Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

O alcance ruralista - 2

 
 

O alcance ruralista - 2

Recebi de Gilberto Câmara, da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) as seguintes observações sobre a coluna intitulada "O alcance ruralista" (veja nota a respeito aqui):


Com relação à comparação entre os dados de desmatamento do INPE e o relatorio "Alcance Territorial da Legislação Ambiental", feito pela EMBRAPA Monitoramento por Satélite, esclareço que:

1. Os dados do INPE foram validados pela comunidade científica. A metodologia do INPE está publicada em revista de prestígio, e dezenas de trabalhos na literatura científica usam nossos dados, inclusive papers
publicados em "Science", "Nature", e "Proceedings of the National Academy of Sciences".

2. Os mapas de desmatamento da Amazônia feitos pelo INPE estão disponíveis de forma aberta na Internet, permitindo comprovação e validação independente.

3. O relatório da EMBRAPA Monitoramento por Satélite ainda não foi validado pela comunidade científica. Os mapas associados também não estão disponíveis na Internet, o que impede sua validação pelos pares.

4. Não se pode desqualificar o relatório da EMBRAPA Monitoramento por Satélite por não ter sido revisado pelos pares. Isto seria injusto e apressado, pois a EMBRAPA é uma instituição séria. Naturalmente, é
desejável que a avaliação do relatório por pares científicos aconteça, pois se trata de tema de grande impacto nacional.

5. O INPE foi convidado a contribuir no debate sobre a legislação ambiental pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara. Estamos atualmente estudando a melhor forma de atuar, pois
queremos agregar nossa competência sem duplicar nem conflitar com o trabalho feito pela EMBRAPA.


Agradeço a manifestação do Inpe e faço votos de que seu envolvimento no debate contribua para esclarecer uma questão que, para o bem do Brasil, não pode pode ficar prisioneira de uma polarização ideologizada ("ambientalistas" X "ruralistas"), pois há base factual (dados, medidas) para fazê-la avançar.

Escrito por Marcelo Leite às 18h23

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Nobel recomenda “paixão” a jovens cientistas

 
 

Nobel recomenda “paixão” a jovens cientistas

 

Foi refrescante ouvir a palestra do suíço Richard Ernst na 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau, sul da Alemanha. Depois de uma abertura bem oficial na tarde de ontem (domingo), com três ministros de Ciência/Educação (Alemanha, China e Índia) mais o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Barroso, Ernst balançou o coreto propondo na manhã de hoje (segunda) uma viagem científico-artística ao Tibete.

O encontro em Lindau se realiza desde 1951 em Lindau por iniciativa do conde Lennart Bernadotte (1909-2004), mecenas que desejava fazer algo pela reconciliação internacional após a Segunda Guerra e enxergou na ciência natural um caminho. Neste ano a reunião conta com 23 laureados e tem por tema central a mudança climática global.

“Ernst”, em alemão, quer dizer sério, austero. O Nobel de Química em 1991, por sua contribuição ao método da ressonância nuclear magnética, começou porém dizendo aos 580 jovens pesquisadores da platéia à margem do lago de Constança que sua palestra – “Paixões e Atividades além da Ciência” – se concentraria no “além”. Eles assistem a conferências abertas pela manhã e se encontram a portas fechadas com os bãbãbãs à tarde, sem a presença de jornalistas.

Bem a calhar. No dia anterior, cinco jovens selecionados para representar os outros 575 no palco, participando de uma mesa-redonda com Barroso, haviam dado um show de convencionalismo e respostas ensaiadas. Pareciam recitar respostas decoradas, como naqueles concursos de debate americanos. Só o ganês Kwaku Kyeremeh e o alemão Elias Puchner fugiram um pouco do script carreirista, mencionando coisas como penúria e burocracia.

Os jovens de 67 países participam até sexta-feira das palestras públicas e dos encontros fechados com os luminares. Sandra Zanotto, da Universidade do Estado do Amazonas, por exemplo, escolheu na tarde de hoje (cinco horas à frente do Brasil) acompanhar a conversa com Ernst, por causa de sua mensagem mais "holista". Disse que o salão estava lotado.

Milhares se candidatam e são pré-selecionados por instituições nacionais, como o CNPq brasileiro, e depois escolhidos por um comitê. Há sete doutorandos e doutorados em química do Brasil na reunião – contra 168 da Alemanha, 91 dos EUA, 45 da Índia, 27 da China e dois de Gana, as cinco nacionalidades representadas no debate “estudantil”.

As palestras começaram para valer hoje (segunda). Depois de uma apresentação mais fascinante que compreensível do alemão Gerhard Ertl (Nobel de Química, 2007) sobre reações em superfícies de catalisadores, Ernst saiu do sério. Disse de cara que a “paixão” é a segunda perna da pesquisa e que ciência e arte têm como denominadores comuns a curiosidade e a criatividade.

Puxou uma longa fila de slides de laureados com um pé – ou pelo menos um hobby – na arte: Einstein e o violino, Feynman e o bongô, Djerassi e a literatura (já recomendei aqui e em minha coluna na Folha de S.Paulo seu romance “O Dilema de Cantor” e a peça de teatro “Oxigênio”). Ernst citou ainda Da Vinci, que tinha “mais pernas que uma centopéia”.

A perna em que o suíço se apóia para desentortar a andadura da pesquisa é a arte tibetana. Contou que ela o levou à história e à filosofia do budismo, às técnicas de pintura e restauração, à espectroscopia de pigmentos e ao papel de colecionador. E, por fim ao Nepal, para praticar um pouco disso tudo in loco.

Acabou se envolvendo, depois, com a iniciativa do Dalai Lama intitulada “A Ciência encontra Dharma” (nada a ver diretamente com a série de TV “Lost”, por favor), para levar o aprendizado de ciências naturais aos monges e monjas. Pediu que os jovens se candidatassem como professores e doassem dinheiro.

Sabedoria e compaixão, pelo visto, lhe fizeram muito bem. Produziu várias piadas durante a fala, em sintonia aparente com o humor sempre discernível nas entrevistas do Dalai Lama – saiu uma ontem no jornal “Welt  am Sonntag”, no qual o líder pacifista da revolta contra a China teve a pachorra de se dizer “um monge marxista”.

Ernst retomou a seriedade, ao final, para lançar um apelo compadecido aos 580 jovens: “Não se transformem em ‘nerds’ unilaterais. Não se esqueçam de suas paixões”. Foi longamente aplaudido. Será também lembrado?


O blogueiro viajou  para a Alemanha a convite da Fundação Reunião de Prêmios Nobel em Lindau.

Escrito por Marcelo Leite às 12h03

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Fusos horarios

 
 

Fusos horarios

Recebi da Associacao de Geografos Brasileiros, a proposito da coluna “Em Brasilia, 19 horas” (v. mais abaixo), a carta-manifesto abaixo (peco desculpas pela falta de acentos e cedilhas):

 

CARTA AOS SENHORES SENADORES SOBRE A ALTERAÇÃO NOS FUSOS HORÁRIOS DA REGIÃO NORTE

A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) vê com extrema preocupação a aprovação de projetos que procuram alterar os fusos horários para atenderem

aos interesses de redes de televisão diante da exigência para cumprimento da classificação indicativa do Ministério da Justiça.

Se aprovados e sancionados os PLS n. 177/08 do Senador Delcidio Amaral e/ou o PLS 468/08 do Senador Arthur Virgilio reduzirão os fusos horários

vigentes nos Estados de Amazonas, Mato Grosso e Mato Grasso do Sul e novamente o do Estado do Acre. Essas áreas passariam a obedecer ao fuso

horário de Brasília.

Se aprovados implica em dizer que os moradores das regiões Centro–Oeste e Norte do Brasil não merecem ser respeitados, tanto no que diz respeito à sua

saúde como em relação a classificação indicativa de programas televisivos. A preocupação da comunidade cientifica baseia-se nas seguintes questões:

1. O Projeto de Lei ignora que o Planeta Terra é divido em 360 meridianos, e que a cada 15 meridianos considera-se um fuso horário. Fazer com que cada

hora corresponda a 45 meridianos é desconsiderar que o Brasil é um país de dimensões continentais. Países com características semelhantes (Como os

EUA, Canadá, Rússia e Austrália) possuem inclusive um número maior de fusos horários, e este nunca foi um problema para a integração interna destas

nações, justificativa dos PLS.

2. Uma alteração desta natureza requer amplo debate com a comunidade científica, pois trará impactos significativos do ponto de vista biológico, social e

econômico que, tudo indica, foram desconsiderados pelos parlamentares que apresentam e defendem a proposta. Mudança semelhante causou sérios

prejuízos aos habitantes de Portugal, que foi obrigado a retornar ao seu fuso horário original, após tê-lo alterado em 1992 (quando de seu ingresso na União

Européia), como pode ser constatado em documentos do Observatório Astronômico de Lisboa.

A mudança que ocorreu no Acre com a aprovação da Lei (projeto de autoria do Senador Tião Viana, de nº 11.662 sancionada em 24 de abril de 2008) também

já está se fazendo sentir. As escolas são obrigadas a iniciar mais tarde o primeiro turno implicando em menor número de horas aulas, aumento do

consumo de energia, entre outras seqüelas.

3. Os Projetos de Lei revelam desconhecimento sobre o imediato aumento no consumo de energia que será ocasionado pela mudança. Estes estados da

federação, vale lembrar, não promovem o chamado ‘horário de verão’, já que estudos evidenciam que adiantar em uma hora o relógio nestas regiões não

promoveria a economia de energia, mas sim aumentaria seu consumo. Cabe também lembrar que as emissoras de televisão não alteram sua programação

nos estados onde não há horário de verão.

4. Os Projetos de Lei ignoram os prováveis impactos no metabolismo dos cidadãos e cidadãs dessas regiões, em especial nas crianças, com possíveis

resultados negativos, como a perda de rendimento nas atividades escolares, como já se observa no Acre. Com a sanção da medida, parcela substancial

destas populações terá suas primeiras atividades do dia ainda no escuro, com alterações biológicas que podem provocar sérios transtornos de saúde,

ocasionando, por exemplo, o aumento no consumo de medicamentos estimulantes e relaxantes.

Os parlamentares devem ignorar o significado de Ritmo ou ciclo circadiano que designa o período de aproximadamente um dia (24 horas) sobre o qual se

baseia todo o ciclo biológico do corpo humano de qualquer outro ser vivo, influenciado pela luz solar. O ritmo circadiano regula todos os ritmos materiais,

bem como muitos dos ritmos psicológicos do corpo humano, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília, passando pelo

crescimento e pela renovação das células, assim como a subida ou descida da temperatura.

5. Não houve um processo de debate amplo e transparente acerca da proposta, fazendo com que os únicos legítimos interessados na possível mudança, os cidadãos e cidadãs das áreas atingidas, não tenham tido a possibilidade sequer de compreender os impactos da alteração no fuso horário e, conseqüentemente, de se manifestar a respeito. Corrobora esta percepção o fato de que constava na versão original do PL que alterou o fuso horário do Acre a proposta de realização de plebiscito popular para estimular o debate nestas regiões e permitir uma decisão soberana de seus habitantes em relação à alteração permanente do fuso horário. Tal proposta, entretanto, foi suprimida na última versão do projeto.

* * *

Pelo exposto, enfatizamos a necessidade de que os PLS sejam retirados de pauta e que sejam realizados estudos aprofundados sobre os resultados que esta alteração provocará na vida das comunidades atingidas.

Trata-se de afirmar que sem pesquisas cientificas e um amplo debate público com as comunidades não é possível dimensionar o impacto da mudança, tornando, se aprovados e sancionados, os PLS de mudança de fuso horário, ato da mais profunda irresponsabilidade social, política e geográfica.

Considerando a grande importância das suas ações políticas no estado em que foste eleito comunicamos que estamos enviando esta referente Carta para a seção Local da Associação/AGB para que todos e todas possam acompanhar com Vossa Senhoria esta nossa luta.

Certos da responsabilidade de Vossa Senhoria com os cidadãos e cidadãs da Nação Brasileira, nós geógrafos e geógrafas contamos com Vossa sensibilidade política e humana.

Atenciosamente,

Alexandrina Luz Conceição

Presidente Nacional

Associação dos Geógrafos Brasileiros

Escrito por Marcelo Leite às 08h43

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O alcance ruralista

 
 

O alcance ruralista

No Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, caderno especial da Folha trouxe reportagem deste colunista sobre um estudo controverso, "Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista". Dados da Embrapa Monitoramento por Satélite afirmavam que só 29% do território nacional estariam disponíveis para a agropecuária.

A reportagem chegou a conclusão diversa da que animava o trabalho realizado sob coordenação do chefe da unidade da Embrapa, Evaristo Eduardo de Miranda, encampado pela senadora ruralista Kátia Abreu (DEM-TO) e pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes (PMDB-PR). "Sobra terra para a agropecuária no Brasil", avisava o título. E, mesmo que fossem só 29%, já daria para triplicar a safra nacional de grãos.  (...)

As objeções ao trabalho não partem só de ONGs ambientais, mas da própria Embrapa. (…) Um argumento é que o trabalho vem sofrendo seguidas modificações. Outro, que não passou pelo crivo de outros especialistas, como é praxe para estudos científicos. (…)

Miranda pondera que a publicação na internet funciona como uma consulta pública. À medida que surgem sugestões, críticas e discussões, os ajustes são feitos, diz. "O site não é uma publicação análoga a uma revista [científica]." Ele faz um paralelo com os dados de desmatamento na Amazônia produzidos periodicamente pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Estes tampouco são submetidos a periódicos científicos antes de publicados pela internet e anunciados pelo Ministério do Meio Ambiente.

O questionamento interno ao estudo da Embrapa subiu de patamar há duas semanas com a retirada dos nomes de dois coautores, Daniel de Castro Victoria e Fabio Enrique Torresan. Segundo a coluna apurou, o motivo seria discordância com modificações feitas sem consulta a todos os autores do levantamento.

Miranda confirma a exclusão, mas afirma que os resultados obtidos pelos dois pesquisadores não sofreram alteração. Diz que a iniciativa teria menos a ver com o conteúdo do estudo do que com a sucessão na chefia da unidade da Embrapa.

Do ponto de vista do público, pouco importa. Relevante é saber se o estudo realmente para de pé, e isso compete a especialistas dirimir. (…)


Leia a integra da coluna Ciencia em Dia (com desculpa por esta falta de acentos) na Folha de S.Paulo (aqui, so para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 08h17

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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