O racialismo elementar do Dr. Watson

E James Watson, afinal, voltou a falar.

Sete meses depois de seus comentários tidos como racistas em artigo de Charlotte Hunt-Grubbe no jornal britânico “The Sunday Times”, o co-descobridor _com Francis Crick_ da estrutura em dupla hélice da molécula de DNA deu uma entrevista. Não por acaso, a um dos mais célebres intelectuais negros dos EUA, Henry Louis “Skip” Gates, Jr., da Universidade Harvard.

A entrevista apareceu na revista online editada por Gates, “The Root” (A Raiz). Sob o título “Cor, Controvérsia e DNA”, ela vem acompanhada do artigo “A Ciência do Racismo”, do próprio Gates.

É uma conversa bem esquisita. Gates peleja para arrancar de Watson confirmação ou refutação inequívocas das frases que enterraram de vez sua reputação (Watson pediu desculpas públicas, mas ainda assim perdeu a direção do Laboratório de Cold Spring Harbor). O editor de “The Root” termina sem elas.

Uma das sentenças fatídicas, admite Watson a Gates, havia sido extraída por Hunt-Grubbe do terceiro livro de memórias de Watson que a antiga colaboradora comentava, “Avoid Boring People” (algo entre “evite chatear pessoas” e “evite pessoas chatas”). Dizia:

“Não há uma razão firme para prever que a capacidade intelectual de povos geograficamente separados em sua evolução deva mostrar-se identicamente evoluída. Nossa vontade de encarar faculdades racionais iguais como um patrimônio universal da humanidade não bastará para fazer com que seja assim.”

Watson também se disse, segundo Hunt-Grubbe, “inerentemente pessimista sobre as perspectivas da África”. E assim justificou: “Todas as nossas políticas sociais estão baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto todos os testes dizem que não é realmente assim”. Para culminar: “As pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdade”.

Se não tinha como negar a primeira frase, Watson esquiva-se de desmentir, na entrevista, as outras. Conta que conversou por oito horas com Hunt-Grubbe, mas não tem lembrança de pronunciá-las. Deixa no ar a hipótese de que tenham sido inventadas, “de tão inapropriadas”.

Em seu artigo, Gates trata Watson com benevolência. Diz que saiu convencido de que ele não é um racista empedernido, pela maneira convicta com que deplorou o uso de suas palavras por racistas de quatro costados, daqueles que acreditam na supremacia branca.

Mas o professor de Harvard define Watson pelo que ele de fato é: um racialista. O geneticista o demonstra à farta na entrevista, falando de possíveis “genes da inteligência judia” e da “dominância no basquete” dos negros.

“Ele acredita que certas características ou formas de comportamento observáveis entre grupos de seres humanos podem, de fato, ter uma base biológica no código que os cientistas podem se tornar capazes, eventualmente, de estabelecer, e que o ‘gene’ é algum espaço mítico neutro, e aquilo que alegadamente ‘mede’ ou ‘determina’ independe de fatores, variáveis e influências ambientais.”

Gates se diz constrangido com a história dos genes do basquete, mas não perde a elegância. Lembra para Watson o que o pai lhe dizia quando via as quadras cheias de jovens negros: “Se estudássemos cálculo como estudamos basquete, estaríamos dirigindo o MIT”.

Leia o restante do artigo na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).