Carteirinha de aculturado

Leio no Estadão reportagem de Mariângela Galucci sobre possível interferência do Supremo nos critérios da Funai. Leia também:

"Os 11 ministros vão discutir se índios comprovadamente aculturados precisam de reservas para caçar e praticar a agricultura como se fossem tribos nômades. Podem emergir do julgamento, portanto, novos conceitos jurídicos e sociais para a demarcação de reservas indígenas."

Sei. Quer dizer que os ministros vão incorporar um antropólogo rápido e fixar critérios para definir quem é aculturado e quem não é. Já adianto que serão reprovados como chutadores por qualquer antropólogo digno do nome, se insistirem nessa linha. Essa fronteira que aparentemente pretendem demarcar (ops) simplesmente não existe.

Índios de calção deixam de ser índios? E com facão? E de avião? E de óculos Ray-Ban? Carteira de identidade e título de eleitor pode? Cocar de quantas penas? E cocar de plástico, serve? E se já viajou de avião? Carteira de motorista? Alfabetizado - em que língua?

Os muitos antimulticulturalistas que redescobriram a inexistência das raças depois de cinco séculos de racismo nacional, cordial ou não, se levantaram contra os comitês para definir quem era negro e quem não era. Reagiram com indignação à possibilidade de que registros oficiais do Estado nacional classificassem pessoas como desta ou daquela raça. Os menos reacionários pelo menos admitem a autodeclaração.

Será que se revoltarão também com a concessão de carteirinhas de aculturados e índios autênticos, destinadas a retirar direitos constitucionais e não a reconhecê-los?