140 mil anos de solidão

 

A escrava Anastacia (Foto: Reprodução/"Negras imagens"/Edusp)

Chegou à praça um livrinho precioso, "Humanidade Sem Raças?" (Publifolha, 69 págs. R$ 12,90), do geneticista Sérgio D.J. Pena. Aviso logo que tive alguma participação no contato entre autor e editor, minúscula. Não desaconselha o elogio, que vem aqui acompanhado de uma apreciação crítica. (...)

O cerne do argumento está na constatação, lançada pelo americano Richard Lewontin, de que há mais diversidade genética no interior de populações humanas geograficamente delimitadas, como os africanos, do que na comparação entre populações. (...)

Raças não constituem, portanto, os tipos homogêneos que inspiravam as teorias racistas "científicas" dos séculos 19 e 20. Mesmo a substituição de "raça" por "população", na segunda metade do século passado, foi incapaz de desconstruir o suposto apoio científico para a contínua discriminação entre seres humanos.

Pena sugere uma saída radical: substituir a idéia de raça pela de indivíduos únicos, no sentido pleno da expressão latina "sui generis". Seria a única posição compatível com as constatações da moderna ciência genômica -a humanidade sem raças mencionada no título. "Uma grande família."

A ciência natural pode e deve contribuir para problematizar as noções correntes, forçando sua revisão e adaptação. Mas ela não consegue por si só desfazer, com os fatos iluminados por seu facho direcional, aquilo que viceja na selva escura das interpretações e dos valores. (...)

Imagine o leitor que a genômica venha a identificar uma correlação de certos genes com aptidões e comportamentos (in)desejáveis. E que seja possível demonstrar que eles ocorrem com freqüência maior em populações identificadas como "negras" ou "brancas". Não faltará quem conclua que esta ou aquela é "superior". (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha, aqui (se for assinante do jornal ou do UOL).