Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Comendo moscas e mosquitos

 
 

Comendo moscas e mosquitos

Recebi do leitor Carlos Brisola Marcondes, da UFSC, os comentários abaixo sobre as colunas "L.I.X.O." e "Fenômeno editorial", os quais reproduzo com permissão do autor:


Apreciei muito seus artigos sobre "jeitinhos" de certos pesquisadores para engordar seus currículos. Tendo em vista que pesquisadores como eu, que trabalham em taxonomia, portanto publicando artigos de baixo impacto, são muito prejudicados pela atual mania deste tal impacto (quando ouço esta palavra, fico irritado e me lembro de Goering, quando disse: "Quando ouço falar de cultura, ponho a mão no revólver"), sugiro que analise impacto e meia vida de artigos. Por exemplo, qual é o impacto de uma revisão de mosquitos de 1942 e um livro de 1953 que utilizo para identificar meus mosquitos? E a meia vida? Por que, após 1956 somente uma espécie nova de um gênero de mosquitos (Phoniomyia) foi descrita desde 1956, e eu já encontrei 15 espécies deste gênero (das 23 conhecidas) em Florianópolis? O que pouca gente estuda é sem importância? Ou há modas de pesquisa? É cansativo publicar 5-6 artigos por ano, orientar vários alunos de graduação e de pós e receber sempre a resposta aos pedidos de verba: "infelizmente, seu projeto não atingiu o nível...", fora idiotices (do CNPq!) do tipo:"se seu projeto pretende coletar em Florianópolis, para que pediu passagens aéreas para São Paulo?".

Escrito por Marcelo Leite às 09h42

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Fenômeno editorial

 
 

Fenômeno editorial

Reprodução

(...) A coluna da semana passada, "L.I.X.O.", sobre a portentosa produtividade do egípcio Mohamed El Naschie, teve trechos reproduzidos no blog Ciência em Dia. Apenas o suficiente para dar uma ideia da controvérsia sobre centenas de artigos e milhares de citações do pesquisador, boa parte no periódico de matemática aplicada editado por ele mesmo, "Chaos, Solitons and Fractals" (CSF).

E não é que houve gente saindo em sua defesa? Em lugar de ponderar as informações objetivas publicadas sobre as práticas de El Naschie, um leitor encontrou na blogosfera -e comprou por seu valor de face (zero)- uma teoria conspiratória: o egípcio seria vítima de pessoas acusadas de plagiar artigos do próprio El Naschie. (...) Importa é saber que a casa editora de "CSF", o famoso conglomerado holandês Elsevier, desembarcou El Naschie. (...)
 
A empresa não encontrou ainda um novo editor para "CSF". Suspendeu temporariamente a recepção de novos artigos para "peer review" (auditoria de qualidade por outros pesquisadores que é tradição em publicações científicas). Apesar disso, a Elsevier continua cobrando 4.204 euros -mais de R$ 10 mil- da biblioteca que assinar a revista. (...)

A Elsevier também se vangloria de promover o mecanismo de "peer review" por 125 anos. Ora, tal sistema existe justamente para garantir a qualidade e a honestidade das pesquisas publicadas. Basta um "CSF" para deixar sob suspeita todo o acervo, assim como uma laranja podre pode pôr a caixa inteira a perder.

Não é a primeira vez que a editora se vê enrolada em denúncias de falhas graves no controle de qualidade. Em maio passado, a Elsevier reconheceu em nota que sua filial australiana havia publicado nada menos que seis periódicos científicos falsos, todos com títulos começando por "Australasian Journal of...". Em realidade, eram compilações de artigos não inéditos patrocinadas pela empresa farmacêutica Merck (...).


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 21h15

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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