Favor de impacto

Esta coluna trata do que os pesquisadores chamam de "fator de impacto" e... não, não há erro de digitação no título. Como de hábito neste país, e como será argumentado aqui, os brasileiros também dependem de favores especiais para subir na vida dos laboratórios.

A receita do sucesso parece ser pegar uma carona com pesquisadores de países ricos. É o que sugere um levantamento de Rogerio Meneghini, Abel Packer e Lilian Nassi-Calò, da Bireme, respeitado centro de estudos da Organização Pan-Americana de Saúde em São Paulo. O estudo será publicado em breve no periódico "PLoS One".

Antes, uma explicação. Fator de impacto é uma medida usual da repercussão alcançada por periódicos científicos. Parte do princípio de que um bom estudo, ao ser publicado na forma de artigo, receberá mais citações em trabalhos de outros autores do que um mau estudo.

O periódico que tiver mais e melhores artigos, por extensão, gerará a maior quantidade de citações. Obtém-se o fator de impacto de uma publicação dividindo o total de citações surgidas num período pelo número de artigos editados no período anterior. (...)

Meneghini, Packer e Nassi-Calò tomaram por base um acervo de 1.244 textos publicados em 2004 e 2005 com autores de quatro países latino-americanos (Argentina, Brasil, Chile e México) em sete periódicos internacionais de prestígio. E, claro, as citações que receberam no ano subseqüente (2006).

Para comparação, montaram outro banco de dados sobre mais de 44 mil trabalhos com autores de cinco países ricos (Alemanha, Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido). Em seguida, separam ambas as amostras em dois subconjuntos menores: um com artigos assinados por autores de um mesmo país, sem colaboração internacional, e outro com. (...)

No caso latino-americano, a desvantagem é enorme. Artigos sem apoio de colegas desenvolvidos têm fatores de impacto 34% menores que a média. Com colaboração internacional, se aproximam do usual na publicação.

Resta estabelecer se os trabalhos de latino-americanos são menos citados só porque são ruins, o menos provável, ou se os pesquisadores de países ricos é que não se dão ao trabalho de lê-los. Muitos latino-americanos já concluíram, bingo, que o caminho das pedras exige o favor de um co-autor bacana.


Peço desculpas pelo atraso em publicar este trailer da coluna, que normalmente vai ao ar no próprio domingo. Estava viajando.

Leia a coluna Ciência em Dia na íntegra na página da Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).