"Ciência em Dia" rides again

Após um longo e injustificável silêncio, o blog volta à ativa. Viagens e uma sucessão de problemas dificultaram sua atualização, mas isso não é desculpa. Com o rabo entre as pernas, gostaria de indicar duas coisas para o leitor:

1. IMPORTAÇÃO - Se for pesquisador, não deixe de responder ao questionário digital que um pessoal da UFRJ, Stevens Rehen à frente, lançou sobre o eterno problema da importação de equipamentos e insumos para pesquisa. Entra governo, sai governo, e a questão da burocracia não se resolve.

2. INTERNET BURRA - Na segunda-feira passada, a Folha publicou entrevista minha com Nick Carr, autor de "The Shallows What the Internet is Doing to Our Brains" (que poderia ser traduzido como "No Raso - O que a Internet Está Fazendo como Nossos Cérebros"). Embora ocupando uma página inteira do jornal, o texto ficou curto. Vale a pena ler a íntegra da conversa, publicada na Folha.com. Uma amostra:

Cena do filme "Fahrenheit 451", de F. Truffaut;

bombeiros eram encarregados de queimar livros


FOLHA - Seu livro, "The Shallows", deplora a internet como ameaça à mente formada pela invenção de Gutenberg, que nos deu o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Industrial e o Modernismo. Mas a invenção de Gutenberg também não destruiu a mente e a filosofia medievais, assim como toda a cultura clássica greco-romana? Ou seria mais preciso dizer que ambas as invenções amplificaram e continuaram a cultura do passado?
NICHOLAS CARR - Toda tecnologia de comunicação e escrita traz mudanças. Perdemos coisas do passado e ganhamos outras coisas novas. Isso é verdadeiro mesmo para o período anterior a Gutenberg, com a invenção do alfabeto, pela maneira como alterou a memória humana e nos deu maior capacidade de intercambiar informação. A internet, assim como tecnologias anteriores, amplifica certos modos de pensar e certos aspectos da mente intelectual, mas também, ao longo do caminho, sacrifica outras coisas importantes.

FOLHA - Uma espada de dois gumes, por assim dizer.
CARR - Sim.

FOLHA - Se a leitura e a reflexão profundas estão em risco, como explicar o sucesso de coisas como o Kindle e mesmo de seu livro?
CARR - As coisas não mudam de imediato. Há ainda um grande número de pessoas que leem livros. O número ao menos dos que leem livros sérios vem caindo há um bom tempo, mas haverá pessoas lendo livros por muito tempo no futuro. Meu argumento é que essa prática está se mudando do centro da cultura para a periferia, e as pessoas começam a usar a tela como sua ferramenta principal de leitura, não a página impressa. Acho também que, à medida que mudamos para dispositivos como Kindle ou iPad para ler livros, mudamos nossa maneira de ler, perdemos algumas das qualidades de imersão da leitura.

FOLHA - Mas as pessoas não os usam para navegar, leem como se fossem de fato livros.
CARR - O Kindle se sai bastante bem na tarefa de reproduzir a página impressa. O que sabemos sobre o futuro desses aparelhos é que as companhias que os fazem tendem a competir com base nas novas funções que lhes acrescentarem. A questão é saber se os leitores eletrônicos, ao competir, vão manter a competência da página impressa, ou se vão começar a incorporar novas funções baseadas na internet, redes sociais, sistemas de mensagens e outras ferramentas. Mesmo com o Kindle já vemos a tendência a incorporar novas funções, como as de redes sociais. Infelizmente, o efeito das novas funções será acrescentar mais distrações à experiência de ler.

FOLHA - O que pode ser feito em termos práticos e individuais para resistir a essa tendência_ reservar algumas horas no dia ou na semana para permanecer desconectado? É o que o Sr. faz nas montanhas do Colorado?
CARR - (Risos) Não escrevi o livro para ser do tipo de autoajuda. A mudança que estamos vendo faz parte de uma tendência de longo prazo, na qual a sociedade põe ênfase no pensamento para a solução rápida de problemas, tipos utilitários de pensamento que envolvem encontrar informação precisa rapidamente, distanciando-se de formas mais solitárias, contemplativas e concentradas. Por outro lado, como indivíduos, nós temos escolha. Mesmo que a desconexão se torne mais e mais difícil, pois a expectativa de que permaneçamos conectados está embutida na nossa vida profissional e cada vez mais na visa social, a maneira de manter o modo mais contemplativo de pensamento é desconectar-se por um tempo substancial, reduzindo nossa dependência em relação às tecnologias de tela e exercendo nossa capacidade de prestar atenção profundamente em uma única coisa.

FOLHA - Seu livro lembra o filme Fahrenheit 451 (1966), de François Truffaut, baseado em romance de Ray Bradbury em que as pessoas decoravam livros para impedir que todos fossem destruídos. O Sr. acredita que essa seja a mensagem mais comum extraída dele, a importância de permanecer desconectado para preservar algo que não se deve perder?
CARR - Sim, e fico mesmo gratificado com isso. Muitas pessoas que o leram reagiram dessa maneira. O valor do livro para elas, pessoalmente, foi confirmar algo que talvez não tivessem percebido claramente antes, que estão de fato perdendo essa habilidade de ler e pensar em profundidade. Estão questionando sua dependência da nova tecnologia digital e, em alguns casos, tentam moderar o uso das engenhocas e retornar à leitura de material impresso, reservando tempo para contemplação, reflexão e meditação, modos mais solitários e calmos de pensar.