Biologia à cubana

Segue abaixo uma versão um pouco mais longa de minha resenha do livro Biology under the Influence. Dialectical Essays on Ecology, Agriculture, and Health, de Richard Lewontin e Richard Levins (Monthly Review Press, 400 págs., US$ 22,95). Na versão publicada da resenha, um corte malfeito deu a entender que Stephen Jay Gould também é autor dos ensaios, quando na versão original só se dizia que ele, como Lewontin e Levins, fez parte do grupo radical Science for the People.

Se você quiser ter uma idéia de quem é Richard Levins, leia aqui (em inglês) o último capítulo do livro.

Quem quiser encontrará muitas razões para não ler este livro sui-generis dos biólogos marxistas americanos Richard Lewontin e Richard Levins. Uns tropeçarão no conceito de “biólogo marxista”, que tomarão por uma contradição em termos. Outros, escaldados na dialética da natureza de Friedrich Engels, implicarão com o apego quase patético a essa gazua teórica para caracterizar uma visão sistêmica da vida e da ecologia.

Os que se arriscarem a ler, enfim, poderão ser vencidos pela irritante redundância da obra. Os autores a reconhecem, mas, impenitentes e paternalistas, ainda se julgam no direito de impingi-la. “Redundância é algo usualmente indesejável em livros, mas aqui ela é justificada”, argumentam: “A remoção da repetição poderia destruir a coerência de alguns capítulos, e, como a abordagem não é nada familiar, sua repetição em contextos diversos pode não ser fora de propósito”.

Após a leitura dos 31 capítulos, escritos ao longo de duas décadas, há que dar alguma razão ao segundo argumento. A abordagem é mesmo muito pouco convencional. Não só a abordagem – texto, estilo, exemplos, vocabulário, tudo. Ninguém decerto esperaria, num livro de biologia, dar com a seguinte dedicatória:

“Cinco cubanos estão agora cumprindo longas sentenças em prisões dos EUA porque estavam monitorando as atividades de grupos terroristas emigrados em Miami. De suas celas eles tanto têm atuado para tornar a vida na prisão mais tolerável aos outros detentos na sua comunidade imediata quanto continuam participantes integrais na vida da revolução cubana. Nós admiramos sua fortaleza e criatividade na resistência e dedicamos este livro a Antonio Guerrero, Fernando González, René González, Gerardo Hernández e Ramón Labañino, e a todas as pessoas no mundo inteiro que lutam por sua libertação”.

Se o leitor chegou até aqui, é porque tem estômago para continuar. Não se arrependerá. Lewontin não é para espíritos fracos, nunca foi. Sua longa trajetória de crítico contumaz do reducionismo e do determinismo imperantes na moderna biologia molecular já renderam clássicos de difícil digestão, no gênero de “Not in Our Genes” (Não em Nossos Genes, 1985), e coletâneas de ensaios mais palatáveis, porque menos militantemente marxistas, como “It Ain’t Necessarily So” (Não É Necessariamente Assim, 2000).

Esta nova reunião partilha com o livro de 2000 um ensaio de Lewontin, “O Sonho do Genoma Humano” (1992), crítica precoce das promessas até hoje não cumpridas de grandes panacéias que brotariam do bilionário programa de pesquisa. É um dos quatro de sua lavra no volume. Outros 15 têm Levins _ao lado de Lewontin e Stephen Jay Gould, um ex-ativista do grupo Ciência para o Povo_ como co-autor (que também assina outros oito capítulos).

A primeira parte do volume é a melhor e mais refrescante. Corresponde aos 15 capítulos em co-autoria, colunas publicadas sob o título “Eppur Si Muove” (a frase famosa de Galileu) no periódico ecossocialista “Capitalism Nature Socialism” (www.cnsjournal.org). Em textos acessíveis e repletos de exemplos, Lewontin e Levins (L&L) expõem sua visão intermediária da biologia: nem o reducionismo molecular, que consideram com muita razão “o produto específico e crescentemente mercantilizado da indústria capitalista do conhecimento”, nem o holismo mistificador, incapaz de reconhecer o valor de desvendar os detalhes de que as coisas são feitas.

No programa para a biologia que apresentam no 15º capítulo, L&L deixam claro, porém, que não se satisfazem com o plano das simples “coisas”, foco privilegiado da pesquisa subserviente aos ditames do capital. Para alcançar explicações mais cabais da natureza, a ciência precisa abranger “processos”, advogam. Pedem um renascimento da “história natural”.

No caso da biologia, isso implica a incorporação da dimensão histórica do objeto, não só por meio da evolução da espécie e do desenvolvimento do organismo, mas também da sua interpenetração dinâmica com o próprio ambiente (a noção de “construção de nicho”) e até com o universo social. Isso se mostra particularmente sensível em seus exemplos da biomedicina e da saúde pública.

Um dos que se repetem ao longo do livro é o da peste bubônica. Para a biologia tradicional, ela se resume a uma infecção pela bactéria Yersinia pestis que, reunindo condições favoráveis como roedores (reservatórios) e pulgas (vetores), pode se tornar epidêmica. É o quanto basta para um biólogo moderno iniciar seu projeto de pesquisa, pois causas simples e discretas rendem mais artigos científicos, patentes e renome.

L&L argumentam que esse escopo reduzido jamais permitiria entender por que a peste se tornou uma epidemia na Europa no século 6º e, depois, só no século 14. Roedores, pulgas e bactérias não deixaram de existir naqueles 800 anos. As razões, sustentam, devem ser buscadas nas agruras de um Império Romano em declínio, sob Justiniano, e na crise do feudalismo. Sem essa visada histórico-econômica, o conhecimento persiste incompleto, não merece o nome de ciência verdadeira.

O raciocínio vale também para fenômenos atuais. Doenças infecciosas emergentes, como a hantavirose, só podem ser inteiramente compreendidas se no radar do pesquisador estiverem também fenômenos como o desmatamento para a agricultura intensiva de grãos, que favorece a proliferação de roedores.

A pressão arterial não é uma medida abstrata, indicador fiel do estado de qualquer paciente independentemente de classe ou grupo racial. Naqueles submetidos a estresse permanente, por razões socioeconômicas, a pressão alta pode ser sintoma de doença crônica, e não de uma crise controlável por medicamentos.

A privação precoce e continuada _numa palavra, pobreza_ modula a norma das reações do organismo aos estímulos do ambiente, tornando-a muito diversa daquela de quem teve uma vida melhor, mesmo que ambos partilhem os mesmo genes. Quando se fala em medicina personalizada, porém, só os genes entram em cena.

“De maneira a enfrentar as complexidades de nossas ciências e de nosso mundo, temos de internalizar em nossa intuição a filosofia da totalidade, da conexão entre e através de todos os níveis, da dinâmica, da contradição e da auto-reflexão _que é a dialética”, pregam L&L.

O livro oferece um manancial de reflexões teóricas, exemplos e argumentos que obrigam a pensar. Se traz de permeio um tanto de jargão marxista antiquado e até de propaganda cubana, tanto melhor como antídoto: de propaganda corporativa e jargão determinista, afinal, a literatura biológica já está até as tampas.