Mania de grandeza


Não é sempre que se topa com um relatório sobre o Brasil em inglês que cita nosso Hino Nacional, e ainda por cima de modo pertinente. Muito menos um texto bem escrito como "Brasil, A Economia de Conhecimento Natural", de Kirsten Bound, lançado pelo "think tank" britânico Demos.

Para quem anda deprimido com as supremas batatadas da política nacional, o documento garante overdose de otimismo. Temperado com realismo, portanto otimismo robusto. Basta erguer os olhos além do horizonte tacanho da corrupção, que domina o Brasil mas não o define, para vislumbrar um país com alguma grandeza.

Bound cita a estrofe de Joaquim Osório Duque Estrada no último parágrafo de seu estudo admiravelmente sintético sobre as relações entre natureza, economia e conhecimento (ciência, tecnologia e inovação, CT&I) no Brasil. Vem muito a calhar: "Gigante pela própria natureza / És belo, és forte, impávido colosso / E o teu futuro espelha essa grandeza".

A autora dá como favas contadas a constatação do primeiro verso. Ele é adequado tanto pela extensão territorial do país (quinto maior do mundo) quanto por abrigar 60% da maior floresta tropical do planeta, na Amazônia -além de outros cinco biomas. O problema, diz Bound, é saber se a promessa do segundo se cumprirá.

Ela avalia que as chances são boas. Mesmo deitado em berço esplêndido, o Brasil não ficou parado. Embora tenha começado a construir um sistema de CT&I digno do nome só na década de 1930, forma mais de 600 mil graduandos, mais de 30 mil mestres e 10 mil doutores por ano. É a maior potência tecnocientífica da América Latina, quiçá do hemisfério Sul.

Além disso, sua produção acadêmica se concentra nas áreas de agricultura, biologia e ciências da Terra. Tudo a ver com ganhos de produtividade nacional na utilização do capital natural. Uma condição necessária -mas não suficiente- para desviar-se da trilha de exploração predatória que sempre caracterizou seu setor primário.

Muito do otimismo do relatório decorre desse vislumbre: apesar de sua forte base natural, a economia do Brasil não está condenada a permanecer imatura e subdesenvolvida, como dita o pensamento convencional. (...)


Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).