Erros e furos de Darwin

Os criacionistas vão adorar a capa acima reproduzida. Mas só porque eles são propensos a distorcer tudo e a enxergar qualquer debate sobre evolução por seleção natural como erros e furos definitivos de Darwin e confirmações cabais de que Deus ou um designer oculto criou a vida.

Fato é que a revista New Scientist está dando duas contribuições involuntárias para alimentar essa mistificação, com essa matéria de capa da semana passada e com um painel de opiniões sobre os maiores "furos" (gaps) na teoria da evolução - ambas matérias excelentes, que dão o que pensar.

A matéria da semana passada, assinada por Graham Lawton, apresenta um debate contemporâneo sobre um item central da contribuição de Charles Darwin - cujo nascimento completará 200 anos no próximo dia 12 - para a biologia, a noção de árvore da vida.

O título da matéria, apenas sugerido na capa, é "Por que Darwin estava errado sobre a árvore da vida". Ou seja: por deduzir e representar  graficamente que toda a evolução se dá por diversificação progressiva tendo como mecanismo básico a especiação. O seu clássico desenho na famosa caderneta indica com o número 1 que a noção implica a existência de um ancestral comum para todos os seres vivos, outra idéia poderosa.

Pois bem. Desde a publicação de Origem das Espécies, 150 anos atrás, essa representação cristalina embaralhou-se. Os galhos e ramificações da árvore não são inteiramente segregados, num processo de descendência arrumadinho, que passa genes de uma geração para outra, assim como mutações associadas com adaptações felizes, de modo mendeliano e ordeiro.

No enorme universo das bactérias e arqueobactérias, as formas dominantes de vida, há uma promiscuidade genética total. Esses micro-organismos trocam material genético o tempo todo. É o que se chama de transferência horizontal de genes, algo difícil de conciliar com o conceito de espécies discretas, platônicas e imiscuíveis.

No outro grande ramo da árvore da vida - o dos eucariotos, todo o restante, de protozoários a plantas e mamíferos, inclusive nós - a confusão é garantida pela endossimbiose. Quer dizer: fusões de micro-organismos ocorridas num passado longínquo, como os que se tornaram mitocôndrias e cloroplastos. Também há promiscuidade garantida por mais transferência horizontal de genes e assimilação de genes virais por genomas, como ocorre com o nosso e muitos outros.

Tudo isso posto, ainda acho a idéia da árvore da vida genial. Descreve bem o que se passa no plano das espécies mais desenvolvidas, aquelas com as quais temos mais familiaridade. É poderosamente expressiva e didática. Não vejo por que abandoná-la - basta complicar o que precisa ser complicado.

Leia também o editorial da revista sobre o assunto.

"Furos"

Já a edição da NS apresentada hoje, que deve entrar na página da revista amanhã, traz um painel de 14 respostas de celebridades e especialistas da biologia para a pergunta: quais são as principais lacunas remanescentes na teoria da evolução?

Richard Dawkins está lá, assim como Steven Pinker e Niles Eldredge. São respostas inteligentes, na maioria, e algumas verdadeiramente originais - mas nenhuma dará argumentos para criacionistas, não adianta se assanhar. Não vou estragar a surpresa, mas traduzo aqui minha resposta preferida, de Frans de Waal:


Por que os humanos ruborizam?  Somos os únicos primatas que fazem isso em consequência de situações embaraçosas (vergonha), ou quando somos pegos na mentira (culpa), e ficamos nos perguntando por que, afinal, precisamos de um sinal tão óbvio para comunicar esses sentimentos de auto-consciência. O rubor interefere com a manipulação inescrupulosa de outros humanos. Estiveram os primeiros humanos sujeitos a pressões seletivas para mantê-los honestos? Qual era o seu valor de sobrevivência?