Marcelo Leite

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Ciência e Sociedade

Aos homeopatas, com paixão

 
 

Aos homeopatas, com paixão

Mae-Wan Ho, notória adversária dos organismos transgênicos, entrou na briga da homeopatia, mas a favor. Num artigo no site do Institute of Science in Society, defende dois controversos trabalhos do codescobridor do HIV e Nobel de Medicina Luc Montagnier (leia mais aqui, se for assinante da Folha ou do UOL), que aparentam dar apoio à tese da memória da água. Leia e forme a sua própria opinião.

Escrito por Marcelo Leite às 14h11

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Paixões pela homeopatia

 
 

Paixões pela homeopatia

O caderno Ilustríssima, da Folha, publicou domingo (29/8) reportagem minha com Cláudia Collucci que apresenta, em duas páginas, dois séculos de controvérsia sobre a homeopatia. Já era hora de ela firmar-se, não? Ocorre que os adeptos da terapia da água memoriosa não são muito dados a conversar civilizadamente com quem não partilha de suas crenças, como se poderá perceber por algumas cartas reproduzidas mais abaixo.

(Também é verdade que seus adversários não se pautam exatamente pelo respeito, como se percebe pelo pôster acima, criado por um tal de Instituto Americano para a Destruição da Ciência da Fadinha do Dente. Não me alistaria numa cruzada contra a homeopatia, mas pelo menos alguns de seus críticos têm senso de humor.)

Antes, porém, reproduzo os parágrafos iniciais da reportagem e peço ao leitor (se for assinante do UOL ou da Folha) que, antes de julgá-la, leia de ponta a ponta e julgue se foi assim tão preconceituosa quanto afirmam seus detratores.


A DOUTRINA MÉDICA da homeopatia defende, como sugerem as raízes gregas do nome, que a semelhança ("homeo") entre efeitos ("pathos") de uma doença e os de uma droga bastam para elegê-la como medicamento. Se ingerir chumbo paralisa os músculos e pode levar à morte, também poderia ser um tratamento de paralisias similares. Tido como uma lei da natureza há mais de 200 anos, o princípio se encontra sob fogo cerrado da medicina convencional.

A diferença entre veneno e remédio, para homeopatas, está na dose. Em quantidades mínimas, não só o efeito desaparece como troca de sinal, por assim dizer: diluída, a substância se tornaria capaz de despertar uma ação regeneradora do organismo. Quanto maior a diluição, mais potente seria o medicamento homeopático.

DEBATE APAIXONADO O princípio da semelhança já é difícil de aceitar para a ciência experimental, núcleo da medicina baseada em evidências, que almeja proscrever a homeopatia. Somado ao da diluição radical, que resulta em remédios compostos só de água, configura-se como charlatanismo aos olhos do pesquisador tradicional. No Reino Unido, o debate apaixonado chegou a ponto de questionar se o governo deve continuar pagando tratamentos e pesquisas sem base científica.

Rubens Dolce Filho, presidente da Associação Paulista de Homeopatia e professor na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), exerce tanto a alopatia como a homeopatia e não vê incompatibilidade. "Se a homeopatia fosse uma porcaria, já teria acabado 200 anos atrás. Eu não sou louco." Para ele, a homeopatia tem suas limitações, mas não é uma fraude.

"A homeopatia está entre os piores exemplos de medicina baseada na fé", contestam Michael Baum e Edzard Ernst na edição de novembro do periódico "The American Journal of Medicine". Médico e pesquisador alemão, Ernst trabalhou com homeopatia em Viena; hoje professor de medicina complementar na Universidade de Exeter e Plymouth (Reino Unido), tornou-se um de seus mais ácidos críticos.

"Esses axiomas não estão só em desalinho com fatos científicos, mas também em direta oposição a eles", diz o artigo. "Devemos manter a mente aberta para astrologia, motos-perpétuos, alquimia, abdução por aliens e visões de Elvis Presley? Não, e temos a satisfação de admitir que nossas mentes se fecharam para a homeopatia da mesma maneira."


De: hyltonluz
Enviada em: segunda-feira, 30 de agosto de 2010 15:18
Para: leitor@uol.com.br
Assunto:

Prezados Editores,

Lamentamos que este jornal venha se pautando pelo posicionamento tedencioso na produção das matérias acerca da Homeopatia. Na matéria rescém publicada, mesmo que não houvesse o explícito sarcasmo ao redigir afirmativas e recorrente dubiedade pejorativa, falseia os fatos ao afirmar que o governo inglês estuda retirar o acesso à Homeopatia, quando em 26/07  corrente, foi publicada uma nota oficial do Serviço Nacional de Saúde, afirmando exatamente que a Homeopatia é reconhecida pelo governo inglês.

Esta maneira facciosa de comportar-se com respeito a homeopatia declara a inexistência do compromisso com a isenção e com a busca dos fatos, elementos que maculam a imagem histórica deste jornal e a noção de respeito aos seus leitores.

Hylton Sarcinelli Luz
Médico Homeopata
CREMERJ 52-31232-4
Homeopatia Direito de Todos
    Ação Pelo Semelhante
    www.semelhante.org.br
    www.ecomedicina.com.br


De: Ruy Madsen
Enviada em: domingo, 29 de agosto de 2010 11:39
Para: leitor@uol.com.br
Assunto: Homeopatia

O artigo "A medicina das paixões" sobre a Homeopatia (Ilustríssima) vem confirmar a máxima de Nietzsche: Reduzir o desconhecido a algo conhecido tranquiliza e dá sentimento de poder. Para uma ciência reducionista o caráter "improvável" da Homeopatia é altamente perigoso, então qualquer explicação se torna preferível à falta de explicação. O texto ironiza, divaga e, ao invés de encarar a "esfínge" e traduzi-la para o leitor, esforça-se para reduzir o "implausível" ao efeito da boa relação homeopata-paciente. Assim, o artigo apenas mantém a tradição da falta de originalidade das críticas à Homeopatia.
 
Ruy Madsen - médico
Campinas - SP
RG 34921634-4
PS: tenho 29 anos de idade, me formei em medicina e me especializei em Pediatria e em Homeopatia, tenho visto crianças serem curadas de doenças crônicas após  2 gotas do medicamento homeopático único e individualizado segundo a episteme da homeopatia clássica (não cabe aqui apenas a explicação simplista do efeito 'rapport'); isso sem falar da homeopatia veterinária.


Carta publicada hoje no Painel do Leitor da Folha, com resposta:

Após a publicação do artigo "Homeopatia e preconceito" ("Tendências/Debates", 27/7), fui procurado pelo jornalista Marcelo Leite, que se disse interessado em "esclarecer o público" sobre as evidências científicas citadas no texto. Após três horas de conversa, em que procurei esclarecê-lo sobre os aspectos peculiares do modelo homeopático em conformidade com dezenas de publicações científicas, imaginei que a "informação transmitida" poderia dissolver seus "apaixonados preconceitos". Ledo engano! Na elaboração da reportagem publicada no caderno Ilustríssima de domingo ("A medicina das paixões", 29/8), Marcelo Leite despreza a "extensa bibliografia" abordada em nosso encontro, rebatendo as críticas da falta de evidências da homeopatia com meros posicionamentos filosóficos, transmitindo uma falsa impressão de imparcialidade. Cito como exemplo a meta-análise do "Lancet" de 2005, principal referência do relatório do Parlamento britânico, e que assumiu posição de destaque na reportagem contra a eficácia da homeopatia, apesar de termos discutido exaustivamente os erros sistemáticos dessa análise, que desrespeitou a "individualização do tratamento homeopático", premissa indispensável à eficácia da homeopatia. Paixão por paixão, venceu a dele!
MARCUS ZULIAN TEIXEIRA , médico homeopata (São Paulo, SP)

RESPOSTA DO JORNALISTA MARCELO LEITE - A reportagem contém dois parágrafos sobre as críticas metodológicas à meta-análise de 2005, logo após os dois que a descrevem, e cita o próprio doutor Teixeira como fonte ao afirmar que a individualização não é respeitada em testes convencionais de medicamentos que têm por alvo um tratamento único.

Escrito por Marcelo Leite às 10h13

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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