Números inúmeros

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Números circulam aos borbotões pela imprensa. São um verdadeiro fetiche.

Na semana que passou, houve de tudo. Números tranquilizadores, como os 90% de chance de cura do câncer da ministra Dilma Rousseff. Ou como os meros 3% de brasileiros que defendem ser correto permitir mais desmatamento para aumentar a produção agrícola, segundo pesquisa Datafolha contratada pela organização não governamental Amigos da Terra - Amazônia Brasileira.

Ambas as informações têm seu valor, mas não deveriam fazer ninguém dormir mais tranquilo. Dez por cento de chance de recidiva ou metástase ainda constitui um risco alto, em particular para alguém que almeja a Presidência da República.
Se isso prejudicará ou beneficiará a provável candidatura, são outros 500 -e combustível abundante para a especulação mórbida dos comentaristas de política.

Igualmente difícil de comprar pelo valor de face são as cifras de que 94% dos brasileiros preferem parar o desmatamento para evitar os custos de desastres ambientais. Outros 91% dizem querer leis mais rigorosas para dificultá-lo. E 93% declaram a intenção de votar em candidatos que se caracterizem por dificultar o desmatamento. Há alguma coisa errada nesses percentuais.

Nada contra as pesquisas de opinião. Muito menos contra o Datafolha, um instituto cuja metodologia está mais do que consagrada. Tampouco é o caso de pôr sob suspeita os Amigos da Terra, uma ONG internacional que já provou seu compromisso com a Amazônia -brasileira, como diz em seu nome.

O problema está mesmo em quem responde. Feliz ou infelizmente, todo mundo é a favor da Amazônia, do mesmo modo que é contra o câncer. Da boca para fora, porque acham que pouco ou nada podem fazer num e noutro caso. Estão errados em ambos.

Hoje se pode fazer muito contra o câncer: exames preventivos, estilo de vida saudável, quimioterapias refinadas, perfis genéticos de suscetibilidade. Persistem ainda, por certo, tumores intratáveis, mas "câncer" há muito deixou de ser uma condenação irrecorrível.

Já o panorama composto pelo voto popular se mostra mais desolador. Basta ver a qualidade da representação parlamentar da Amazônia no Congresso. Com as exceções de praxe, Datafolha ou não, esse povo só trabalha mesmo para pôr a floresta abaixo.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Peço desculpas aos leitores pelo longo silêncio deste blog. Como avisei abaixo, fiquei de 17 a 27/4 meio incomunicável no interior da Amazônia, depois tive uma volta conturbada, com toneladas de mensagens e questões pendentes. Espero normalizar tudo a partir desta semana.