Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Olhos azuis, negros e cegos

 

Olhos azuis, negros e cegos

 

Nesta semana voltou à tona o debate sobre quotas raciais, ora na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado. Pela enésima vez brandiu-se o argumento "científico" de que a discriminação no Brasil é social, e não racial, e de que uma discriminação positiva dividiria a nação em negros e não-negros, fomentando um ódio que aqui nunca teria existido.

Quanto há de objetividade nessas afirmações? E quanto de ideologia? (...)

O projeto de lei que pode ser aprovado com a reserva de 50% das vagas em universidades públicas para alunos de escolas idem, e não para minorias raciais, compra assim o argumento antirracialista por seu valor de face. Aí é que o debate deixa de ser inteiramente objetivo, como será assinalado a seguir com base num contraexemplo.

Já se pratica no país outro tipo de discriminação positiva, a favor dos portadores de deficiência física, sem que se observe contra ela o zelo, a estridência e até a virulência da reação contra as quotas. Pela lei 8.213, em vigor há quase 18 anos, 2% a 5% dos postos de trabalho em empresas com mais de cem funcionários ficam reservados para esses desfavorecidos.

A lógica compensatória por trás da provisão legal é a mesma. Identifica-se um grupo social que, por suas características físicas, enfrenta dificuldades para se educar e se empregar. Admitida a discriminação contra essas pessoas, adota-se a regra de contratação compulsória que a reverte na prática -só em parte, porque no Brasil 14,5% portam alguma deficiência.

Metade da população com mais de dez anos encontrava-se ocupada no censo de 2000, quando o IBGE levantou também a quantidade de portadores de deficiência. Mas tinham trabalho só 40,8% dos que têm dificuldade para enxergar ou são cegos, 34% dos que têm deficiência auditiva ou são surdos e 24,1% dos portadores de incapacidade física ou motora.

Antes que me acusem de desalmado ou racista, esclareço: não defendo nem as quotas para negros, por suas dificuldades insolúveis, nem o fim das quotas para portadores de deficiência. Aponto, tão-somente, o uso de dois pesos e duas medidas, e a obrigação moral de reequilibrar a balança. O Brasil encara de frente o drama dos portadores de deficiência, mas não quer enxergar o dos negros.

E, já que se trata de objetividade e de ciência, fique aqui o testemunho de Charles Darwin sobre brasileiros brancos civilizados, como o proprietário e anfitrião da Fazenda Socêgo, incapazes de repulsa diante dos sofrimentos impostos aos negros: "Pode-se dizer que não há limites para a cegueira do interesse e do hábito egoísta".


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

P.S.: Recebi por e-mail de Sérgio Abranches o comentário abaixo, que reproduzo com sua autorização:
Muito bom argumento Marcelo. Estou de inteiro acordo. Se a gente compara os dados sócio-econômicos do PNAD, todos, por pardos, pretos e  brancos, fica patente que estatisticamente, pardos e negros pertencem  ao mesmo grupo e diferem muito significativamente do bloco dos  brancos. Na verdade, há uma correlação muito alta entre o perfil sócio-econômico e a cor, seja trabalhando com as três categorias, seja  trabalhando com negros (pardos e pretos) e brancos. É difícil imaginar  que o atributo sócio-econômico seja causador da cor. Logo, a cor causa  do atributo sócio-econômico. Mas o seu ponto de que não discutimos a  compensação ou discriminação positiva de outras categorias, mas se  fica em pé de guerra quando se trata dos negros, é muito bem achado.
Abraço
Sérgio Abranches
 

Escrito por Marcelo Leite às 13h12

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Ciência em Dia e na CBN

 
 

Ciência em Dia e na CBN

Ontem dei uma rápida entrevista a Tânia Morales, da Rádio CBN, no quadro "Blogueiros". Falamos de coisas como crítica de ciência, o caráter mundial da pesquisa, conflitos entre religião e cientistas e meu livro Folha Explica Darwin, que será lançado na segunda da semana que vem (13/4), às 18h30, com uma palestra sobre "Darwin, o Brasil e a Teoria da Evolução" na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho, em São Paulo.

Ouça a entrevista.

 

Escrito por Marcelo Leite às 12h53

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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