Pinker e a estupidez da dignidade

Quem estiver incomodado com a insistência de alguns conservadores - em particular os de orientação católica - no conceito de "dignidade" ganhará alguns lampejos ao ler o texto intitulado "A Estupidez da Dignidade" (aqui, em inglês), que obviamente soa melhor com a rima na língua original (The stupidity of dignity). Foi publicado pela New Republic escrito pelo campeão midiático da psicologia evolucionista (novo nome da boa e velha sociobiologia), Steven Pinker, de quem já discordei mais. Acredite, vale a leitura.

O alvo primordial de Pinker é Leon Kass, que presidiu durante anos um comitê de bioética convocado por George W. Bush. Virou uma espécie de bastião católico (embora o presidente americano não o seja). Havia também conservadores de outro corte, como Francis Fukuyama - que não é bobo e acabou saltando fora.

Leia aqui um trecho, traduzido meio às pressas, só para atiçar a curiosidade:


Isso explica por que a dignidade é moralmente significativa: não deveríamos ignorar um fenômeno que faz uma pessoa respeitar os direitos e interesses de outra. Mas isso também explica por que a dignidade é relativa, fungível [que se consome no ato] e amiúde danosa. A dignidade é superficial: é o chiar da grelha, e não o filé grelhado; a capa, e não o livro. No final, o que interessa é o respeito pela pessoa, não os sinais perceptivos que tipicamente o desencadeiam. Com efeito, o fosso entre percepção e realidade nos torna vulneráveis a ilusões de dignidade. Podemos nos impressionar com os sinais de dignidade sem mérito subjacente, como no ditador de meia-tigela, e deixar de reconhecer o mérito numa pessoa que tenha sido destituída dos sinais de dignidade, como o miserável ou o refugiado.


Aproveito a deixa para indicar outra leitura recomendada por amigos: uma reportagem "Monkey business" da revista Wired sobre a prisão do primatologista Marc van Roosmalen em Manaus, sob a acusação de biopirata. A reportagem de Evan Ratliff talvez embarque um pouco ingenuamente na egotrip de Roosmalen, mas seu efeito sobre a paranóia antibiopirataria na Amazônia é muito mais devastador. O holandês pode ser intratável, sob muitos aspectos, além de imprudente, mas tem brasileiro muito mais perigoso que ele na Amazônia que nunca irá para a cadeia.