Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Vestibular para surdos na Unicamp

Vestibular para surdos na Unicamp

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mais uma vez sai na frente. Depois de inovar na pontuação diferenciada para candidatos de escolas públicas e minorias raciais em seu vestibular (que depois se demonstraram alunos acioma da média), decidiu agora fazer um esforço para incluir também os surdos. Em junho, realizará seu primeiro vestibular para não falantes, em que as provas serão feitas na língua brasileira de sinais (libras).

Não é de hoje que tenho fascínio pelo universo cultural e lingüístico da surdez (leia aqui uma coluna que trata lateralmente do tema). Começou com o livro Vendo Vozes, de Oliver Sacks, e também ao travar conhecimento com um surdo instrutor de libras, Ricardo Nakasato (de quem escrevi um perfil para a Revista da Folha, "O Samurai dos Sinais", que não consegui localizar online). Não sei mais o que aconteceu primeiro, o livro ou Ricardo. Aliás, muito antes disso, quando ainda tinha uns 15 anos, presenciei um acontecimento paradoxal que me marcou muito, um baile em que surdos dançavam animadamente, só com base na vibração captada pelos pés.

Se você já viu dois surdos conversando em libras, sabe que não faz sentido o significado usual da expressão "conversa de surdos". O fato de não entendermos nada é que nos leva a achar que eles fazem mímica. A libras é uma língua completa, assim como a ASL (american sign language) e várias outras que existem pelo mundo, todas com sintaxe se semânticas próprias.

O exame da Unicamp não usará papel (ou melhor, só para a prova de português). Em 20 salas, até 1.200 candidatos concorrerão a 60 vagas em dois cursos de graduação a distância: licenciatura em Letras-Libras e bacharelado em tradução e interpretação Letras-Libras. Os vidros das alas serão cobertos com películas, para evitar vazamento de questões. Leia mais detalhes sobre a prova e o projeto nesta reportagem do Jornal da Unicamp.

A reportagem informa que se calculam em 5 milhões os surdos do Brasil. Gente que não se considera deficiente e encontra todo tipo de barreira para obter alguma educação, mais ainda chegar ao nível superior. São poucas as escolas que oferecem aulas adequadas para os surdos, com professores proficientes em libras ou, pelo menos, intérpretes português/libras.

Em Washington, D.C., tive outra experiência única: visitar a Universidade Gallaudet. Toda ela voltada para surdos, a universidade existe desde 1864. É emocionante percorrer seus corredores mais silenciosos que o habitual, embora os estudantes conversem animadamente. Até o mais endurecido adversário de ações afirmativas ficará tocado, acredito.

Se uma grande universidade pública, como a Unicamp, não se preocupar em abrir uma brecha para os surdos romperem esse ciclo de exclusão, quem o fará, num país como o Brasil?

Escrito por Marcelo Leite às 19h58

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Salvem os antibióticos

Salvem os antibióticos

Coluna Ciencia em Dia

Folha de S.Paulo

4 de maio de 2008

A fundação norte-americana Pew Charitable Trusts é conhecida por apostar fundo na produção de conhecimento e ferramentas de análise para resolver problemas contemporâneos e aperfeiçoar políticas públicas. Na semana passada, publicou um relatório duro da comissão que trabalhou dois anos e meio sobre o sistema industrial de produção de carne (bois, porcos e aves). É de tirar o apetite.

O estudo de 124 páginas recebeu o título de "Pondo a Carne na Mesa" e pode ser baixado da página da Pew na internet (www.pewtrusts.org). Vai direto ao ponto: "O sistema atual para produção de alimentos de origem animal nos Estados Unidos não é sustentável e representa um inaceitável nível de risco para a saúde pública e de dano ao ambiente, assim como traz malefício desnecessário aos animais que criamos para comer".

O relatório lista "n" fatores em apoio a essa conclusão. Um dos preponderantes, que acabou se tornando muito atual, é a dependência da agropecuária americana dos preços baixos do milho, base da ração usada para o animal ganhar peso em confinamento. A demanda pelo grão para produzir álcool combustível está pulverizando essa fonte barata de proteína, justamente no momento em que o preço do petróleo - de onde saem combustíveis para máquinas e matérias-primas para fertilizantes e defensivos - também bate recordes.

No quesito água, o estudo fornece uma informação preocupante: metade do aqüífero Ogallala já foi exaurida. Com mais de 450 mil quilômetros quadrados, o reservatório debaixo dos Estados de Nebraska, Kansas, Colorado, Oklahoma, Novo México e Texas fornece 20% de toda a água usada em irrigação nos EUA. Não demora em acabar, pois está baixando cerca de um metro por ano.

Chocantes, mesmo, são as conclusões na área dos efeitos sobre a saúde pública. Das 12 recomendações do capítulo, metade diz respeito ao abuso de antibióticos na agropecuária. Além de prevenir e tratar infecções nos animais, antibióticos também são empregados como aditivos na ração, para aumentar o ganho de peso.

Quanto mais se usam antibióticos, em humanos ou animais, pior se torna o problema da resistência. A maior parte das bactérias expostas a esses remédios morre. As poucas que tiverem resistência ao composto, porém, ganham uma enorme vantagem competitiva e se reproduzem rapidamente, passando a infectar os organismos sem que o antibiótico em questão possa eliminá-las. Com o tempo, surgem cepas terríveis de micróbios, que deixam os médicos sem ação.

O relatório diz que o fenômeno da resistência já se tornou "epidêmico". Propõe, por isso, uma medida radical: banir todo uso não-terapêutico de antibióticos na pecuária. Ou seja, essas drogas só poderiam ser empregadas para tratar animais com infecção ou para prevenir infecções naqueles que comprovadamente tenham sido expostos a elas. Quanto ao uso terapêutico, propõe tornar obrigatória a regra de excluir do tratamento de animais aqueles antibióticos classificados como importantes para a saúde humana.

A Suécia baniu os antibióticos não-terapêuticos em 1986. A Dinamarca, em 1998. A União Européia, em 2006. Como resultado, vem diminuindo o reservatório de genes para resistência que poderia armar os germes capazes de atacar humanos (bactérias trocam material genético a torto e a direito).

E você, já ingeriu a sua ração diária de antibióticos?

Escrito por Marcelo Leite às 09h20

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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