Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Mais reitoria e co-autoria

 
 

Mais reitoria e co-autoria

Sinal dos tempos: a eleição para reitor da USP pode ter de ser realizada fora do campus, porque uma espécie de piquete impediu o comparecimento dos 324 delegados votantes. Mesmo quem não morre de amores por esse colégio eleitoral dominado por docentes (nem por eleição direta com a participação igualitária de funcionários e estudantes) percebe que tem alguma coisa errada aí.

Não acho que a suspeita de plágio no qual se viu envolvida a reitora Suely Vilela (leia mais aqui) tenha alguma relação direta com isso, a não ser pela coincidência da denúncia com a aproximação do pleito - imagino que alguém tenha interesse em queimar o grupo político da reitora. De todo modo, a acusação tratada neste blog suscitou uma correspondência com leitores  bem mais interessante que a questão do plágio em si, e por isso vale a pena voltar a ela.

Um desses leitores é o físico Peter Schulz, da Unicamp. Em reação à minha primeira nota e a comentários de leitores, ele escreveu:


Esse novo caso, levanta, entre outros, um aspecto importante: responsabilidades e contribuições de autores em trabalhos com um grande número de autores. É uma questão que vem sendo tratada há um bom tempo na comunidade, por exemplo, de física de partículas com experimentos realizados em grandes aceleradores. Mais recentemente temos os grandes projetos em rede, como os dos diferentes genomas.

Outras áreas da comunidade científica ainda não têm talvez uma "prática de gestão" de equipes com 10 ou mais participantes. Essa falta de gestão chega ao cúmulo de que o orientador da principal autora não revisa a versão final do artigo e nem se dá conta de que imagens estão sendo usadas.

Mas eu gostaria mesmo de chamar a atenção a vários comentários que levantam a questão de quem deve ser co-autor em um artigo. E alguns desses comentários precisam de respostas atentas.

A orientação de estudantes de pós-graduação não é uma atividade homogênea entre as diferentes áreas acadêmicas. Pelo que consegui vislumbrar ao longo dos anos, há diferenças importantes e o conhecimento dessas diferenças deve ser premissa do debate.

Nas chamadas ciências duras, os orientadores normalmente propõem o tema, introduzem o orientando à metodologia e discutem muito de perto os passos da pesquisa. Os resultados e o artigo são escritos a quatro mãos. Isso caracteriza claramente co-autoria.

Em humamanas esse prática é muito diferente, caracterizada por uma autonomia maior do estudante, que muitas vezes propõe o próprio projeto de pesquisa. Uma possível co-autoria aqui já é menos evidente.

Em orientações no âmbito de grandes projetos de pesquisa a identidade de uma dissertação ou tese é menos evidente a alguém de fora da comunidade.

Resumindo: estabelecer pontes entre as diferentes culturas acadêmicas parece-me cada vez mais uma condição importante para uma melhor avaliação pública de problemas éticos como os levantados na atua ldiscussão.


Respondi, então: Acho um pouco complicada essa argumentação em favor da co-autoria, porque no limite ela implica que o trabalho de mestrado e doutorado em ciências humanas tenha mais valor que o de ciências ditas duras, quase escolares. Será que os praticantes destas estarão dispostos a dar esse passo?

Schulz voltou à carga:


Questão complicada. Acho que não concordo contigo, mas sinto-me inquieto e com vontade de discutir o assunto. Abaixo vai, portanto, o meu relato pessoal, pois nisso minhas ferramentas de análise são bem escassas e preciso compartilhar então experiências pessoais.

Eu comecei a carreira como físico em meados da década de 80 e segui os passos do meu orientador, que propôs um projeto de mestrado (e depois também de doutorado). Era uma época em que a pressão por papers não era nem de longe tão intensa como é hoje e, mesmo assim, a prática de orientação/co-autoria parecida com o que acontece agora. Eu não questionei o modelo na época, nem discuti com amigos das humanas.

Quando me tornei um pesquisador independente segui o mesmo modelo de atuação e a minha produção científica é praticamente toda vinculada a orientação e colaboração com ex-orientandos. Sempre senti orgulho disso e agora com o teu questionamento preciso parar para pensar um pouco.

Vejamos:

1. A física se move por modas (outras ciências também, mas vou falar só da minha experiência pessoal), e os assuntos em moda são bastante competitivos, um monte de gente trabalhando neles no mundo todo. A chance de propor um projeto com o qual você se deparará publicado por outro grupo alguns meses depois é grande. Já aconteceu comigo e com vários colegas. Tem a ver com a grande internacionalização na Física.

2. Eu tenho a impressão de que em humanas o estudante tem uma tranquilidade maior para organizar seu projeto. Um grande amigo meu propôs um projeto sobre crônicas de um determinado autor sobre futebol. Conversando com ele, percebia-se que o temor de que alguém  fizesse algo muito parecido em alguma outra parte do mundo era muito pequena. Às vezes trabalha-se com documentos originais cujo acesso chega a ser praticamente exclusivo etc...

3. Em física, mesmo quando o orientador redige um projeto de doutorado, costuma existir uma espécie de cláusula (eu sempre coloco) que diz mais ou menos assim: "dada a dinâmica da área, o projeto proposto poderá ser modificado no decorrer de sua execução". E, em geral, as modificações acontecem e são relevantes. Aí entra o exercício de independência de um bom orientando. Uma vez acostumado a uma rede de referências que se modifica rapidamente, ele tem a segurança de propor essas mudanças de rumo.

4. Na minha vida profissional (e à minha volta) eu percebo que as orientações acabam sendo processo intensos. O contato com o orientando em vários momentos ocorre várias vezes por semana e durante horas, com intensas discussões sobre o projeto em si, que empaca, não avança, e uma descoberta parece ir para o ralo (não estou dizendo que seja seminal essa descoberta, mas a idéia é gerar conhecimento original num ambiente em que se sabe que a chance de "perder a corrida" para outro é grande).

Nesse momento não importa tanto se o currículo Lattes terá um item a menos ou não, mas o envolvimento pela oportunidade de ter a propriedade intelectual sobre a explicação de um fenômeno contagia orientando e orientador. Orientando e orientador passarem juntos noites em claro terminando juntos um manuscrito para uma conferência (antes das facilidades das TIC) era bastante frequente... Bem como reuniões nos fins de semana em função do entusiasmo do orientando querendo compartilhar uma sacada ou a "grande medida" que faltava para finalizar o trabalho, e não dava para esperar a segunda-feira.

Aliás, no meu departamento orientandos e orientadores convivem muito porque todos têm sala, computador e ficam no departamento quase que por tempo integral. Tenho algumas poucas informações de que isso é bastante diferente em vários outros departamentos em ciências humanas.

5. Em física não encaramos um estudante de pós-graduação como alguém que precisa mostrar sua independência com muita precocidade, embora alguns o sejam. Ele é orientado para obter essa independência ao final do doutorado. Casos como Einstein, trabalhando isoladamente em um escritório de patentes para revolucionar o mundo, são extremamente raros. Acho que esse exemplo em particular ajuda a sustentar uma lenda que não condiz em nada com o cotidiano da prática científica em física.

6. Para se ter uma idéa dessa competição, eu busquei no "scitation" (que é um buscador acadêmico com um recorte significativo, mas bastante incompleto, de revistas especializadas) a palavra "graphene" (grafeno, o tema de duas orientações minhas): aparece em 608 artigos em 2009, até 7/11.

Olhando essa lista rapidamente, notei 3 entre os 10 primeiros diretamente relacionados com os aspectos das duas orientações.

7. Bem, eu oriento no momento 3 estudantes em conjunto com uma pós-doutoranda, que assina/assinará artigos de pesquisas em conjunto. O meu desejo íntimo, nem sempre realizado, é que o orientando acabe fazendo um trabalho sozinho, no final, quando consegue se defender das feras nessa selva. Antes disso seria uma frutração muito grande, a chance de sempre perder a corrida é muito alta.


Enfim, acho que existem diferenças culturais importantes e acho que você chama a atenção a um problema que merece uma visão de vários ângulos: afinal o que é orientar nas diferentes áreas?

Escrito por Marcelo Leite às 11h37

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Mais do mesmo - ética na academia

 
 

Mais do mesmo - ética na academia

A propósito do post abaixo, recebi as seguintes observação de outro leitor (que também pede para ficar anônimo):


1 - Primeiramente, uma correção: Marcos Fontes é da UNESP de Botucatu, atualmente vice-chefe do Departamento de Física e Biofísica do Instituto de Biociências.
 
2 - Uma frase do texto: "Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?"
R.: Não é o ideal, mas sim. A área de pesquisa de Andreimar Soares tem poucos pesquisadores formados, então acaba sendo natural que co-autores de trabalho acabem sendo membros de banca, por entenderem do assunto.

3 - Outro trecho: " É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês."
R: Andreimar Soares é pioneiro no Brasil no isolamento e estudo de toxinas de jararaca. Em função disso, muitos pesquisadores pedem ao prof. Andreimar que ceda estas toxinas, para utilizarem em seus respectivos trabalhos.
Provavelmente, a "moeda de troca" que o professor  pede é que ele seja co-autor dos artigos resultantes dos trabalhos. Daí a grande quantidade de artigos publicados.

Escrito por Marcelo Leite às 16h02

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Um outro muro

 
 

Um outro muro

Hugh Lacey é um filósofo da ciência australiano que trabalha nos EUA, mas também por aqui (na USP). Seus fãs tupiniquins aprenderam a admirá-lo por razões acadêmicas e humanas, entre elas a destreza no manejo da lógica contra a injustiça social. Se ele investir contra o muro que separa ciência de religião, pense antes de reagir. (...)

A defesa do pluralismo em ciência por Lacey (...) se encontra muito bem articulada em seu artigo "The Interplay of Scientific Activity, Worldviews and Value Outlooks" (a interação entre atividade científica, visões de mundo e perspectivas de valor), publicado em agosto de 2007 no periódico especializado "Science and Education".

Simplificando o argumento exposto em 22 páginas, Lacey deplora o sequestro da pesquisa científica atual pelo materialismo, definido como a metafísica inconfessada por trás da valorização do progresso tecnológico. Argumenta que tal valor não é inerente ao escopo da ciência. De fato não é. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 15h54

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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