Berço e criação


Ninhada de camundongos (Foto: Universidade da Califórnia em Riverside)


Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".

A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". (...)
 
É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano, teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980, houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou berço). (...)

Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a expressão desse conteúdo. (...)

A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina, associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu, ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA.

É óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).