpias. Mas sempre acreditei piamente na informação de meu pai de que o balançar da cabeça do elefante era sinal de loucura, pois era exatamente o que meus próprios olhos informavam.

Reproduzo abaixo a primeira versão do texto escrito para o caderno Cotidiano, que teve de ser cortado para caber na página e no espaço que lhe foram destinados.


Uma década atrás, visitantes do Instituto Montanhas Rochosas em Snowmass, Colorado (EUA), davam com dois orangotangos de pelúcia no sofá da recepção.

Amory Lovins, ambientalista visionário, reagia entre sério e ofendido à indagação sobre o que aqueles macacos (“monkeys”) faziam ali: “Não são macacos, são grandes primatas” (“great apes”).

Era um alerta de que gente inteligente e competente se preocupava com o destino e a vida desse grupo de animais com quem os humanos partilham a família Hominidae.

São sete espécies na família: Homo sapiens, duas de gorilas (Gorilla gorilla e Gorilla beringei), duas de chimpanzés (Pan troglodytes e Pan paniscus, os bonobos) e duas de orangotangos (Pongo pygmaeus e Pongo abelii).

Das seis não humanas, duas se encontram criticamente ameaçadas de extinção e quatro, ameaçadas.

Além de partilhar a maior parte de seu genoma, são também os animais mais populares dos zoológicos. O interesse pode parecer mútuo, mas a presença das grades e dos vidros deixa claro quem é livre e quem é coisa.

Índios brasileiros, fueguinos e hotentotes africanos também foram um dia exibidos, como animais, na Europa. Isso para não falar da escravidão, que já foi considerada parte da ordem natural até por crentes em Deus.

Muita coisa na sensibilidade ocidental se modificou desde 1975, quando o filósofo australiano Peter Singer publicou “Libertação Animal”, que se tornaria a Bíblia do movimento pelos direitos dos animais. A obra acaba de ser relançado no Brasil pela editora Martins Fontes.

Duas cientistas também contribuíram para essa mudança: Jane Goodall, a amiga dos chimpanzés, e Dian Fossey, que pagou com a vida por defender gorilas da montanha contra caçadores.

Hoje se admite que os grandes primatas têm cérebros, mentes e comportamento similares, em muitos aspectos, aos de primos humanos. Inúmeros estudos demonstraram que são portadores de faculdades antes atribuídas exclusivamente a humanos, como o uso de símbolos, ferramentas, guerras e sexo interessado.

Singer e seus seguidores querem esvaziar as jaulas de grandes primatas nos zoos e dar-lhes status jurídico de pessoas. Negar-lhes isso seria aferrar-se ao que chamam de “especismo”, como escravocratas ao racismo.

Não é fácil traçar a fronteira, porém. Os amigos dos grandes primatas poderiam ser acusados de “familismo”, por exemplo. Libertar só os gorilas, orangotangos e chimpanzés deixaria encarcerados todos os macacos do Novo Mundo, como os nosso saguis, micos e bugios.

Esvaziar os zoos, além de quixotesco, impediria muitas crianças de travar um contato mais próximo com os animais. Um caminho intermediário seria exigir um tratamento mais humano para todos os animais, ou seja, espaço e condições de vida em que possam conviver bem.

Quando isso não for possível, como parece ser o caso de elefantes, a proibição parece justa. Não há razão, contudo, para confinar grandes primatas nascidos e criados em cativeiro a santuários, longe das vistas da público.

Escrito por Marcelo Leite às 19h18

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Foto brasileira ganha concurso marinho

 
 

Foto brasileira ganha concurso marinho

Guy Marcovaldi, do Projeto Tamar, ganhou o concurso "Oceano em Foco" do Marine Photobank com a imagem acima, em que o mergulhador liberta uma tartaruga afogada depois de presa numa rede de pescar. Foi considerada a melhor foto para sintetizar as muitas ameaças que cercam a vida no mar.

Escrito por Marcelo Leite às 14h08

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Bacalhau é tudo de bom

 
 

Bacalhau é tudo de bom

 

Uma semana atrás, Johnny Haaberg, representante do Conselho Norueguês da Pesca no Brasil e vice-cônsul da Noruega no Rio de Janeiro, teve publicado artigo (aqui, para assinantes) na página Tendências/Debates da Folha. Dizia que reportagem minha de 7 de outubro, no caderno Turismo do jornal, continha equívocos: “Os consumidores podem ter o prazer de comer o bacalhau norueguês sem se preocupar com a extinção do estoque”, assegurava o autor.

O representante da Noruega está no direito de defender o seu peixe, mas não no de minimizar a preocupação com o meu, o seu, o nosso bacalhau (Gadus morhua, que existe ou existia em todo o Atlântico Norte, não só nas lindas águas da Escandinávia). Por isso lhe respondi hoje, no mesmo espaço, com o artigo “Vocês querem bacalhau?” Adianto alguns trechos:


 

(…) Não havia equívocos na reportagem. Tanto é assim que o artigo, que se propunha a corrigir "impressão totalmente equivocada em relação ao status desse pescado", não contesta suas informações. Ao contrário, a contestação repete afirmações da reportagem. Por exemplo, a de que Noruega e Rússia administram o maior estoque viável do peixe Gadus morhua (nome científico do bacalhau verdadeiro), no mar de Barents. E a de que a cota de pesca do bacalhau para 2011, no Ártico Nordeste norueguês, foi elevada para 703 mil toneladas, já que a população do peixe estaria em recuperação. (…)

A espécie Gadus morhua está classificada como "vulnerável" pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na abreviação em inglês). É o terceiro nível de ameaça, na escala de sete graus que vai de “baixa preocupação” até “extinta”. O fato de haver uma população viável em Barents, manejada segundo recomendações científicas, não diminui a gravidade de sua situação noutros mares.


 

Escrito por Marcelo Leite às 11h05

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Abaixo-fotografado pelos pinguins

 
 

Abaixo-fotografado pelos pinguins

Quer participar de um abaixo-assinado diferente e ajudar pinguins a salvar seu alimento, o krill antártico? Mande uma fotoi para o mosaico do AKCP (Antarctic Krill Conservation Project).

Escrito por Marcelo Leite às 10h03

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Danúbio vermelho

 
 

Danúbio vermelho

O desastre com a lama vermelha da produção de alumina em Ajka, Hungria, ameaça chegar ao rio Danúbio. É o tema de uma análise minha publicada hoje na Folha, que relembra o descaso dos governos comunistas da Cortina de Ferro com a poluição e a ocorrência de derramamentos do mesmo lodo no Brasil (ainda que em escala menor).

Escrito por Marcelo Leite às 13h52

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A virada de Lomborg

 
 

A virada de Lomborg

"Líder dos céticos do clima muda de ideia", noticiou ontem a Folha. Bjorn Lomborg, autor do best seller O Ambientalista Cético, agora se alista entre os que acham que o aquecimento global causado pelo homem ("antropogênico", no jargão do setor) precisa ser combatido.

Só que Lomborg não dá ponto sem nó. Se para vender um novo livro ele precisar dar a impressão de que virou casaca, ele o fará, ainda que negando que o tenha feito. Em lugar de Soluções Espertas para a Mudança do Clima: Comparando Custos e Benefícios, a coletânea que ele organizou poderia chamar-se "O Ambientalista Midiático".

Na realidade, Lomborg não mudou de posição. Seu negócio continua sendo alvejar o processo de negociação internacional que levou ao Protocolo de Kyoto. Primeiro, semeou um monte de dúvidas sobre a gravidade do aquecimento global antropogênico. Depois, defendeu que havia coisas mais urgentes e fáceis de resolver no mundo, como Aids. Agora, duvida que cortar emissões de carbono seja a melhor opção para combater o problema.

Ganha um barrilzinho de petróleo igual ao que Lula reebeu da Petrobras quem adivinhar quais setores da indústria se beneficiam com as propostas "espertas" do Consenso de Copenhague. Mas é justo conhecer e debater os argumentos desse povo amigo de Lomborg no novo livro, entre autores e revisores do Painel de Especialistas que leu e criticou os artigos originais. Afinal, eles podem estar certos, e Kyoto até aqui se mostrou de fato um caminho problemático.

Para dar uma ideia do conteúdo do livro, eis aqui alguns parágrafos seletos traduzidos da introdução e das conclusões disponíveis na página da Amazom.com:


  • Como escrevi em O Ambientalista Cético (2001), o aquecimento global causado pelo homem existe. Ainda há trabalhos significativos e importantes em curso sobre a gama de resultados que devemos esperar, mas é vital enfatizar o consenso sobre as questões científicas mais importantes. Há muito deixamos para trás discordâncias predominantes sobre a ciência da mudança do clima. O debate crucial e relevante, hoje, se dá sobre o que fazer a respeito da mudança do clima - a economia de nossa resposta.
  • Seria moralmente indefensável despender enormes quantidades de dinheiro para obter pequeno efeito sobre o aquecimento global de longo prazo e o bem-estar humano, se pudermos alcançar muito mais impacto sobre o clima -- e deixar as gerações futuras em situação melhor -- com um investimento menor em soluções mais espertas.
  • A mudança do clima é indubitavelmente uma das preocupações principais que o mundo enfrenta hoje. Atraiu a atenção de altos escalões da política e repetidos esforços para formar um consenso global sobre cortes de carbono. Mas muitas questões permaneceram desconsideradas e sem resposta. Deveriam os políticos prosseguir com planos para fazer promessas de cortes de carbono que, baseadas em experiência anterior, são de cumprimento improvável? O que se poderia alcançar plantando mais árvores, cortando metano (CH4) ou reduzindo as emissões de fuligem? É sensato pôr o foco em uma solução tecnológica para o aquecimento? Ou devemos manter o foco na adaptação a um mundo mais quente?
  • O mais importante: a pesquisa aqui reunida e apresentada responde a questão fundamental que com frequência desconsideramos -- não SE deveríamos fazer algo a respeito do aquecimento global, mas sim QUAL A MELHOR MANEIRA de proceder. O ponto de partida para cada capítulo é que o aquecimento global representa um desafio que a humanidade precisa enfrentar.
  • Pergunta para o Painel de Especialistas, com cinco membros (três ganhadores de Nobel):
    Se a comunidade global quiser gastar até, digamos, 250 bilhões de dólares por ano ao longo dos próximos dez anos para diminuir os efeitos adversos das mudanças do clima e maximizar o bem para o mundo, quais soluções gerariam os maiores benefícios líquidos?
  • É claro que, onde for possível fazer reduções relativamente baratas nas emissões de carbono por meio de uso mais eficiente de energia, se trata de algo perfeitamente racional. No entanto, Tol mostrou de forma contundente no capítulo 2 que mesmo um imposto de carbono global altamente eficiente, voltado para o cumprimento da meta ambiciosa de manter o aumento de temperatura abaixo de 2°C, reduziria o PIB mundial anual de maneira impressionante -- cerca de 12,9%, ou 40 trilhões de dólares, em 2100. O custo total seria cerca de 50 vezes o do dano evitado ao clima. E, se os políticos escolherem políticas de cotas e comercialização (cap-and-trade) menos eficientes e coordenadas, o custo pode disparar para 10 a 100 vezes adicionais.
  • Impor um preço no carbono poderia e deveria exercer um papel de âncora - poderia ser usado para financiar P&D e emitir um sinal de preço que induza a mobilização de alternativas tecnológicas eficientes e econômicas. Investir 100 bilhões de dólares anualmente significaria que podemos resolver a essência do problema da mudança do clima ao final deste século.
  • É uma lástima que tantos formuladores de políticas e militantes tenham se fixado no corte de carbono de curto prazo como resposta principal ao aquecimento global. É penoso ler a pesquisa neste volume e perceber que existem alternativas adequadas e eficientes. O próximo passo deve ser assegurar que respostas espertas e sensatas ao aquecimento global recebam mais atenção.
  • Se os líderes do mundo não mudarem de curso, eles estarão nos causando -- e a futuras gerações -- um gigantesco desserviço. Farão muito menos bem por um custo muito mais alto. Se nos preocupamos com o ambiente e em dotar este planeta e seus habitantes com o melhor futuro possível, na realidade temos uma única opção: todos precisamos começar a priorizar seriamente, desde já, as maneiras mais eficazes de resolver o aquecimento global.

Escrito por Marcelo Leite às 09h31

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IPCC: Fora Pachauri

 
 

IPCC: Fora Pachauri

O relatório do Conselho Inter-Academias sobre os procedimentos do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), divulgado anteontem (30/8), pode ser interpretado de mais de uma maneira. Nenhuma delas permite concluir que o trabalho do órgão seja um "caos", como alguns relatos buscaram caracterizá-lo. (...)

O documento das academias parece brando com o IPCC, mas não é. No fundo --ou melhor, nas entrelinhas-- podem-se entrever alguns recados não verbalizados. O mais importante é que o indiano Rajendra Pachauri deveria deixar a presidência do painel. (...)

Em meio a uma guerra de comunicação sobre um erro crasso no Quarto Relatório de Avaliação (AR4, de 2007), Pachauri comportou-se com arrogância, pondo em risco a credibilidade amealhada pelo IPCC ao longo de duas décadas. Tratava-se da previsão do AR4 de que as geleiras do Himalaia poderiam desaparecer até 2035, uma bobagem isolada e irrelevante para abalar a conclusão de que o aquecimento global é inequívoco e parte dele é provocado pelo homem ("antropogênico", no jargão da mudança do clima).

O indiano demorou a responder e não reconheceu de imediato o erro, nem se desculpou logo por ele. Agora tem de aturar a dissecação do episódio pelo comitê. Dois de 12 revisores do trecho haviam apontado inconsistências e falhas de referência (a fonte era uma relatório da ONG ambiental WWF, e não um trabalho científico convencional), mas foram ignorados por autores e editores do relatório. (...)

Diante dessas e de outras cincadas, conclui-se que a proposta do comitê auditor de criar um comitê executivo e o cargo de diretor executivo, abaixo do presidente do painel, todos com mandatos vinculados ao período de produção de um novo relatório (6 anos), constitui uma indireta para Pachauri pegar o boné. Ele comanda o IPCC desde 2002 e tem mandato até que saia o quinto relatório, em 2013 ou 2014. Nega que vá renunciar, mas isso pode ocorrer na próxima reunião dos representantes dos 194 países do painel, em outubro. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha.com.

Escrito por Marcelo Leite às 16h44

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Fumacê brasileiro, ou as queimadas e nossos narizes

 
 

Fumacê brasileiro, ou as queimadas e nossos narizes


Eis os primeiros parágrafos da coluna Ciência em Dia que foi ao ar na Folha.com hoje:



O país está imerso num mar de queimadas, mas não há nem cheiro de fumaça na campanha presidencial. Ninguém está tratando disso. Nem Marina Silva.

Nossas orelhas tampouco vão arder, porque nenhum deles está falando de nós. Só alguns rostos ficarão em brasa, diante da empulhação transparente do horário eleitoral.

Já os narizes estão pegando fogo. Placas se acumulam nas mucosas, às vezes com sangue. Acorda-se no meio da noite com as narinas entupidas por falta, e não excesso, de muco. Borrifadores nasais viraram extintores de incêndio de bolso.

Não caia na conversa de que uma massa de ar quente e seco nos impede de respirar em pleno inverno. Sim, o ar está seco. Mas ele está cheirando a quê?

Onde há fumaça, há fogo, ensina o lugar comum. E não é só a combustão interna de veículos movidos a combustíveis fósseis (gasolina, diesel) ou renováveis (etanol, biodiesel). Pastagens, capoeiras e matas virgens estão ardendo --combustível vivo.
(...)

 

 


Leia a íntegra da coluna aqui.

 

Escrito por Marcelo Leite às 23h22

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Clima de instabilidade e Paquistão

 
 

Clima de instabilidade e Paquistão

Vítima de enchente no Paquistão (Foto: Reuters)

Não sei quase nada sobre o Paquistão, só que é um país problemático, aliado inconfiável dos EUA, com tendência para governos corruptos e incapazes de controlar boa parte do território, como as montanhas na fronteira com o Afeganistão em que se refugia o Taleban.

Sei também, agora, que passa por uma das piores enchentes já ocorridas lá, com casos de cólera confirmados pela ONU. As cheias vitimaram 20 milhões de pessoas, deixando mais de 1,6 mil mortos. É desastre natural para ninguém botar defeito.

É, também, perfeitamente compatível com as previsões de aumento de eventos climáticos extremos feitas pelo IPCC. Não se pode afirmar com segurança que esta enchente em particular seja diretamente causada pelo aquecimento global antropogênico (provocado pelo homem, ou AGA), mas a maior incidência de desastres naturais -- como a atual onda de calor na Rússia -- corrobora a afirmação de que ele já é uma realidade.

Até empresas de seguros e resseguros, como a Munich Re, aceitam isso.

A reação do governo do Paquistão já está sendo criticada no país, assim como foi a de George W. Bush no furacão Katrina. Suponha que as enchentes sejam tão graves e a revolta com o governo, tão grande, a ponto de torná-lo instável. Instabilidade num país dotado de armas nucleares, conflitos intermitentes com a igualmente nuclearizada Índia e acossado pelo Taleban não é bem uma coisa desejável.

Escrito por Marcelo Leite às 09h28

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Mais dois alertas sobre o clima

 
 

Mais dois alertas sobre o clima

Se você acredita que existe uma conspiração para convencer o público e os governos de que o aquecimento global é uma realidade e que o homem é ao menos em parte responsável por ele, saiba que o jornal "The New York Times" e o respeitado jornalista Fareed Zakaria (Newsweek, CNN) fazem parte dela.

O diário nova-iorquino, afinal, publicou uma reportagem de Justin Gillis que qualquer "cético" (negacionista) qualificaria como alarmista e até irresponsável. O texto relaciona a coleção de desastres naturais recentes -- enchentes nos EUA e no Paquistão, onda de calor na Rússia etc. -- com a mudança do clima, coisa que os climatologistas até agora vinham relutando em fazer.

Já Zakaria encurralou na CNN o célebre negacionista profissional Pat Michaels, que já andou pelo Brasil e até publicou um artigo na Folha (aqui, só para assinantes). Zakaria arrancou dele a confissão de que pelo menos 40% de suas pesquisas -- Michaels disse não saber ao certo -- são financiadas pela indústria do petróleo. Leia um relato do programa no blog The Wonk Room, ou assista aqui:

 

Escrito por Marcelo Leite às 18h57

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119 respostas curtas e finas aos negacionistas do aquecimento global

 
 

119 respostas curtas e finas aos negacionistas do aquecimento global

 

A página de John Cook, Skeptical Science, cujo lema é "seja cético diante do ceticismo com o aquecimento global" (em tradução livre), produziu uma impressionante lista de 119 respostas a supostos argumentos contra a noção de aquecimento global antropogênico (AGÁ, para simplificar) repetidos à exaustão pelos maldenominados "céticos" (negacionistas).

São respostas breves e úteis, mas não param por aí. Cada uma delas traz links para quem quiser se aprofundar nas referências científicas.

Na próxima vez que um termochato pegar no seu pé, saque a lista (há até versões para celulares).

Eis abaixo uma amostra com as dez primeiras respostas da tradução para o português fornecida pelo próprio sítio. As respostas são ligeiramente mais longas, e as traduções nem sempre soam muito bem, por isso recomendo ler diretamente em inglês.

1. Atividade solar e clima: o sol é a causa do aquecimento global?
Resposta: Nos últimos 35 anos de aquecimento global, o sol apresentou uma ligeira tendência de resfriamento. Sol e clima têm caminhado em direções opostas. Mais...
2. O clima sempre mudou
Resposta:
Mudanças climáticas naturais do passado mostram que o clima é sensível a um desequilíbrio energético. Se o planeta acumula calor, as temperaturas globais sobem. Atualmente, o CO2 está impondo um desequilíbrio energético devido a um aumento no efeito estufa. As mudanças climáticas do passado, na verdade, proporcionam evidência à sensibilidade do clima ao CO2. Mais...
3. Há consenso científico a respeito do aquecimento global?
Resposta:
A posição das Academias de Ciências de 19 países, mais várias organizações científicas que estudam climatologia, é que os seres humanos estão causando o aquecimento global. Mais especificamente, 97% dos climatologistas que ativamente publicam estudos endossam a posição do consenso. Mais...
4. O aquecimento global ainda está acontecendo?
Resposta:
Medições empíricas do conteúdo de calor da Terra mostram que o planeta ainda está acumulando calor e o aquecimento global ainda está ocorrendo. Temperaturas de superfície podem mostrar resfriamento de curto prazo quando se troca calor entre a atmosfera e o oceano, que tem muito mais capacidade de armazenar calor do que o ar. Mais...
5. Qual a confiabilidade dos modelos climáticos?
Resposta: Embora haja incertezas nos modelos climáticos, eles conseguem reproduzir com sucesso o passado e fizeram predições que foram subsequentemente confirmadas pelas observações. Mais...
6. As medições de temperatura de superfície são confiáveis?
Resposta:
Vários estudos sobre o efeito de ilhas urbanas de calor e influência da localização dos medidores concluíram que eles têm influência desprezível nas tendências de longo prazo, particularmente quando feita a média de regiões extensas. Mais...
7. O aquecimento global parou em 1998?
Resposta:
O planeta continuou a acumular calor desde 1998 - o aquecimento global ainda está acontecendo. No entanto, as temperaturas de superfície mostram muita variabilidade interna devido à troca de calor entre os oceanos e a atmosfera. 1998 foi um ano particularmente quente devido a um forte El Niño. Mais...
8. Os cientistas previram uma Era Glacial iminente nos anos 70?
Resposta:
As previsões de uma Era Glacial na década de 70 foram baseadas principalmente na mídia. A maioria das pesquisas daquele perído, publicadas em periódicos científicos e revisadas por pares, já previam o aquecimento causado pelo aumento de CO2. Mais...
9. Estamos nos aproximando de uma nova Era Glacial?
Resposta: O efeito de aquecimento de mais CO2 se sobrepõe com folga à influência de  mudanças na órbita da Terra ou atividade solar, mesmo que esta caísse para os os níveis do Mínimo de Maunder. Mais...
10. A Antártica está perdendo ou ganhando gelo?
Resposta:
Enquanto o interior da Antártica Oriental está ganhando gelo continental, a Antártica como um todo está perdendo este gelo continental a uma razão cada vez mais rápida. O gelo oceânico antártico está aumentando apesar do Oceano Antártico estar se aquecendo intensamente. Mais...

Escrito por Marcelo Leite às 15h51

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George P. Schultz, republicano e anti-"cético"

 
 

George P. Schultz, republicano e anti-"cético"

Não faltam credenciais conservadoras ao americano George P. Schultz, que foi secretário (ministro) do Trabalho, do Tesouro e do Estado nos governos republicanos de Nixon e Reagan. Ele ainda está ativo na política da Califórnia, onde colabora na campanha da candidata republicana ao governo do Estado, Meg Whitman, mas discorda dela no que respeita à mudança do clima e ao aquecimento global antropogênico (AGA, ou seja, causado pelo homem).

No cerne da divergência está a Proposição 23, que estará em votação na Califórnia em novembro, em paralelo à eleição para governador e para o Congresso. A proposta manda suspender todas as medidas de contenção de gases do efeito estufa iniciadas pelo "governator" Arnold Schwarzenegger (republicano como Whitman) enquanto a taxa de desemprego de 12% não cair até 5,5% e aí permanecer por um ano. Whitman é simpática a pelo menos uma moratória. Schultz é francamente contrário à Proposição 23 e a qualquer moratória.

"Há um problema com o clima conectado à queima de combustíveis fósseis... Os fatos básicos são muito claros", disse Schultz ao jornalista George Skelton, do "Los Angeles Times" (leia a matéria aqui).

Skelton fecha o texto com a seguinte sentença: "Schultz tem 89 anos, mas pensa como um estudante de pós com o futuro ainda pela frente".

Escrito por Marcelo Leite às 14h29

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Três vezes clima

 
 

Três vezes clima

UMA: reproduzo abaixo os três primeiros parágrafos de comunicado da Agência Fapesp que você pode continuar lendo aqui:

O primeiro quadrimestre de 2010 foi o mais quente já registrado, de acordo com dados de satélite da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos.

No Brasil, a situação não foi diferente. Entre 1980 e 2005, as temperaturas máximas medidas no Estado de Pernambuco, por exemplo, subiram 3ºC. Modelos climáticos apontam que, nesse ritmo, o número de dias ininterruptos de estiagem irá aumentar e envolver uma faixa que vai do norte do Nordeste do país até o Amapá, na região Amazônica.

Os dados foram apresentados pelo pesquisador Paulo Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), durante a 62ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que começou no domingo (25) e vai até a sexta-feira (30), em Natal, no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).


DUAS: Se você lê inglês e não é daqueles que acreditam na possibilidade de uma vasta conspiração do governo dos EUA para impedir o desenvolvimento de países como o Brasil, dê uma olhada nesta página da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (Noaa) dos EUA. É um bom resumo das MEDIDAS e OBSERVAÇÕES que indicam a ocorrência de uma mudança do clima como consequência da atividade humana.

Reproduzo a seguir o gráfico segundo o qual não parece possível explicar o aumento da temperatura só com base no ciclo de variação da energia solar, um dos "argumentos" preferidos dos negacionistas (malconhecidos como "céticos").


TRÊS: O Estadão está hospedando uma página chamada Isso não é normal que resulta de um projeto com apoio financeiro do Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DFID) do governo britânico e apoio do Programa de Comunicação em Mudanças Climáticas da Embaixada Britânica no Brasil. Vale a pena conferir.

Escrito por Marcelo Leite às 12h03

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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