Marcelo Leite

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Ciência e Sociedade

Quatro anos depois, EUA inocentam 'artista e biólogo contestador'

Quatro anos depois, EUA inocentam 'artista e biólogo contestador'

 

Leio na revista The Scientist que um tribunal federal dos Estados Unidos extinguiu a ação iniciada há quatros anos em que o artista Steven Kurz era acusado de bioterrorismo. Narrei o caso numa coluna publicada em 27 de junho de 2004. Leia trechos:

 


Kurtz é ativista de um movimento de "biologia contestacional". O artista é membro de um grupo radical chamado CAE, Critical Art Ensemble, e professor da Universidade Estadual de Nova York (Suny) em Buffalo. As suspeitas levantadas por promotores contra ele começaram a ser consideradas há pouco mais de uma semana por um Grande Júri Federal - um tipo de tribunal em que cidadãos norte-americanos comuns julgam não a culpa de uma pessoa, mas se as evidências reunidas contra ela são suficientes para levá-la a julgamento. (...)

As circunstâncias em que a investigação contra Kurtz foi iniciada são surreais. (...) Tudo começou com uma ligação do artista para o número de emergência 911 no dia 11 de maio: Kurtz pedia ajuda para sua mulher, que havia morrido do coração durante o sono.

Policiais e paramédicos que foram a sua casa notaram, no entanto, a presença de materiais que consideraram suspeitos, como placas de Petri (discos de vidro usados em laboratórios de biologia) e outros utensílios de pesquisa. Avisaram o FBI, que providenciou um mandado de busca. Durante dois dias, agentes da Força-Tarefa Conjunta de Bioterrorismo em trajes de segurança isolaram o quarteirão e vasculharam a casa do artista.

Segundo o FBI de Buffalo, nenhum agente perigoso foi encontrado. Havia na casa de Kurtz amostras de bactérias, inclusive uma linhagem de Escherichia coli (um pau-para-toda-obra dos laboratórios de microbiologia). Segundo o advogado de defesa Paul Cambria, era inócua e se destinava a projetos artísticos sobre biotecnologia. Só que os investigadores decidiram dar uma olhada também nos escritos anteriores de Kurtz e de seu grupo, e aí a coisa toda se complicou.

Kurtz não está dando entrevistas, mas a The Scientist reproduz trechos de um e-mail seu que circula na internet. "Fiquei detido por 22 horas no FBI. Eles apreenderam o corpo de minha mulher, minha casa, meu gato e meu carro. Esses itens foram liberados uma semana depois", escreveu. "[Também] apreenderam computadores, equipamento científico, partes de minha biblioteca, arquivos de ensino, identidade e todo o material de pesquisa para um novo livro."


Eis aí uma boa amostra de que, mesmo em democracias, a paranóia da segurança nacional pode produzir grandes injustiças. Aqui no Brasil, muita gente deu para gritar histericamente a palavra "ordem", um vocábulo de tradição sinistra na história nacional.

Escrito por Marcelo Leite às 16h42

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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