Cordel anti-racismo

Quem trabalha com divulgação científica nunca pode imaginar as voltas que a informação e sua interpretação podem dar. Sergio Danilo Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, se dedica com afinco a combater a noção de raças humanas, e já reuniu formidável audiência para sua pregação - agora mais um pouco ampliada.

Adriana M. P. Silva, professora de história da Universidade Federal de Pernambuco, escreveu-lhe para contar de seu trabalho, no último fim de semana, na cidade de Belém do São Francisco, a 486 km do Recife, em pleno Sertão. Nessa cidade há uma faculdade com curso de especialização para professores da rede estadual de educação básica. Ali Silva ministra a disciplina "Afro-brasileiros: um história de conceitos e preconceitos", para a qual adotou um livro de Pena: "Humanidade sem Raças" (Publifolha, 2008).

Uma das alunas do curso, Maria da Saúde da Silva, escreveu versos de cordel a partir dos argumentos do livro. "Seria uma alegria se cada texto trabalhado fosse, de fato, 'incorporado' pelos professores da região da mesma forma que o seu foi. O senhor ficaria emocionado ouvindo, com o sotaque cantado, o cordel que vem abaixo", escreveu Silva a Pena. Leia:


Nem isto, nem aquilo

Maria da Saúde da Silva

 

Esse papo de racismo

Eu sempre ouvi falar

Da cultura ignorante

Essa idéia veio aflorar

Mas hoje eu acredito

Falo, provo e lhe digo

Que isso tem que acabar

 

Sergio Pena, grande homem

Nos trouxe a grande questão

Não existe tantas raças

Vai pra lá de seis bilhão

O racismo é social

O genoma é crucial

E revela solução

 

Não é só por aparência

Que devemos entender

Se é isto ou aquilo

Que o homem deve ser

Quem só vai pela aparência

Tá por fora da ciência

Sinto muito em lhe dizer

 

O racismo é novinho

Ele não é velho não

Vem do século XVII

Junto com a escravidão

Do povo negro africano

Que assim, durante anos

Quiseram por no porão

 

O modelo tipológico

Se tornou campo propício

Pro terrível do Apartheid

Pro nojento do nazismo

Teorias baseadas

De culturas arraigadas

Disso surge o racismo

 

O que posso ser por fora

Não determina o que há por dentro

Cor de pele, cabelo e crânio

Isso é velho pensamento

Cada ser é um indivíduo

E em seu DNA contido

Constitui um firmamento

 

Somos todas da mesma espécie

Somos todos da família

Seguindo num mesmo som

Seguindo na mesma trilha

Compreender que não há raça

Isso é a causa da desgraça

De cada um na sua ilha