Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Einstein no Ibirapuera

Einstein no Ibirapuera

 

Foto: Reprodução

O caderno Ilustrada da Folha de hoje traz uma reportagem sobre o livro Ciência - Use com Cuidado, que será lançado a partir das 17h no Parque do Ibirapuera (exposição "Einstein", pavilhão Armando de Arruda Pereira, portão 10). Leia aqui, se for assinante do jornal ou do UOL.

Antes do lançamento, às 15h, haverá uma mesa-redonda da série "O Tempo em Dois Tempos", organizada pela revista Pesquisa Fapesp e pelo Instituto Sangari. O primeiro tema da tarde será "O Difícil Legado de Einstein", com Carlos Escobar, físico e professor da Unicamp. O outro será "Mudando o modo de ver o mundo: indivíduos e 'Zeitkontext' ou como o movimento Browniano modificou o modo de fazer ciência", com Peter Schulz, físico e professor da Unicamp.

Escrito por Marcelo Leite às 11h48

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Lição de jornalismo e de vida: Douglas Prasher e o Nobel

Lição de jornalismo e de vida: Douglas Prasher e o Nobel

 Foto: Bill Ward

Douglas Prasher, de Nobel a motorista de van

Graças a Bob Grant, editor na revista The Scientist, fiquei sabendo da melhor história envolvendo os prêmios Nobel deste ano - muito melhor, mas MUITO melhor, que o fato de Robert Gallo ter sido preterido no Nobel de Medicina. A história foi descoberta e contada por um repórter da National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos, Dan Charles.

Charles entrevistou dois dos três ganhadores do Nobel de Química (leia aqui), Roger Tsien, da Universidade da Califórnia em San Diego, e Martin Chalfie, da Universidade Columbia (o outro foi Osamu Shimomura, do Laboratório Biológico Marinho, ou MBL, de Woods Hole, descobridor da GFP que não aparece na gravação da NPR). Tsien e Chalfie desenvolveram aplicações da proteína fluorescente verde (GFP, em inglês) como marcador de células e moléculas individuais - uma ferramenta tão fundamental num laboratório de biotecnologia, hoje, quanto chaves de boca ou de fenda numa oficina mecânica.

O repórter ouviu de Tsien e Chalfie que não teriam feito seu trabalho sem a colaboração de Douglas Prasher, do mesmo MBL de Shimomura, que havia clonado o gene da GFP. "Clonar" um gene quer dizer localizar e reproduzir a seqüência específica de DNA com o conteúdo necessário para especificar uma determinada proteína, ou seja, o trecho sem o qual a célula não consegue produzir a proteína em questão.

Prasher cedeu o gene para Tsien e Chalfie, como aliás está registrado em material de contextualização preparado pela Academia Real Sueca de Ciências. O repórter da NPR começou a procurar Prasher, "atrás de um boa citação". Terminou por encontrá-lo em Huntsville, Alabama. Fazendo sabe o quê? Dirigindo uma van para clientes de uma concessionária de veículos. Isso mesmo: trabalhando como motorista. Se entender inglês, não deixe de ouvir a matéria de Charles (o link pode ser encontrado aqui). É uma lição de jornalismo.

Se me perdoarem o lugar comum, é também uma lição de vida. Prasher não se queixa dos azares ou passos errados que tenha dado na carreira. Perdeu o financiamento para pesquisa que tinha dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA, como vinha acontecendo com tantos pesquisadores nos longos oito anos do governo George W. Bush. Foi então trabalhar numa empresa, depois numa firma subcontratada pela Nasa, em Huntsville. O projeto da Nasa foi cortada, e ele, posto na rua.

Acabou na direção da van, emprego que chega a elogiar. Mas reconhece que não dá para sustentar a família direito e que todas as suas economias estão indo para o saco. Apesar de tudo, mantém o bom humor. Por meio de Charles, manda um recado para Tsien e Chalfie, que receberão uns US$ 500 mil cada um: se passarem por Huntsville, bem que poderiam lhe pagar um jantar.

Escrito por Marcelo Leite às 15h32

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Ciência - Use com cuidado

Ciência - Use com cuidado

O livro com o título acima será lançado neste sábado, às 17h, na exposição Einstein do Parque do Ibirapuera (pavilhão Armando de Arruda Pereira, antigo prédio da PRODAM, com entrada pelo portão 10). Será logo depois da mesa-redonda da série "O Tempo em Dois Tempos", organizada pela revista Pesquisa Fapesp e pelo Instituto Sangari. O debate está marcado para as 15h no auditório da exposição e será mediado por este blogueiro.

O primeiro tema da tarde será "O Difícil Legado de Einstein", com Carlos Escobar, físico e professor da Unicamp. Escobar mostrará que Einstein, além de um trabalho que guia a física ainda hoje, deixou desafios científicos enormes: a idéia de um espaço-tempo dinâmico e a idéia de que teorias podem ser formuladas por meio de argumentos de consistência interna, muitas vezes sem ser necessário que resultados experimentais sugiram caminhos específicos para sua formulação.

Outro legado de Einstein diz respeito ao papel do cientista na sociedade. "Einstein nos deixou um padrão muito elevado de compromisso social, humanismo e espírito crítico que faz com que os cientistas hoje pareçam apenas pequenas peças numa grande máquina", diz Escobar. "Quem tem a grandeza intelectual e moral para rebelar-se contra isto?"

"Mudando o modo de ver o mundo: indivíduos e 'Zeitkontext' ou como o movimento Browniano modificou o modo de fazer ciência", será o tema de Peter Schulz, físico e professor da Unicamp. Schulz contará como Albert Einstein explicou um fenômeno observado 80 anos antes - o movimento browniano -, fundamental na verificação experimental da existência dos átomos, que ainda não era aceita no início do século XX. Schulz mostrará também como o contexto de época - o "Zeitkontext" do título da palestra - atrasou o desenvolvimento científico em geral e especificamente uma atividade ligada ao estudo do movimento browniano que amadureceu 80 anos depois - a nanotecnologia.

Leia agora o prefácio do livro, de autoria do filósofo da ciência Hugh Lacey, a quem agradeço pela permissão para reproduzi-lo aqui:


Ciência — Use com cuidado reúne várias colunas curtas de jornal escritas em momentos diversos ao longo de muitos anos, cada uma delas originalmente concebida para bastar-se a si própria e oferecer o vislumbre de um tópico científi co particular e relevante. Reunidas na moldura fornecida pelos quatro capítulos deste livro e suplementadas pelos “pós-escritos”, podemos enxergá-las de maneira diversa, agora como as peças de um mosaico colorido que reproduz o complexo fenômeno social da ciência dos tempos atuais. Podemos também participar na visão generosa, humanista e democrática da ciência, em seu papel na sociedade e nas responsabilidades de um jornalista de ciência que informam todos os escritos de Marcelo Leite.

As peças individuais de Marcelo podem assumir alvos, focos e tons amplamente diversos — o que foi descoberto e o processo de descoberta; perfi s de pesquisadores signifi cativos, produtos de entrevistas com eles, relatos de conferências, reflexões históricas e interpretação de controvérsias; de modo crítico, curioso, desafi ador ou irreverente. Sua atenção para contribuições, temas e investigadores científicos brasileiros é notável.

Ele mostra um grande amor pela ciência e não se intimida com a controvérsia diante de seus resultados e aplicações. Sustenta que é responsabilidade de um jornalista de ciência tornar os resultados e processos da pesquisa inteligíveis para um público amplo, com contextualização apropriada, sem distorção nem mistificação — não para acompanhar a simples moda, não para apenas satisfazer a curiosidade, não para estimular o deslumbramento ou fazer propaganda de novos produtos científi cos, não para convencer o público de que o dinheiro do contribuinte está bem aplicado no fi nanciamento da pesquisa científica, mas porque a ciência é parte importante das políticas públicas e o público precisa estar bem informado sobre ela, de modo que possa acontecer um debate livre e aberto a respeito.

O que mais se destaca no mosaico são as exposições e interpretações das ciências biológicas, especialmente a reiterada atenção dedicada à biotecnologia e ao ambiente. Marcelo rejeita a visão de que os pesquisadores em biotecnologia sejam autoridade única na interpretação de seus resultados, ou na formação e implementação de regulamentos para inovações tecnocientífi cas. Ele desafi a interpretações genéticas deterministas e reducionistas da pesquisa em biologia molecular (ver também seu livro Promessas do genoma, Editora Unesp, e relativiza a dispensa automática, por muitos porta-vozes científi cos, dos riscos da inovação biotecnológica, assim como suas alegações de que tal inovação não deveria ser dificultada por ser essencial para o desenvolvimento econômico (ver ainda Os alimentos transgênicos, Publifolha, 2000).

Controvérsia, para ele, é uma dimensão própria e inevitável do fenômeno social da ciência, que deveria ser abordada com argumentos razoáveis, sem distorcer as evidências que estiverem ou não disponíveis. A atitude crítica que Marcelo adota diante do reducionismo e sua recusa a conferir privilégio especial a porta-vozes da ciência reducionista fazem par com sua preocupação com a sustentabilidade ambiental, a ecologia, a biodiversidade e a interação irredutível entre natureza e sociedade. Ele encara a deferência diante da ciência reducionista como barreira para
tratar de grandes problemas ambientais, como o aquecimento global, para os quais respostas adequadas certamente necessitarão fazer uso de inovação tecnológica, mas igualmente de um sentido refinado de sustentabilidade ecológica e social.


Repetidamente, sua atenção se volta para a destruição da Amazônia, para estimular a conscientização sobre todas as complexidades que estão aí envolvidas. Para ele, estas incluem não só as tensões entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental, mas também o enfrentamento dos confl itos, não raro violentos, entre povos nativos, garimpeiros e fazendeiros, das questões históricas e atuais de racismo e escravidão, da conexão entre aquela destruição e o aquecimento global — e montanhas de outros detalhes interessantes, das conseqüências das queimadas às acusações exageradas de biopirataria estrangeira.

A ciência constitui fenômeno social complexo, um objeto apropriado para o debate público, com suas dimensões culturais, com raízes na criatividade humana tanto para o pensamento quanto para a ação e com efeitos em todos os aspectos da vida humana. Ela fornece o conhecimento e a compreensão que tornam a inovação tecnocientífi ca possível, assim como investiga as condições que sustentam e solapam os sistemas ecológicos e o bem-estar social. A ciência é multidimensional, e muita coisa se perde quando ela é reduzida a uma só dimensão. Os textos curtos deste livro refletem essa visão da ciência. Eles tratam de muitos mais temas do que foi possível indicar neste prefácio — e são também uma delícia de ler.

Hugh Lacey
Swarthmore College

Escrito por Marcelo Leite às 14h27

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Proteína fluorescente ganha Nobel de "Química"

Proteína fluorescente ganha Nobel de "Química"

 

Está ficando cada vez mais claro que o Nobel de Química é a válvula de escape para a inexistência de um Nobel de Biologia, a ciência da hora. Veja a premiação deste ano: saiu para os descobridores da proteína fluorescente verde (GFP, em inglês), amplamente empregada como marcador genético em todos os campos da biociência - tão popular que acabou encampada até pela arte de vanguarda, como na coelha Alba, do artista plástico brasileiro Eduardo Kac (acima).

Os laureados são Osamu Shimomura, do lendário Laboratório Biológico Marinho (MBL) de Woods Hole e da Escola Médica da Universidade de Boston, Martin Chalfie, da Universidade Columbia, e Roger Y. Tsien, da Universidade da Califórnia em San Diego. A GFP foi encontrada por Shimomura em 1962 na medusa Aequorea victoria, que vive nas águas da Costa Oeste dos Estados Unidos.

A GFP tem a propriedade peculiar de brilhar intensamente sob luz ultravioleta (Alba, sob luz natural, é perfeitamente albina). Com ela (a GFP, não a coelha), afirma a Academia Real Sueca de Ciências, "os pesquisadores desenvolveram meios de observar processos que eram antes invisíveis, tais como o desenvolvimento de células nervosas no cérebro ou como as células de câncer se espalham".

Chalfie mostrou como usar a GFP como marcador genético, "tingindo" seis das 959 células do verme C. elegans. Tsien explicou o mecanismo da fluorescência da GFP e criou novas cores, ampliando a paleta de ferramentas marcadoras para biólogos.

A idéia central por trás da ferramenta, portanto, foi de Chalfie. Ele teve ajuda de Douglas Prasher (mais um que poderá reclamar de exclusão do Nobel) e sua estudante Ghia Euskirchen, do MBL, que conseguiram isolar o gene da GFP, ou seja, a seqüência de DNA capaz de especificar a produção da proteína pelo organismo da medusa, e implantá-lo numa bactéria E. coli, que passou a brilhar sob luz ultravioleta.

Em 1994, Chalfie mostrou que era possível fazer o mesmo com células específicas de C. elegans. Para isso, ele associou o gene da GFP com um promotor - seqüência especializada de DNA que funciona como um endereço, ou seja, indica onde a proteína do gene adjacente deve ser produzida - específico para células nervosas sensíveis a toque do verme.

Nasceu, assim, o marcador mais versátil da biologia contemporânea, usado hoje até para colorir neurônios individualmente.

Leia mais sobre a premiação aqui, em inglês. Com maior profundidade técnica, aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 07h43

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Simetrias quebradas levam Nobel de Física

Simetrias quebradas levam Nobel de Física

 

Para mim, poderia ser o Nobel de Literatura. O nome da área premiada, "simetrias quebradas", soa como poesia. Não invejo os repórteres, redatores e editores de ciência que precisarão explicar o que isso quer dizer. Mas que é bonito, é.

Os ganhadores foram os físicos japoneses Yoichiro Nambu (naturalizado americano), do Instituto Enrico Fermi da Universidade de Chicago, que fica com metade do Nobel de Física de 2008 "pela descoberta do mecanismo da quebra espontânea de simetria em física subatômica", e Makoto Kobayashi, da Organização de Pesquisa do Acelerador de Alta Energia (KEK, de Tsukuba) e Toshihide Maskawa,do Instituto Yukawa de Física Teórica (YITP), da Universidade de Kyoto, "pela descoberta da origem da simetria quebrada que prevê a existência de pelo menos três famílias de quarks na natureza".

O máximo que consigo é dar uma vaga idéia do que o trio explicou, depois de ler rapidamente o material de divulgação que a Fundação Nobel pôs na rede. Tem a ver com o fato de haver muito mais matéria do que antimatéria em nosso universo. Se fossem quantidades iguais, uma aniquilaria a outra e não estaríamos aqui para tentar entender o Nobel de Física. Foi porque a simetria se quebrou e se quebra a toda hora que o mundo é como é.

Portanto, não é pouca coisa. Tampouco é pouca coisa o quase meio século entre o estudo de Nambu (1961) e a premiação. Nem, por fim, saber que a área em questão já rendeu outros quatro Nobel: 1957, 1969, 1980 e 1999.

Escrito por Marcelo Leite às 08h08

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Nobel de Medicina vai para dois vírus: HPV e HIV

Nobel de Medicina vai para dois vírus: HPV e HIV

 

Acaba de sair o Nobel em Medicina ou Fisiologia.

Metade vai para Harald zur Hausen, do Centro Alemão de Pesquisa sobre o Câncer em Heidelberg, "por sua descoberta de que os papilomavírus humanos [HPV] causam câncer cervical [no colo do útero]".

A outra metade fica com Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur de Paris, e Luc Montagnier, idem (autalmente na Fundação Mundial de Pesquisa e Prevenção da Aids, em Paris), "por sua descoberta do vírus da imunodeficiência humana [HIV]".

O prêmio é mais que merecido. O HPV é um desses casos antológicos de sucesso da medicina. Descobre-se que uma das formas mais mortais de câncer em mulheres (a segunda) está associada com verrugas, e estas, com um tipo de vírus transmitido em relações sexuais. São 400 milhões de mulheres infectadas no mundo. Descoberto o agente (HPV), vários grupos trabalham no desenvolvimento de vacinas.

Hoje qualquer adolescente pode iniciar a vida sexual já vacinada. Isso, claro, se tiver acesso à vacina. O correto seria o sistema público de saúde fornecer para todas, no mundo inteiro, mas não faltam lugares atrasados no mundo em que os puritanos encararão a medida preventiva como um incentivo à vida sexual preoce, blablablá. Por exemplo: EUA.

E Luc Montagnier enfim levou o seu Nobel. Era um dos mais previsíveis, pois ninguém duvida que a Aids foi a doença do século XX - ou, pelo menos, do fim do século curto. São mais de 30 milhões de doentes e mais de 2 milhões de mortos por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde. Até hoje não há vacina, mas o tratamento com coquetéis de vários anti-retrovirais melhorou muito a (sobre)vida dos soropositivos.

E Robert Gallo ficou o sem Nobel, como também era de esperar. Ele chegou a ser considerado um co-descobridor do HIV, mas depois uma rumorosa investigação revelou que suas amostras, na melhor das hipóteses, haviam sido contaminadas com o vírus enviados de Paris por Montagnier. Na pior, teria havido apropriação indébita.

Leia mais sobre o Nobel em Medicina, em inglês, aqui.

Escrito por Marcelo Leite às 07h13

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Nobel para o cérebro

Nobel para o cérebro

 

Foto: Cosyne

A esta altura os 50 luminares do Instituto Karolinska, da Suécia, já escolheram o(s) agraciado(s) com o Prêmio Nobel em Medicina ou Fisiologia, que será anunciado amanhã de manhã. E você, elegeu os seus? Eu, sim: Fernando Nottebohm, Elizabeth Gould e Fred Gage. (...)

Nottebohm, há mais de duas décadas na Universidade Rockefeller (Nova York), fez longo estudo com canários que derrubou um mito da neurociência, o de que cérebros adultos não produzem novos neurônios. Hoje é consensual que a criação de novas células nervosas e suas conexões (sinapses) é parte essencial de processos de aprendizado. Nottebohm mostrou que seus pássaros perdiam e ganhavam neurônios mais ou menos na mesma proporção, a cada ano, quando aprendiam cantos novos.

É o que se chama de neurogênese, antes "proibida" em organismos adultos. Depois de Nottebohm, Elizabeth Gould viu a mesma coisa em outros animais, inclusive mamíferos. E Fred Gage, em humanos.

Minha aposta não é só uma escolha puramente subjetiva, já apresentada aqui em 22 de julho de 2007. Como acontece com toda preferência pessoal, mesmo a mais arbitrária, procuramos apoiá-la em fatos ou razões mais objetivas. Fiquei satisfeito, portanto, ao topar com o nome de Gage numa previsão que o conglomerado de informação Thomson Reuters faz todos os anos. (...)

Para Medicina em 2008, a Thomson pôs suas fichas em três assuntos e oito nomes: imunidade inata (Shizuo Akira, Bruce Beutler e Jules Hoffman); micro-RNAs (Victor Ambros e Gary Ruvkun); e meta-análises estatísticas em epidemiologia (Rory Collins e Richard Peto). Se você notou a ausência de Gage, saiba que ele estava na lista do ano passado. Para a Thomson, continua no páreo.

Além desta coluna, por ele estará torcendo Alysson Muotri, jovem pesquisador brasileiro que acaba de deixar seu grupo no Instituto Salk (EUA) para virar professor da Universidade da Califórnia em San Diego.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Agradeço a Claudio Angelo, o vigilante editor de Ciência da Folha, por avisar que Muotri estava de mudança do Salk para a UCSD.

Por falta de espaço, deixei de informar ainda que, assim como Gage acolheu Muotri e também Carol Marchetto em seu laboratório no Salk, Nottebohm fez o mesmo, na Rockefeller, com outros brasileiros que brilham na neurociência.

Sei de pelo menos dois: Claudio Mello e Sidarta Ribeiro. Mello chegou antes e foi professor de Ribeiro; depois os dois se uniram a Miguel Nicolelis na idéia de criar o Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).

Se Nottebohm tem alguma chance, tenho certeza de que os dois estarão torcendo por ele. E idem por Miguel Nicolelis, que a TV anda dando como nobelizável.

Desde 2001 ou 2002 acompanho o trabalho de Nicolelis com interfaces neurais em macacos para movimentação de membros robóticos e até robôs inteiros. É pra lá de bacana (leia uma de minhas reportagens aqui, se for assinante da Folha ou do UOL). Mas não tenho notícia de premiação para pesquisa desse gênero no Nobel de Medicina. Torçamos todos por ele - se a TV estiver numa pista boa, seria o primeiro Nobel brasileiro.

Outro que freqüenta essa lista do pensamento positivo é Constantino Tsallis, mas para o prêmio de Física. A ver. Norberto Baibich passou raspando, mas ficou de fora da láurea no ano passado, que foi para Albert Fert, em cujo laboratório trabalhou, na França, e Peter Grünberg.

Escrito por Marcelo Leite às 17h42

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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