Harvard afasta Hauser, famoso por investigar origem da moral

Exemplar de Macaca nigra fotografado por

Jill Greenberg (Reprodução)

A notícia acabrunhante foi dada ontem pela repórter Carolyn Johnson no jornal Boston Globe: Marc Hauser, expoente da psicologia evolucionista que se dedica a investigar comportamentos morais inatos em primatas e humanos, afastou-se de sua universidade, Harvard, após investigação por má conduta.

Impossível não se lembrar da história do escorpião e do sapo.

Grosso modo, esse gênero de explicação entende que a maldade fincou suas raízes no humano por força da evolução por seleção natural (logro e violência teriam valor adaptativo). Os mais entusiasmados com a teoria exoneradora podem enxergar na desgraça de Hauser uma confirmação constrangedora, mas de todo modo confirmação, do poder avassalador das inclinações "gravadas" no cérebro de todos nós pelo ferro em brasa da hereditariedade.

Quem mantém o ceticismo diante das pretensões absolutistas da psicologia evolutiva (e de toda a matriz de pensamento sociobiológico dos anos 1970) verá a notícia com outros olhos. E lamentará.

Afinal, adeptos da noção de que a mentira e a falsidade nos são impostas por um mecanismo deveriam encontrar-se mais imunes a elas. Má conduta científica, neste caso, reforça a hipótese de que o raciocínio evo-psi tem um fundo ideológico e de que alguns de seus militantes não conseguem livrar-se do viés comprobatório quando analisam os dados observacionais (se é que não os fabricam).

A má nova sobre Hauser amplifica a decepção por ser o professor de Harvard um dos psicólogos evolucionistas mais sofisticados, preocupado em corroborar as explicações inventivas da disciplina com dados, experimentos e observações. Mais ainda, por ser autor de livros muito comentados, como Moral Minds (Mentes Morais), de grande repercussão entre jornalistas de ciência, por exemplo.

Só no arquivo da Folha de S.Paulo encontram-se 22 referências a Hauser, a mais antiga de 1994. Até o grande José Reis chegou a escrever (aqui, para assinantes) sobre suas pesquisas. Este blogueiro também citou o homem (aqui, idem), ainda que para adicionar um grão de sal às elucubrações sociobiológicas sobre a fonte da religiosidade.

Os detalhes da má conduta ainda não são bem conhecidos, relata Johnson no Globe. Sabe-se por ora só que será retirado um artigo de 2002 no periódico especializado Cognition, sobre reconhecimento de classes de objetos por macacos resos (uma precondição da linguagem em humanos, supõe-se). O mesmo poderá acontecer com trabalho mais recente, de 2007, na publicação de alto impacto Science.

Ninguém pode dar-se por satisfeito com o caso Hauser. A própria ciência e sua imagem saem prejudicadas quando se macula o registro dos dados e interpretações nos periódicos especializados e se contamina o ambiente de debate entre teorias concorrentes.

Como na fábula do sapo e do escorpião, ambos perecem quando a natureza do segundo o leva a aferroar o primeiro na travessia do rio.