Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Caixa-preta no CNPq? 1

Caixa-preta no CNPq? 1

Peer-review, feedback, accountability?

Pesquisador brasileiro adora jargão em inglês para dar um verniz internacional ao modo como se produz e avalia pesquisa por aqui, no país do QI (quem indica), do compadrio e do favor. Em português claro e voz baixa, mas nunca em público, fala-se quase abertamente dos, digamos, desvios de função no sistema de pareceres.

Um admirador do blog, que permanecerá anônimo por razões óbvias, chamou minha atenção para o comunicado abaixo. Foi enviado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) a pareceristas credenciados.

Chama a atenção, de fato, que seja preciso fazer a recomendação contida no penúltimo parágrafo: "Enfatizo a necessidade de incluir um parecer fundamentado explicando claramente a recomendação (positiva ou negativa)". Ora, isso não vinha sendo feito?

Eis a íntegra da mensagem (na nota abaixo, de nº 2, reproduzo os comentários adicionais do admirador anônimo):


Colegas pesquisadores,

A partir desta semana o CNPq encaminhará propostas submetidas ao Edital
Universal de 2008 para emissão de pareceres ad hoc. Quero reiterar a
importância desta etapa em todo o processo decisório. A revisão por
pares é essencial para o aperfeiçoamento da gestão de ciência e tecnologia.

Creio dispensável recomendar atenção e dedicação a essa atividade, a
mesma atenção  e dedicação que você gostaria que fosse dispensada a seus
pedidos.

Enfatizo a necessidade de incluir um parecer fundamentado explicando
claramente a recomendação (positiva ou negativa). Há uma crescente
solicitação da comunidade científica por informações sobre as razões que
fundamentam as decisões do CNPq, que somente poderá ser atendida com a
ajuda da própria comunidade que elabora os pareceres ad hoc.

Conto com a colaboração de todos.

Escrito por Marcelo Leite às 14h04

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Caixa-preta no CNPq? 2

Caixa-preta no CNPq? 2

Um admirador do blog, que permanecerá anônimo por razões óbvias, enviou-me as seguintes considerações sobre o processo de peer-review (revisão por pares) no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico):


* As principais agências de fomento brasileiro jogam no lixo, voluntária e obstinadamente, contra a intensa manifestação da comunidade científica, o principal ativo resultante do processo de avaliação de propostas de pesquisa: os relatórios (supostamente) consubstanciados dos avaliadores.

* A tal "revisão pelos pares" supostamente praticada pelas agências de fomento (refiro-me especialmente ao CNPq e à Finep), à qual se referem os últimos presidentes do CNPq, existe tanto quanto existem eleições em Cuba ("eleições").
    - Existem "pares" (é discutível, mas digamos que são pares).
    - Eles emitem pareceres recomendando, com graus variados, a aprovação ou reprovação de propostas, supostamente a partir da avaliação dessas.
    - Não há feedback apropriado e, dessa forma, jamais os proponentes tomam conhecimento pelas vias adequadas dos motivos pelos quais suas propostas foram aprovadas ou rejeitadas.
    - [Há menções a pareceres recebidos por pesquisadores, inclusive em manifestações publicadas no JC E-mail, mas eu jamais vi um parecer de avaliador do CNPq nos meus -- anos de vida, embora os tenha solicitado reiteradas vezes. O mesmo acontece com os outros proponentes que já indaguei]
    - Avaliadores incompetentes são "invisíveis" para a comunidade científica. Não há como saber se o trabalho de avaliação é feito efetivamente (temo que não - e que este seja um dos motivos do descarte perdulário e obstinado do recurso que poderia ajudar os proponentes de pesquisa a evoluírem).
    - Avaliadores que porventura abusarem do sistema são praticamente inimputáveis.
    - A falta de feedback é fermento poderoso de práticas de backscratching e outras ainda menos recomendáveis.
    - O CNPq responde sistemática-e-negativamente ao primeiro pedido de feedback. Daí em diante, faz ouvidos moucos. Não adiantam reiterados pedidos, arguição da Lei do Habeas Data...
    - O presidente anterior do CNPq manifestou-se via JC E-mail para defender a "transparência" e "a revisão pelos pares", ignorando ostensivamente a menção explícita nas críticas publicadas à falta de feedback, essa coisa misteriosa que nos países civilizados é o motor do avanço científico e a garantia de um nível razoável de transparência no processo. Anexo trechos de uma manifestação do presidente anterior do CNPq que considero especialmente chocantes (partes grifadas são adições minhas)

 JC e-mail 2363, de 12 de Setembro de 2003
"Os projetos submetidos ao Universal foram julgados por pesquisadores da categoria 1 do CNPq, merecedores do maior respeito científico e plenamente qualificados" (argumento de autoridade);

"O modelo de julgamento por pares é universalmente aceito" (verdade);

"O CNPq adota esse modelo há 50 anos" (meia-verdade; no "modelo... universalmente aceito" há feedback);

"Na década de 70 o CNPq aperfeiçoou o modelo, criando Comitês cujos membros seriam eleitos pela comunidade científica. Ou seja, os pares a serem julgados passaram a escolher os pares que os julgariam" (é um sistema provavelmente muito bom para esses "pares");

"A presente Diretoria do CNPq adota e respeita o modelo do julgamento por pares. Nesse sentido ela não participa nem interfere, de forma alguma, no julgamento de mérito dos Comitês Assessores." (talvez devesse intervir, pois é imoral, injusto, expõe o país à má-fama internacional e pode colocar o presidente do órgão em apuros com a justiça);

"A DEx-CNPq entende que a transparência absoluta é a maneira mais eficiente de permitir à comunidade que avalie e critique o processo de julgamento e o desempenho dos assessores que ela própria indicou." ("Bartender, I´ll have whatever the gentle bureaucrat is having" - o declarante só pode estar sob estupefaciente).

Escrito por Marcelo Leite às 14h03

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Nanodemocracia

Nanodemocracia

 Junção de nanotubos

Quase não se encontra um pesquisador que não seja favorável à democratização da ciência. Salvo aqueles casos patológicos de quem não acha necessário ter algo a dizer para a "dona Maria", todo mundo defende a necessidade de popularizar o conhecimento produzido pelos cientistas. Por pragmatismo ou por princípio -tanto faz.

De um ponto de vista mais ambicioso e radical, porém, trata-se de uma democratização pela metade. Descer de vez em quando da torre de marfim, ou sair do laboratório de alta biossegurança, e deitar umas tantas pérolas aos poucos que se interessam.

Mesmo entre cientistas petistas (com perdão pela rima pobre), é raro ver alguma proposta participativa. Dar voz ao público na escolha de prioridades de pesquisa? Nem pensar. (...)

No Reino Unido, o Conselho de Pesquisa em Engenharia e Ciências Físicas (EPSRC, na sigla em inglês) se mostrou sensível à questão e ampliou uma consulta para ouvir o que o público tinha a dizer. Foi uma surpresa.

Em jogo estava uma linha de pesquisa de 15 milhões de libras esterlinas (R$ 45 milhões) para fomentar estudos prospectivos de aplicações nanotecnológicas na medicina. Segundo a revista "Times Higher Education", o resultado levou o EPSRC a deixar de lado algumas das idéias iniciais.

A vítima principal da consulta foi o conceito "teranóstico" (mescla de terapia com diagnóstico). O plano era financiar pesquisas que pudessem levar a dispositivos capazes de circular pelo corpo do doente monitorando substâncias indesejáveis e, ao mesmo tempo, dosando a liberação de remédios.

No processo de consulta pública, ficou patente que as pessoas comuns não se sentiram confortáveis em ceder todo o controle a uma máquina -por menor que seja ela. Por ora, o projeto fica na gaveta.

No nano e no macro, vale o dito alemão: confiança é bom, mas controle é melhor.


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).

Escrito por Marcelo Leite às 18h01

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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