Sete anos e nove meses

Esta é a última coluna "Ciência em Dia" que você vai ler impressa na Folha. O nome original já havia desaparecido numa reforma gráfica do caderno Mais. Agora é a própria coluna que se extingue, por força de uma reformulação editorial deste suplemento.

Passaram-se sete anos e nove meses desde a estreia, em 18 de agosto de 2002. Tempo suficiente para publicar cerca de 370 textos, ou mais de 1 milhão de caracteres. Nesse mesmo período, o mundo viu nascer coisa de 1 bilhão de pessoas, quase mil indivíduos para cada letra vertida.

Se houve algum momento mais propício para interromper a coluna, decerto já passou. A repetição de temas, argumentos e motivos torna-se inevitável. Para alívio do leitor, a pesquisa em ciências naturais sempre vem compensar a tendência para a mesmice com sua cornucópia de novidades.

A lamentar, talvez, resta o fechamento de um espaço que já foi ocupado pelo grande jornalista José Reis. "Ciência em Dia" surgiu três meses depois de sua morte, que interrompeu a publicação de seu lendário "Periscópio", de quem me tornei leitor antes mesmo de me tornar jornalista da Folha e seu editor.

Repórteres mais jovens de ciência podem até desdenhar de Reis, conhecendo-o ou não. Ele aparece para muitos como o símbolo embolorado de um jornalismo científico pioneiro, nascido com o movimento pela valorização da ciência dos anos 1940. "Ciência e cultura" e "Ciência para todos" eram alguns dos slogans da hora, hoje um tanto esquecidos.

Gerações mais novas tendem a rejeitar essas máximas, por ingênuas ou populistas. Jornalismo científico não é material pedagógico. Alimenta-se de notícias, não de boas intenções educativas. Seu objeto é a pesquisa viva, nunca a ciência entronizada nos livros didáticos e museus de tecnologia.

Concordo. Mas sem deixar de lembrar: José Reis nunca se afastou por completo da novidade em ciência.

Dele ouvi, por exemplo, a primeira referência à palavra "príon", moléculas infecciosas capazes de desencadear a degeneração devastadora de tecidos nervosos, como na encefalopatia espongiforme bovina. E isso muito antes de se encherem as páginas dos jornais e revistas com noticias sobre o "mal da vaca louca".

O que não se via muito no "Periscópio" de José Reis era uma postura mais cética diante da própria pesquisa em ciências naturais. Para encará-la com o mesmo olhar crítico com que o cientista perscruta o trabalho dos pares e o seu próprio. Aguçar o olho da mente para enxergar os pressupostos, as condições de contorno, as motivações e, por que não, as ideologias por trás da ciência.

Isso, infelizmente, permanecerá em falta. É mais fácil e popular apelar ao recondicionamento da velha visão da ciência natural como produtora de curiosidades e maravilhas, da bactéria ao cosmo -quando não de conselhos úteis para melhorar a vida, a forma física, a saúde, o sexo, o desempenho, a memória... Receitas tão sedutoras quanto efêmeras, como amor de praia.

"Ciência em Dia" pelejou para manter-se fiel a outro imperativo: a missão é tornar interessante o que é importante, e não tornar importante o que (só) é interessante. Sete anos e nove meses. Esgotou-se.

Algo da teimosia sobrevive, no entanto. A coluna ganha um avatar no mundo virtual, mais precisamente na Folha Online, com periodicidade e data de publicação ainda por definir. Mas sem a camisa de força dos 3.600 caracteres (contando espaços) em que esteve contida desde a última reforma.

Até lá.