Argumento esfumaçado

Vocês leram os artigos de João Pereira Coutinho ("Até tu, São Paulo?", 18/8) e de Luiz Felipe Pondé ("A volta das freiras feias sem Deus", 24/8) na Folha de S.Paulo, contra a nova lei antifumo paulista? Ambos a qualificam como fascista e sustentam que a raiz dessa inclinação totalitária está no recurso à ciência.

O primeiro afirmou, com a empáfia habitual:


Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer. O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.


O segundo empesteou de vez o ar:


O outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos. A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a "ciência" tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los? Imagine, caro leitor, se em alguns anos "a ciência descobrir" que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse "a ciência descobrir" pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder? Arrisco dizer que nossas freiras feias sem Deus proporiam campos de concentração para os fumantes. Assim garantiríamos um ar sempre puro.


Luiz Roberto Barradas Barata, médico sanitarista e secretário de Estado da Saúde de São Paulo, respondeu ao primeiro noutro artigo da Folha, "O 'mito'(?) do fumo passivo". Decerto tem mais autoridade científica que Christopher Booker, um historiador e colunista do diário inglês Sunday Telegraph e da revista Spectator que defende a pseudoteoria do design inteligente e ataca o que considera dogmas da ciência, como o aquecimento global, malefícios do amianto, do tabagismo passivo e da doença da vaca louca para seres humanos. Leia o que diz o médico:


Insistir nessa tese surrada, como no artigo "Até tu, São Paulo?", publicado nesta Folha no última dia 18 (Ilustrada), é o mesmo que desacreditar toda a comunidade médica mundial e os inúmeros trabalhos científicos que contribuíram para a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificar o tabagismo passivo como a terceira causa de morte evitável do planeta. Em 1993, a Agência de Proteção ao Meio Ambiente dos EUA publicou o primeiro estudo científico mostrando que a fumaça do cigarro no ambiente causa câncer. Encerrava-se aí a polêmica sobre os malefícios do fumo passivo. Na década de 90 do século passado, a Associação Médica Americana publicou estudo demonstrando que a incidência de câncer no pulmão era 30% maior nas mulheres que, embora nunca tivessem fumado, tinham inalado fumaça do cigarro no ambiente em que viviam. Aqui no Brasil, um estudo divulgado em 2008 pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) revelou que pelo menos sete pessoas morrem diariamente por doenças provocadas pela exposição passiva à fumaça do cigarro, como câncer de pulmão, doenças isquêmicas do coração e derrames. São inúmeras, portanto, as evidências científicas que mostram a relação entre tabagismo passivo, câncer e doenças cardiovasculares e que respaldaram, inclusive, a Convenção-Quadro para Controle do Tabaco, tratado internacional da OMS que recomenda a proibição do fumo em espaços coletivos.


Posso até discutir que haja excessos autoritários na lei antifumo, mas no restante a argumentação de Coutinho e Pondé é de doer. Quem são eles para pontificar que "ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre 'fumo passivo' e câncer", ou lançar a suspeita de que os estudos antitabagismo sejam "quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes"?

Não se trata só de uma questão de credibilidade e autoridade, claro, que não resolvem todas as questões, embora sejam guias úteis para a vida prática. Um ponto de vista minoritário pode estar correto, decerto. Mas aí é preciso partir para o mérito, ou seja, pôr as evidências sobre a mesa. É a regra do bom debate.

E que evidências Coutinho ou Pondé trouxeram para o debate? Zero. Falta-lhes até verossimilhança, como na fantasiosa fabricação de lobbies contra fumantes - quem ganharia dinheiro com isso, os fabricantes de remédios e chicletes para parar de fumar? Faz favor.

Fumei durante sete ou oito anos, dos 13 aos 20. Até hoje sonho que estou fumando, e posso garantir que é ótimo. Não suporto mais o cheiro de cigarro, em especial o de cinzeiros cheios, mas tolero as pitadas de minha empregada. Incomoda-me receber baforadas num restaurante, mas nunca pedi para um vizinho de mesa apagar o cigarro. Tenho sido o primeiro a criticar a tecnociência e suas seitas, mas acho irresponsável desqualificar de vez a noção de que os ganhos racionais possíveis na algaravia da opinião pública dependem, em última instância, de testes de objetividade (observações, medições e suas interpretações).

Leio com boa vontade, de vez em quando, os artigos dos pós-conservadores Coutinho e Pondé, que redescobriram o filão "épater le gauchiste", mas não lhes perdoo o rebaixamento do nível do debate. Quem recorre à ciência ou a ataca para apoiar seus pontos de vista está obrigado, na minha cartilha, a citar fontes e dados. Sem eles, o argumento fica um tanto esfumaçado.