Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

A Nature se explica

 
 

A Nature se explica

Parece que o episódio IPCC respingou até para o periódico científico Nature, onde saíram muitos artigos dos pesquisadores cujos usos e costumes acadêmico-bibliográficos andam sob escrutínio. Em editorial para o qual me chamou atenção o xará Marcelo Hermes-Lima, a revista argumenta contra o que chama de mitos sobre suas práticas e escolhas editoriais, basicamente o método pelo qual escolhe os artigos que publica.

Foram submetidos ao semanário britânico, no ano passado, cerca de 16.000 trabalhos científicos, dos quais provavelmente menos de mil (uns 15 por edição) terminam chegando a suas páginas. O restante ou é descartado de cara por editores especializados da equipe da revista ou tropeça na revisão por pares ("peer review"), naqueles casos em que o parecerista desqualifica o trabalho e os editores acatam seu julgamento. A Nature afirma que usou 5.400 consultores em 2009.

O primeiro mito que os editores da Nature querem derrubar é o de que ficam à cata de artigos que possam aumentar seu fator de impacto (número médio de citações obtidas por artigo nos anos subsequentes), indicador importante para atrair artigos de pesquisadores de ponta. Mas o fazem por meio de um argumento um pouco tergiversante: nem sempre os melhores artigos são aqueles de maior impacto (há dois exemplos na área de química, um artigo com mais de uma centena de citações e outro com apenas 13, mas que foi agraciado num congresso técnico).

A rigor, isso não prova nada. Supondo que exista, sim, o viés do fator de impacto na aceitação de trabalhos submetidos, o exemplo pode apenas indicar que se fez a aposta "errada" no caso das 13 citações, mas que a aposta paradoxalmente estava "certa".

Outra observação: os editores não incluíram entre os "mitos" do editorial uma acusação frequente à Nature, a de que ela privilegia não só artigos com potencial para elevar o fator de impacto, mas também aqueles com potencial para atrair a atenção de jornalistas (como os que têm a ver com sexo, obesidade, beleza etc.). A revista pode não se mostrar preocupada com isso no editorial, mas nos cardápios de artigos que distribui entre jornalistas de ciência, sob embargo, ela os convida a denunciar os casos em que, na opinião das raposas (digo, dos profissionais), um estudo foi indevidamente exagerado ("hyped") pelos editores encarregados de destacá-los para consideraação dos repórteres.

Escrito por Marcelo Leite às 15h08

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Revolução pelo Google

 
 

Revolução pelo Google

Qual a importância real da liberdade política para o desenvolvimento da pessoa, do espírito humano e do próprio capitalismo? Essa é a pergunta do século 21 e, se tiver resposta, ela virá da China.

Em 12 de janeiro, a empresa Google ameaçou abandonar a potência oriental depois que seu serviço de buscas foi alvo de vários ataques de hackers. Seria uma intimidação disfarçada do governo chinês, interessado em manter controle total sobre a internet.

Em resposta, a Google disse que queria negociar uma maneira de operar sem censura no país, ou sairia fora. (...)

Já há 380 milhões de internautas na China (umas cinco vezes mais que no Brasil). Com tais atributos, existe até gente argumentando que a democracia talvez não seja tão essencial ao desenvolvimento do capital, como pensava até aqui a nossa vã filosofia iluminista. Em tempos de hiperderivação financeira, indisciplina fiscal congênita e bolhas incontroláveis de crédito, um pouco de autoritarismo teria suas vantagens profiláticas. (...)

A censura ao Google e à internet, diante disso, parece fichinha. Talvez não seja. (...)

Como em qualquer outro lugar, o Google tornou-se na China uma ferramenta de primeira mão para buscar conhecimento. A fim de descobrir se isso também vale para pesquisadores chineses, jornalistas do periódico científico "Nature" fizeram um levantamento por e-mail sobre o mecanismo de busca e publicaram os seus resultados na quinta-feira. (...)

A consulta revelou que 80% dos que responderam usam o Google (ou seus serviços especiais, como o Google Acadêmico ou Google Scholar) como primeiro recurso para localizar artigos científicos. Outros 60% o empregam para informar-se sobre descobertas e programas de pesquisa.

Mais importante, 84% afirmaram que sua atividade científica seria "um tanto" ou "significativamente" prejudicada pela perda do Google. E 78% consideraram que haveria dano para as colaborações internacionais.

"Pesquisar sem o Google seria como viver sem eletricidade", resumiu à "Nature" Xiong Zhenqin, da Universidade Agrícola de Nanquim.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

No mais, peço desculpas aos frequentadores do blog pela raridade de posts nas últimas semanas. Motivos de força maior. Prometo torná-los mais frequentes daqui por diante.

Escrito por Marcelo Leite às 15h25

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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