Macumba, dengue e Voltaire no Rio: o editorial do biólogo doido

 

Graças a Marcelo Hermes-Lima, do blog Ciência Brasil, topei com um editorial inacreditável do periódico The FASEB Journal, publicado pela federação das sociedade americanas de biologia experimental. O texto, que carrega o imperdível título "Dengue fever in Rio: Macumba versus Voltaire" (aqui, em inglês), é assinado por Gerald Weissmann, editor-chefe do periódico desde outubro de 2005 - mas pode chamá-lo de biólogo doido que dá no mesmo.

Weissmann acerta no atacado (criticar o prefeito do Rio, Cesar Maia, por sua inoperância diante da epidemia de dengue no começo do ano) e erra - muito, demais - no varejo.

Aliás, erra também no atacado, porque toma um dos factóides do prefeito do DEM como uma espécie de paradigma do comportamento de brasileiros diante da doença, ainda que de permeio sobrem alguns elogios para os pesquisadores da Fiocruz.

No esqueminha mental tacanho de Weissmann, Maia seria o lado macumba, e a Fiocruz, o lado Voltaire do Brasil. Uma lógica típica de samba-enredo, mas vá lá. Só não precisava escrever tanta bobagem e carregar tanto na mão.

Começando pela macumba. Weissmann diz que Maia recorreu a ela para combater o mosquito da dengue e teve a pachorra de citar em nota de rodapé (a de número 10) como fonte o seguinte site: Esculhambação. Hum... Pelo cheiro da brilhantina, como diria Elio Gaspari, já dá para desconfiar onde a coisa iria dar.

Depois de alguma pesquisa, consegui descobrir de onde saiu a "macumba": Maia, em viagem à Bahia, disse que ia rezar ao Senhor do Bonfim para mandar o mosquito da dengue para o mar. Uma barbaridade, OK, mas não é macumba (nem candomblé, como seria antropologicamente mais correto dizer). O caso foi noticiado pela Globo News:

A certa altura, Weissmann mete a boca em Drauzio Varella, por supostamente ter sugerido na TV que "a adição de uma colherada de sopa [?!] a águas paradas mataria instantaneamente todas as larvas de mosquito presentes". A fonte referenciada em nota (18) é um artigo de Nilson Lage no site Observatório da Imprensa. De 2002.

Lage critica de fato o doutor Drauzio, mas registra corretamente que ele recomenda o uso de uma colher de sopa de... água sanitária. Exatamente o que os agentes de saúde recomendam aqui em casa, quando aparecem. E também o que se pode ler na página do médico, entre várias recomendações sensatas.

O detalhe parece ter escapado a Weissmann. No mesmo parágrafo, desanca homeopatas que querem curar dengue com suas diluições. Ou seja: Drauzio Varella, homeopatas, Cesar Maia - todos macumbeiros, assim como os "favelados supersticiosos".

Mesmo deixando de lado os erros menores, como grafar "brazilieros" e "Ipenema", chamar especialistas em insetos de "entymologist" e traduzir "auto-da-fé" como "act of faith", em meio a uma afetadíssima passagem sobre o Cândido de Voltaire, não dá para perdoar erros históricos do calibre de afirmar: "Quando a escravidão no Brasil foi abolida nos anos 1880 pela República que derrubou seu monarca..." Como qualquer criança brasileira sabe, a escravidão foi abolida ainda durante o Império (se deu certo ou não, são outros 500).

Agora, de doer, mesmo, é um dos últimos parágrafos do texto. Reúne sob um verniz antropológico benevolente e simpatizante todos os estereótipos sobre o país. Para um professor universitário, deveria bastar para demissão por justa causa. Merece tradução, para que o povo saiba como são feitos os periódicos científicos, além das salsichas e das leis da célebre frase de Otto von Bismarck:


Hoje, o Brasil pode não ser o Eldorado [de Cândido e Pangloss], mas ele de fato abriga uma sociedade tolerante, diversa e multirracial como nenhuma outra no planeta. Macumbeiros fazem suas adorações ao lado de católicos romanos. Negros e brancos, índios e ibéricos, candomblé e umbanda banham-se ao sol e fazem amor nas areias de Ipenema; eles também reproduzem aqueles fascinantes jogadores de futebol.


Saravá, Dr. Weissmann.