Por um Proantar civil

Acampamento da Expedição Deserto de Cristal em Patriot (Foto: Marcelo Leite)

Termina neste mês o Ano Polar Internacional 2007-2008, um esforço mundial de pesquisa nos extremos da Terra -Ártico e Antártida- que reúne mais de 10 mil cientistas de 64 países. Entre eles o Brasil, que faz estudos na Antártida desde 1982. O país deu um salto com o Ano Polar, multiplicando por dez as verbas anuais para pesquisas na região.

A ciência antártica nacional deu também neste verão um salto menos metafórico ao penetrar no interior do continente. Um dos principais projetos brasileiros no Ano Polar foi a Expedição Deserto de Cristal, primeira missão científica autônoma no manto de gelo que cobre o continente austral. (...)

É um bom momento para mudar tudo. O Programa Antártico Brasileiro (Proantar) deveria sair da alçada da Marinha. A pesquisa precisa deixar de ser apenas pretexto e passar a ocupar o centro das atividades do país nas vizinhanças do polo Sul. (...)

Os 27 anos do Proantar foram em certa medida bem-sucedidos. O país tem hoje uma estação ampla, ainda que na extrema periferia antártica (mais perto da América do Sul do que do polo Sul) e subutilizada para estudos. Em breve terá dois navios polares -nenhum deles quebra-gelo e com quantidade reduzida de laboratórios.

O setor de pesquisa do Proantar já tem subordinação civil. Ela se encontra hoje na alçada do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). São frequentes os conflitos entre prioridades científicas e militares, no entanto. (...)

O interesse de pesquisar na Antártida, no momento, é elucidar fenômenos meteorológicos e climáticos. Eles interessam ao planeta como um todo, na perspectiva do aquecimento global, e ao Brasil em particular, pois de lá partem nossas frentes frias.

Isso é tarefa de cientistas, não de militares. O Brasil deve seguir o exemplo de potências antárticas como Estados Unidos e Reino Unido e tornar seu programa inteiramente civil -o que não exclui recorrer à experiência da corporação militar, como faz o Instituto Antártico Chileno, se e quando ela for necessária.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Pós-escrito: Alguns leitores enxergaram contradição entre o que defendi e o texto do glaciologista Jefferson Cardia Simões, publicado na mesma página do caderno Mais (aqui, só para assinantes). Simões escreveu:

MITO: O Programa Antártico Brasileiro (Proantar) é um programa da Marinha.
FATO: O Proantar é um programa nacional, gerenciado pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar. A Marinha é responsável pela logística; as universidades e institutos, pelas pesquisas.

Foi por isso que escrevi, no último parágrafo, que o Proantar deveria ser INTEIRAMENTE civil. Deixar toda a logística na mão da Marinha lhe dá na prática um poder de decisão sobre os rumos do programa que com alguma frequência têm conflitado com os objetivo científicos - que deveriam predominar.