Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Cotas: Alencastro contra a dupla DEM-DEM

 
 

Cotas: Alencastro contra a dupla DEM-DEM

 

Todos quantos se curvam à lógica perversa de adversários das cotas raciais, atacadas por luminares do porte intelectual de Demóstenes Torres, Ali Kamel e Demétrio Magnoli, deveriam tirar alguns minutos para ler o texto que o historiador Luiz Felipe Alencastro leu em 4 de março na audiência pública do Supremo Tribunal Federal (o texto está funcionando como um manifesto pró-cotas e já conta com mais de uma centena de assinaturas de apoio de intelectuais, informou ontem Elio Gaspari em sua coluna).

Se a leitura lhes for penosa, podem preferir assistir ao depoimento:

 

Como aperitivo, cito passagem em que Alencastro demole argumento do líder demista:


Atacando as cotas universitárias, a ADPF do DEM, traz no seu ponto 3 o seguinte título « o perigo da importação de modelos : os exemplos de Ruanda e dos Estados Estados Unidos da América » (pps. 41-43). Trata-se de uma comparação absurda no primeiro caso e inepta no segundo.
Qual o paralelo entre o Brasil e Ruanda, que alcançou a independência apenas em 1962 e viu-se envolvido, desde 1990, numa conflagração generalizada que os especialistas denominam a « primeira guerra mundial africana », implicando também o Burundi, Uganda, Angola, o Congo Kinsasha e o Zimbabuê, e que culminou, em 1994, com o genocídio de quase 1 milhão de tutsis e milhares de hutus ruandenses ?
Na comparação com os Estados Unidos, a alegação é inepta por duas razões. Primeiro, os Estados Unidos são a mais antiga democracia do mundo e servem de exemplo a instituições que consolidaram o sistema político no Brasil. Nosso federalismo, nosso STF -, vosso STF – são calcados no modelo americano. Não há nada de “perigoso” na importação de práticas americanas que possam reforçar nossa democracia. A segunda razão da inépcia reside no fato de que o movimento negro e a defesa dos direitos dos ex-escravos e afrodescendentes tem, como ficou dito acima, raízes profundas na história nacional. Desde o século XIX, magistrados e advogados brancos e negros tem tido um papel fundamental nesta reinvidicações.


Para comparação de nível, sugiro que (re)leiam o artigo de hoje na Folha da dupla DEM-DEM, Demóstenes e Demétrio (a autoria é do primeiro, mas os argumentos são do segundo). Aviso que o expediente de parodiar as enigmáticas mensagens de e-mail de Elio Gaspari não é a única ideia infeliz do texto.

Escrito por Marcelo Leite às 15h15

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O canto do japiim

 
 

O canto do japiim

O fascínio com o japiim (Cacicus cela) surgiu à primeira vista. Não a visão do pássaro propriamente dito, de plumagem negra e amarela e canto potente, e sim de seu ninho em forma de saco, obra-prima de arquitetura e tecelagem.

Foi na Amazônia, durante um passeio de canoa num lago de igapó (floresta inundada) pegado ao rio Negro, não muito longe de Manaus. As casas pendiam da árvore carregada, como frutos de fibra pura e prenhe. Da boca superior de um deles emergiu a ave, que se pôs a gritar. (...)

Um belo ensaio de 1997 da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, incluído no livro "Cultura com Aspas" e intitulado "Xamanismo e Tradução", informa que o "tsirotsi" (para os achanincas) ou "txana" (para os caxinauás) é também um poderoso xamã.

Sua habilidade linguística torna esses pássaros aptos a transitar entre os planos incomunicáveis do mundo indígena. Mais ou menos como fazem os curadores para conjurar malefícios que alcançam a "gente verdadeira", seres humanos.

Japiins e xamãs, para Carneiro da Cunha, se equiparam a tradutores. Apesar da impossibilidade de equivalência entre os códigos, enfrentam as armadilhas da travessia e apostam na possibilidade de alguma harmonia: "a tentativa, sempre voltada ao fracasso, em qualquer escala que se a considere -e no entanto sempre recomeçada-, de construir sentido". (...)

Não menos desnorteante se mostra o enfraquecimento das humanidades (as "ciências humanas") diante da marcha imperialista das ciências naturais, biologia na vanguarda. Estas produzem um dilúvio de artigos, estatísticas e descrições moleculares que faz pouco ou nenhum sentido para a maioria das pessoas. São fragmentos impotentes para engendrar uma cultura. (...)

Os japiins não se encontram, felizmente, sob ameaça mais séria. Sob risco de extinção está apenas a capacidade de ser atraído por seu canto.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes do jornal e do UOL).

Escrito por Marcelo Leite às 12h28

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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