Aos poucos parece que o caso do suposto plágio em artigo com co-autoria da atual reitora da USP, Suely Vilela (leia aqui e aqui), vai deixando a questão localizada do plágio para suscitar uma discussão mais ampla das duvidosas práticas de autoria de artigos científicos.
É a coisa certa a fazer - ampliar o diagnóstico. É opinião corrente nos meios acadêmicos e intelectuais que a pressão por publicações, a organização semi-industrial da pesquisa científica e a competição entre periódicos acadêmicos estão conduzindo a um relaxamento ético no setor, com aumento da frequência de fraudes, manipulações e deslizes.
O jornalismo científico investigativo precisa se debruçar sobre o fenômeno, se os próprios filtros acadêmicos não estão dando conta de separar o joio do trigo - ou publicando o joio, como diz a boutade de H.L. Mencken. É a fé pública da ciência que está em jogo.
Recebi de um leitor, que pede para manter sua identidade oculta (o que me parece justificável no caso), algumas observações sobre fatos colhidos nos currículos Lattes de envolvidos no caso. Eles sugerem que pode haver algo de anormal na produtividade e nos costumes do grupo que produziu a pesquisa ora sob sindicância:
Carolina Dalaqua Sant´Ana defendeu o doutorado em 2008. Segundo o Lattes de seu orientador, os membros da banca eram: FONTES, M R M; RODRIGUES, V. M.; ALBUQUERQUE, S; dos Santos. A.C.; SOARES, A. M. Dois desses membros da banca são também co-autores de Carolina em artigos publicados em 2008 e 2007 (e 2006, e 2005). Um dos membros da banca é co-autor do artigo com o suposto plágio. Papers de 2005, supõe-se, já poderiam fazer parte de seu doutorado. Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?
Os pesquisadores-colaboradores-participantes da banca da Carolina são M.R.M Fontes (físico que agora estuda toxinas) e o biólogo Sergio Albuquerque (especialista em tripanossoma, organismo supostamente retratado na foto sob suspeita). Todos livre-docentes da USP, pesquisadores de primeiro escalão do CNPq.
O orientador de doutorado Andreimar Soares e a orientadora de mestrado Suely Vilela estão presentes na maior parte desses artigos. É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês.
Eis a legenda, em inglês, da figura em questão (acima):
Fig. 3. Transmission electron microscope of parasites treated with Bothrops jararaca LAAO. Trypanosoma cruzi epimastigote forms were incubated for 24 h with 5 and 15 μg/ml of BjarLAAO-I. (A) untreated parasite showing kinetoplast (k) and nucleus (n); (B) treated parasite with 5 μg/ml of BjarLAAO-I exhibiting kinetoplast disorganization. Note the gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins. (C) Parasites completely destroyed after treatment with 15 μg/ml of BjarLAAO-I. Transmission electron microscopy of Leishmania amazonensis promastigotes cultivated in untreated (D) and treated medium with BjarLAAO-I (E). Promastigotes treated for 24 h with enzyme (5 μg/ml) showing alterations in the flagella or nucleus (arrows). Bars = 0.5–1.0 μm. These data are representative of three experiments.
Não consegui encontrar no site da USP a nota da reitora Suely Vilela sobre o caso de plágio de artigo científico em que aparece como co-autora, segundo reportagem (aqui, só para assinantes) de Eduardo Geraque na Folha de hoje. O que li no "outro lado" publicado pelo jornal não chega a ser esclarecedor.
Parece provável que a reitora não tenha tido participação direta no suposto plágio. Mas isso quer dizer que não tenha responsabilidade? Não é de hoje que se discute na comunidade acadêmica como é frouxa a noção de autoria em artigos científicos, certamente uma deterioração ética induzida pela pressão por produtividade.
A reitora quer distanciar-se de Carolina D. Sant'Ana, a autora da tese de doutorado que virou artigo do periódico Biochemical Pharmacology agora posto em questão. Segundo a Folha, a nota de Vilela afirma: "Minha colaboração com o docente [Andreimar Martins Soares, orientador de Sant'Ana] é na área de isolamento e purificação de toxinas animais, matéria distinta em relação às passagens e imagens questionadas."
Fiquei curioso em saber se Vilela vai mencionar em alguma nota que foi orientadora do mestrado defendido por Sant'Ana em 2005, como se pode verificar em seu currículo Lattes. Ali também se podem contar mais de 30 trabalhos da pesquisadora em que Suely Vilela aparece como co-autora, a maioria de 2004 a 2008, quando já era pró-reitora e reitora.
Seria interessante se a reitora também esclarecesse qual foi exatamente sua participação no artigo em tela e nas outras dezenas (vários periódicos já exigem dos autores que detalhem quem fez o quê). Se não o fizer, deixará no ar a suspeita que tenha melhorado seus índices de produtividade por meio do que se chama eufemisticamente de "autoria honorária". Uma enganação, incompatível com a ética acadêmica, que proíbe levar crédito pelo trabalho alheio.
Adendo às 19h30: Graças ao leitor Roberto Takata, descubro que a nota da reitoria pode ser lida aqui, tendo sido divulgada às 16h20 de hoje. Leia e diga se esclarece alguma coisa.
Este blog andou meio largado, por força de uma viagem - mas mesmo assim me desculpo, o leitor não tem nada a ver com isso.
Começo pondo as coisas em dia com a pequena polêmica que me opôs a Demétrio Magnoli, a propósito de seu livro Uma gota de sangue. Escrevi em 26 de setembro uma resenha que terminava assim:
Não se busque neste livro de combate a propalada generosidade da mestiçagem. Para Magnoli, políticas racialistas ressuscitam o racismo e, em essência, não diferem das políticas do nazismo e do apartheid. Pouco importa se de um lado está o sujeito do preconceito e, de outro, seu objeto -a crença em raças os irmana.
Não há e não pode haver aperfeiçoamento das ações afirmativas. Aos pardos e pretos pobres de hoje, no Brasil, sob o fardo extra de descender mais obviamente de escravos, resta a esperança de que um dia a nação brasileira cumpra a promessa de dar oportunidades iguais para todos -seja em que geração for.
Magnoli não gostou, entre outras coisas, provavelmente, porque avaliei a obra como "regular". Replicou em 10 de outubro com o texto "Resenha expôs leitura apressada da obra", que começa assim:
Resenhar livros dá trabalho. Demanda um tempo desproporcional ao que se paga pela resenha, especialmente no caso inconveniente de livros extensos. Marcelo Leite não é o único a resolver o problema saltando a leitura da maior parte do livro. Mas, ao empregar o "método" na resenha publicada na Ilustrada (26/9) de meu "Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial", falseou o argumento central da obra. Leite quer que o leitor faça como ele, economizando tempo e reflexão. Ele decreta que o livro é "um texto de intervenção no debate brasileiro sobre cotas raciais" e sugere que se salte tudo que não incide diretamente sobre o Brasil, como as "partes três e quatro, por exemplo".
Começa mal e termina pior, acusando-me de desonestidade intelectual. É seu direito (e por isso dou aqui acesso ao que escreveu, para que o leitor forme a própria opinião). É também uma boa maneira de ficar falando sozinho.
Não pretendia voltar ao tema da quase candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo PV. Persiste, porém, a questão sobre a defesa do ensino do criacionismo em todas as escolas que teria sido feita pela ex-ministra do Meio Ambiente. Defendeu ou não?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que Marina Silva de fato não defendeu na entrevista o ensino do criacionismo, em pé de igualdade, com o ensino da evolução darwiniana. Não literalmente, nem em todas as escolas. (...)
[O]utras respostas na entrevista explicitam que Marina Silva não subscreve a separação entre ciência e religião consagrada como base da educação leiga e republicana.
"No espaço de fé, a ciência tem todo o acolhimento. Gostaria muito que no espaço científico existisse o acolhimento para a fé que a fé dá para a ciência", disse. Não há acolhimento possível da fé pela ciência, se por isso entende-se a admissão de que existam verdades além e acima das corroboradas com observações e medidas. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes). Ou assista ao vídeo todo (quase 12 minutos) da entrevista:
Entrevista com a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva from Matheus Siqueira on Vimeo.
(...) Diante da pobreza das ideias contemporâneas, melhor revisitar os velhos mestres. Um bom antídoto contra esse veneno chegou à praça na série da Editora Unesp batizada, sem trocadilho, de Coleção Pequenos Frascos. É "Escritos sobre Ciência e Religião", do britânico Thomas Henry Huxley (1825-1895).
Huxley ficou conhecido como "o buldogue de Darwin", pela defesa encarniçada da obra do autor de "Origem das Espécies", publicado há exatos 150 anos. Nesta coletânea brasileira reúnem-se três breves ensaios: "Sobre a Conveniência de se Aperfeiçoar o Conhecimento Natural" (1866), "O Natural e o Sobrenatural" (1892) e "Ciência e Cultura" (1880). (...)
Huxley aponta que a influência do sobrenatural na vida das pessoas está diminuindo (mal podia saber...), em favor do conhecimento objetivo da natureza. Sustenta que isso constitui um progresso espiritual. Como no caso da astronomia, que nasceu para calcular a sucessão das estações ou as rotas dos navios e terminou por povoar a mente dos homens com noções tão distantes da vida prática: "Ao buscar pão, colhem ideias".
Não se iluda com a fineza: Huxley está em campanha para extraditar a religião aos confins da vida privada. (...)
O melhor ensaio é o último, sobre ciência e cultura. Huxley apoia a proposta de um mecenas de criar uma escola exclusivamente voltada ao ensino de ciências, sem espaço para a cultura literária - base da educação clássica da época. O buldogue advoga que o conhecimento da natureza tem tanto ou mais potencial para elevar o espírito.
Huxley localiza a essência da cultura no que chama de crítica da vida. "Cultura (...) envolve a posse de um ideal e o hábito de estimar criticamente o valor das coisas tomando como base um padrão teórico", afirma.
Acima da crítica literária, ele defende a crítica científica da vida, que "convida o estudioso a procurar pela verdade não entre as palavras, mas entre as coisas". Ideia simples como o cão, com presas sob medida para os pedestres de hoje.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Vocês leram os artigos de João Pereira Coutinho ("Até tu, São Paulo?", 18/8) e de Luiz Felipe Pondé ("A volta das freiras feias sem Deus", 24/8) na Folha de S.Paulo, contra a nova lei antifumo paulista? Ambos a qualificam como fascista e sustentam que a raiz dessa inclinação totalitária está no recurso à ciência.
O primeiro afirmou, com a empáfia habitual:
Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer. O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.
O segundo empesteou de vez o ar:
O outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos. A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a "ciência" tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los? Imagine, caro leitor, se em alguns anos "a ciência descobrir" que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse "a ciência descobrir" pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder? Arrisco dizer que nossas freiras feias sem Deus proporiam campos de concentração para os fumantes. Assim garantiríamos um ar sempre puro.
Luiz Roberto Barradas Barata, médico sanitarista e secretário de Estado da Saúde de São Paulo, respondeu ao primeiro noutro artigo da Folha, "O 'mito'(?) do fumo passivo". Decerto tem mais autoridade científica que Christopher Booker, um historiador e colunista do diário inglês Sunday Telegraph e da revista Spectator que defende a pseudoteoria do design inteligente e ataca o que considera dogmas da ciência, como o aquecimento global, malefícios do amianto, do tabagismo passivo e da doença da vaca louca para seres humanos. Leia o que diz o médico:
Insistir nessa tese surrada, como no artigo "Até tu, São Paulo?", publicado nesta Folha no última dia 18 (Ilustrada), é o mesmo que desacreditar toda a comunidade médica mundial e os inúmeros trabalhos científicos que contribuíram para a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificar o tabagismo passivo como a terceira causa de morte evitável do planeta. Em 1993, a Agência de Proteção ao Meio Ambiente dos EUA publicou o primeiro estudo científico mostrando que a fumaça do cigarro no ambiente causa câncer. Encerrava-se aí a polêmica sobre os malefícios do fumo passivo. Na década de 90 do século passado, a Associação Médica Americana publicou estudo demonstrando que a incidência de câncer no pulmão era 30% maior nas mulheres que, embora nunca tivessem fumado, tinham inalado fumaça do cigarro no ambiente em que viviam. Aqui no Brasil, um estudo divulgado em 2008 pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) revelou que pelo menos sete pessoas morrem diariamente por doenças provocadas pela exposição passiva à fumaça do cigarro, como câncer de pulmão, doenças isquêmicas do coração e derrames. São inúmeras, portanto, as evidências científicas que mostram a relação entre tabagismo passivo, câncer e doenças cardiovasculares e que respaldaram, inclusive, a Convenção-Quadro para Controle do Tabaco, tratado internacional da OMS que recomenda a proibição do fumo em espaços coletivos.
Posso até discutir que haja excessos autoritários na lei antifumo, mas no restante a argumentação de Coutinho e Pondé é de doer. Quem são eles para pontificar que "ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre 'fumo passivo' e câncer", ou lançar a suspeita de que os estudos antitabagismo sejam "quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes"?
Não se trata só de uma questão de credibilidade e autoridade, claro, que não resolvem todas as questões, embora sejam guias úteis para a vida prática. Um ponto de vista minoritário pode estar correto, decerto. Mas aí é preciso partir para o mérito, ou seja, pôr as evidências sobre a mesa. É a regra do bom debate.
E que evidências Coutinho ou Pondé trouxeram para o debate? Zero. Falta-lhes até verossimilhança, como na fantasiosa fabricação de lobbies contra fumantes - quem ganharia dinheiro com isso, os fabricantes de remédios e chicletes para parar de fumar? Faz favor.
Fumei durante sete ou oito anos, dos 13 aos 20. Até hoje sonho que estou fumando, e posso garantir que é ótimo. Não suporto mais o cheiro de cigarro, em especial o de cinzeiros cheios, mas tolero as pitadas de minha empregada. Incomoda-me receber baforadas num restaurante, mas nunca pedi para um vizinho de mesa apagar o cigarro. Tenho sido o primeiro a criticar a tecnociência e suas seitas, mas acho irresponsável desqualificar de vez a noção de que os ganhos racionais possíveis na algaravia da opinião pública dependem, em última instância, de testes de objetividade (observações, medições e suas interpretações).
Leio com boa vontade, de vez em quando, os artigos dos pós-conservadores Coutinho e Pondé, que redescobriram o filão "épater le gauchiste", mas não lhes perdoo o rebaixamento do nível do debate. Quem recorre à ciência ou a ataca para apoiar seus pontos de vista está obrigado, na minha cartilha, a citar fontes e dados. Sem eles, o argumento fica um tanto esfumaçado.
O que a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) tem a ver com ciência? Nada, à primeira vista. A ciência é que tem algo a dizer sobre o PCC. (...)
Foi o que fez a socióloga Camila Nunes Dias com o PCC. Após entrevistar dezenas de "irmãos" (integrantes), a doutoranda da USP reconstituiu o esquema de funcionamento da organização. O trabalho, apresentado ao 14º Congresso Brasileiro de Sociologia no final de julho, ajuda a entender o enigma da redução da violência no Estado de São Paulo nesta década.
Apesar de ter voltado a crescer no primeiro semestre de 2009, o número de homicídios vinha caindo desde 1999. Em 2000 eram 15 por dia na capital paulista; hoje são 3,5. Há muita discussão, e pouca conclusão, sobre as causas do fenômeno. (...)
Há uma (...) possibilidade (...) perturbadora: o PCC pode ser responsável por parte dessa redução.
Camila Nunes Dias constatou que o "Partido" se encontra hoje estruturado de maneira empresarial e com domínio completo sobre os presídios paulistas. Cada um deles é gerenciado pelo "piloto", que se reporta à cúpula de 18 líderes. Fora das prisões, seus representantes são os "torres", com jurisdição sobre cada área de código DDD do Estado de São Paulo.
Não foi só o número de homicídios que recuou, mas também o de rebeliões e assassinatos dentro das penitenciárias. A violência aberta tornou-se contraproducente para os negócios do PCC e hoje vigora mais como "ultima ratio", medida excepcional. Para matar, todo irmão precisa de autorização da direção do Partido.
Para o bem e para o mal, o PCC racionalizou-se, mostram as ciências humanas. Se quisermos entender melhor o que está acontecendo, nós jornalistas precisamos conversar menos com policiais e políticos e mais com politólogos, sociólogos e antropólogos -além de presos e criminosos, como fez Camila Nunes Dias.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Aos 11 anos de idade, no final dos anos 1960, o clímax do entusiasmo de qualquer menino era alcançado com um foguete Saturno-5, que levou o homem à Lua em 20 de julho de 1969. Depois da Lotus verde de Jim Clark, claro, que voava baixo na Fórmula 1. Tudo de bom ainda era "made in USA", como as cobiçadas calças Lee (Clark, um escocês, e a Lotus, escuderia inglesa, excediam-se só para confirmar a regra).
Hoje as façanhas da corrida espacial são produzidas na China, como tudo o mais. Prepara-se a Longa Marcha para a Lua e, talvez, Marte. (...).
O pouso na Lua não foi só o ápice da corrida espacial. Foi também o passo inicial do turbocapitalismo que dominaria as três décadas seguintes. Dependente, porém, de matérias-primas do século 19: aço, carvão, óleo.
Lançar-se ao espaço implicava algum reconhecimento dos limites da Terra. Ela era azul, mas finita. Com o império da tecnociência ascendeu também sua nêmese, o movimento ambiental, como assinalou Marcos Nobre neste jornal. (...)
Uma missão a Marte trará outros benefícios para o imaginário terráqueo. Se Neil Armstrong e Buzz Aldrin encontraram na Lua um satélite morto, cinzento, desértico e coberto de cicatrizes, Marte serão outros 500.
Em primeiro lugar, é um planeta de verdade, não um apêndice. Mais vermelho do que cinza. Em vez de crateras e mais crateras, algumas paisagens familiares aos humanos: vales, ravinas, dunas, montanhas. Um mundo morto mais recentemente, quem sabe apenas moribundo, com resquícios de água e de microrganismos.
Marte é o futuro da humanidade. Ele nos fornecerá a experiência vívida e a imagem perturbadora de um planeta devastado, inabitável. Destino certo da Terra em vários milhões de anos. Ou, mais provável, em poucas décadas, se prosseguir o saque a descoberto de tanta energia fóssil pelo hipercapitalismo globalizado, inflando a bolha ambiental.
Todo sucesso, portanto, à Missão Planeta Vermelho. Ela nos trará de volta ao Azul.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Aequorea victoria, a água-viva a partir da qual se obteve a GFP
Um ponto alto da 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau (sul da Alemanha), encerrada no último dia 3, foram as palestras dos ganhadores de Química no ano passado. Não tanto por Osamu Shimomura, e mais por Martin Chalfie e Roger Tsien, que levaram um pouco de cor -em sentido literal e figurado- à audiência de mais de 600 pessoas.
Havia na plateia 580 jovens pesquisadores, convidados para conviver com outros 20 Nobel por uma semana, e bem uns 30 jornalistas. A maioria ficou mesmerizada com Chalfie e Tsien, que transformaram a proteína fluorescente verde (GFP, na abreviação em inglês) numa ferramenta crucial da biotecnologia. (...)
Chalfie e Tsien (...) contaram para os ávidos estudantes e jovens pesquisadores da plateia casos nada edificantes sobre a revista "Science", um dos mais influentes periódicos científicos do mundo. Ambos os artigos sobre a GFP que lhes valeram o Nobel enfrentaram resistência de editores e revisores.
No caso de Chalfie, os editores implicaram com o título e com a cor verde, que não ficaria bem na capa. Queriam mudar ambos, mas Chalfie só aceitou a primeira proposta. A capa ficou linda.
No caso de Tsien, um obstáculo mais sério: o artigo foi rejeitado, a princípio. Entre outras razões, porque um revisor anônimo alegara que a estrutura da variante mais útil de GFP projetada e decifrada pelo grupo nada revelaria sobre a função ecológica da proteína (coisa que ninguém estava procurando).
Circulou pela internet, na mesma época, o rumor de que a revista "Nature Biotechnology", uma concorrente, iria publicar a estrutura da GFP comum. Havia grande expectativa nos comentários. Tsien copiou-os e colou num e-mail para o editor da "Science". Seu artigo foi aceito.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Recebi de Gilberto Câmara, da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) as seguintes observações sobre a coluna intitulada "O alcance ruralista" (veja nota a respeito aqui):
Com relação à comparação entre os dados de desmatamento do INPE e o relatorio "Alcance Territorial da Legislação Ambiental", feito pela EMBRAPA Monitoramento por Satélite, esclareço que:
1. Os dados do INPE foram validados pela comunidade científica. A metodologia do INPE está publicada em revista de prestígio, e dezenas de trabalhos na literatura científica usam nossos dados, inclusive papers publicados em "Science", "Nature", e "Proceedings of the National Academy of Sciences".
2. Os mapas de desmatamento da Amazônia feitos pelo INPE estão disponíveis de forma aberta na Internet, permitindo comprovação e validação independente.
3. O relatório da EMBRAPA Monitoramento por Satélite ainda não foi validado pela comunidade científica. Os mapas associados também não estão disponíveis na Internet, o que impede sua validação pelos pares.
4. Não se pode desqualificar o relatório da EMBRAPA Monitoramento por Satélite por não ter sido revisado pelos pares. Isto seria injusto e apressado, pois a EMBRAPA é uma instituição séria. Naturalmente, é desejável que a avaliação do relatório por pares científicos aconteça, pois se trata de tema de grande impacto nacional.
5. O INPE foi convidado a contribuir no debate sobre a legislação ambiental pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara. Estamos atualmente estudando a melhor forma de atuar, pois queremos agregar nossa competência sem duplicar nem conflitar com o trabalho feito pela EMBRAPA.
Agradeço a manifestação do Inpe e faço votos de que seu envolvimento no debate contribua para esclarecer uma questão que, para o bem do Brasil, não pode pode ficar prisioneira de uma polarização ideologizada ("ambientalistas" X "ruralistas"), pois há base factual (dados, medidas) para fazê-la avançar.
Foi refrescante ouvir a palestra do suíço Richard Ernst na 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau, sul da Alemanha. Depois de uma abertura bem oficial na tarde de ontem (domingo), com três ministros de Ciência/Educação (Alemanha, China e Índia) mais o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Barroso, Ernst balançou o coreto propondo na manhã de hoje (segunda) uma viagem científico-artística ao Tibete.
O encontro em Lindau se realiza desde 1951 em Lindau por iniciativa do conde Lennart Bernadotte (1909-2004), mecenas que desejava fazer algo pela reconciliação internacional após a Segunda Guerra e enxergou na ciência natural um caminho. Neste ano a reunião conta com 23 laureados e tem por tema central a mudança climática global.
“Ernst”, em alemão, quer dizer sério, austero. O Nobel de Química em 1991, por sua contribuição ao método da ressonância nuclear magnética, começou porém dizendo aos 580 jovens pesquisadores da platéia à margem do lago de Constança que sua palestra – “Paixões e Atividades além da Ciência” – se concentraria no “além”. Eles assistem a conferências abertas pela manhã e se encontram a portas fechadas com os bãbãbãs à tarde, sem a presença de jornalistas.
Bem a calhar. No dia anterior, cinco jovens selecionados para representar os outros 575 no palco, participando de uma mesa-redonda com Barroso, haviam dado um show de convencionalismo e respostas ensaiadas. Pareciam recitar respostas decoradas, como naqueles concursos de debate americanos. Só o ganês Kwaku Kyeremeh e o alemão Elias Puchner fugiram um pouco do script carreirista, mencionando coisas como penúria e burocracia.
Os jovens de 67 países participam até sexta-feira das palestras públicas e dos encontros fechados com os luminares. Sandra Zanotto, da Universidade do Estado do Amazonas, por exemplo, escolheu na tarde de hoje (cinco horas à frente do Brasil) acompanhar a conversa com Ernst, por causa de sua mensagem mais "holista". Disse que o salão estava lotado.
Milhares se candidatam e são pré-selecionados por instituições nacionais, como o CNPq brasileiro, e depois escolhidos por um comitê. Há sete doutorandos e doutorados em química do Brasil na reunião – contra 168 da Alemanha, 91 dos EUA, 45 da Índia, 27 da China e dois de Gana, as cinco nacionalidades representadas no debate “estudantil”.
As palestras começaram para valer hoje (segunda). Depois de uma apresentação mais fascinante que compreensível do alemão Gerhard Ertl (Nobel de Química, 2007) sobre reações em superfícies de catalisadores, Ernst saiu do sério. Disse de cara que a “paixão” é a segunda perna da pesquisa e que ciência e arte têm como denominadores comuns a curiosidade e a criatividade.
Puxou uma longa fila de slides de laureados com um pé – ou pelo menos um hobby – na arte: Einstein e o violino, Feynman e o bongô, Djerassi e a literatura (já recomendei aqui e em minha coluna na Folha de S.Paulo seu romance “O Dilema de Cantor” e a peça de teatro “Oxigênio”). Ernst citou ainda Da Vinci, que tinha “mais pernas que uma centopéia”.
A perna em que o suíço se apóia para desentortar a andadura da pesquisa é a arte tibetana. Contou que ela o levou à história e à filosofia do budismo, às técnicas de pintura e restauração, à espectroscopia de pigmentos e ao papel de colecionador. E, por fim ao Nepal, para praticar um pouco disso tudo in loco.
Acabou se envolvendo, depois, com a iniciativa do Dalai Lama intitulada “A Ciência encontra Dharma” (nada a ver diretamente com a série de TV “Lost”, por favor), para levar o aprendizado de ciências naturais aos monges e monjas. Pediu que os jovens se candidatassem como professores e doassem dinheiro.
Sabedoria e compaixão, pelo visto, lhe fizeram muito bem. Produziu várias piadas durante a fala, em sintonia aparente com o humor sempre discernível nas entrevistas do Dalai Lama – saiu uma ontem no jornal “Welt am Sonntag”, no qual o líder pacifista da revolta contra a China teve a pachorra de se dizer “um monge marxista”.
Ernst retomou a seriedade, ao final, para lançar um apelo compadecido aos 580 jovens: “Não se transformem em ‘nerds’ unilaterais. Não se esqueçam de suas paixões”. Foi longamente aplaudido. Será também lembrado?
O blogueiro viajou para a Alemanha a convite da Fundação Reunião de Prêmios Nobel em Lindau.
Recebi da Associacao de Geografos Brasileiros, a proposito da coluna “Em Brasilia, 19 horas” (v. mais abaixo), a carta-manifesto abaixo (peco desculpas pela falta de acentos e cedilhas):
CARTA AOS SENHORES SENADORES SOBRE A ALTERAÇÃO NOS FUSOS HORÁRIOS DA REGIÃO NORTE
A Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) vê com extrema preocupação a aprovação de projetos que procuram alterar os fusos horários para atenderem
aos interesses de redes de televisão diante da exigência para cumprimento da classificação indicativa do Ministério da Justiça.
Se aprovados e sancionados os PLS n. 177/08 do Senador Delcidio Amaral e/ou o PLS 468/08 do Senador Arthur Virgilio reduzirão os fusos horários
vigentes nos Estados de Amazonas, Mato Grosso e Mato Grasso do Sul e novamente o do Estado do Acre. Essas áreas passariam a obedecer ao fuso
horário de Brasília.
Se aprovados implica em dizer que os moradores das regiões Centro–Oeste e Norte do Brasil não merecem ser respeitados, tanto no que diz respeito à sua
saúde como em relação a classificação indicativa de programas televisivos. A preocupação da comunidade cientifica baseia-se nas seguintes questões:
1. O Projeto de Lei ignora que o Planeta Terra é divido em 360 meridianos, e que a cada 15 meridianos considera-se um fuso horário. Fazer com que cada
hora corresponda a 45 meridianos é desconsiderar que o Brasil é um país de dimensões continentais. Países com características semelhantes (Como os
EUA, Canadá, Rússia e Austrália) possuem inclusive um número maior de fusos horários, e este nunca foi um problema para a integração interna destas
nações, justificativa dos PLS.
2. Uma alteração desta natureza requer amplo debate com a comunidade científica, pois trará impactos significativos do ponto de vista biológico, social e
econômico que, tudo indica, foram desconsiderados pelos parlamentares que apresentam e defendem a proposta. Mudança semelhante causou sérios
prejuízos aos habitantes de Portugal, que foi obrigado a retornar ao seu fuso horário original, após tê-lo alterado em 1992 (quando de seu ingresso na União
Européia), como pode ser constatado em documentos do Observatório Astronômico de Lisboa.
A mudança que ocorreu no Acre com a aprovação da Lei (projeto de autoria do Senador Tião Viana, de nº 11.662 sancionada em 24 de abril de 2008) também
já está se fazendo sentir. As escolas são obrigadas a iniciar mais tarde o primeiro turno implicando em menor número de horas aulas, aumento do
consumo de energia, entre outras seqüelas.
3. Os Projetos de Lei revelam desconhecimento sobre o imediato aumento no consumo de energia que será ocasionado pela mudança. Estes estados da
federação, vale lembrar, não promovem o chamado ‘horário de verão’, já que estudos evidenciam que adiantar em uma hora o relógio nestas regiões não
promoveria a economia de energia, mas sim aumentaria seu consumo. Cabe também lembrar que as emissoras de televisão não alteram sua programação
nos estados onde não há horário de verão.
4. Os Projetos de Lei ignoram os prováveis impactos no metabolismo dos cidadãos e cidadãs dessas regiões, em especial nas crianças, com possíveis
resultados negativos, como a perda de rendimento nas atividades escolares, como já se observa no Acre. Com a sanção da medida, parcela substancial
destas populações terá suas primeiras atividades do dia ainda no escuro, com alterações biológicas que podem provocar sérios transtornos de saúde,
ocasionando, por exemplo, o aumento no consumo de medicamentos estimulantes e relaxantes.
Os parlamentares devem ignorar o significado de Ritmo ou ciclo circadiano que designa o período de aproximadamente um dia (24 horas) sobre o qual se
baseia todo o ciclo biológico do corpo humano de qualquer outro ser vivo, influenciado pela luz solar. O ritmo circadiano regula todos os ritmos materiais,
bem como muitos dos ritmos psicológicos do corpo humano, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília, passando pelo
crescimento e pela renovação das células, assim como a subida ou descida da temperatura.
5. Não houve um processo de debate amplo e transparente acerca da proposta, fazendo com que os únicos legítimos interessados na possível mudança, os cidadãos e cidadãs das áreas atingidas, não tenham tido a possibilidade sequer de compreender os impactos da alteração no fuso horário e, conseqüentemente, de se manifestar a respeito. Corrobora esta percepção o fato de que constava na versão original do PL que alterou o fuso horário do Acre a proposta de realização de plebiscito popular para estimular o debate nestas regiões e permitir uma decisão soberana de seus habitantes em relação à alteração permanente do fuso horário. Tal proposta, entretanto, foi suprimida na última versão do projeto.
* * *
Pelo exposto, enfatizamos a necessidade de que os PLS sejam retirados de pauta e que sejam realizados estudos aprofundados sobre os resultados que esta alteração provocará na vida das comunidades atingidas.
Trata-se de afirmar que sem pesquisas cientificas e um amplo debate público com as comunidades não é possível dimensionar o impacto da mudança, tornando, se aprovados e sancionados, os PLS de mudança de fuso horário, ato da mais profunda irresponsabilidade social, política e geográfica.
Considerando a grande importância das suas ações políticas no estado em que foste eleito comunicamos que estamos enviando esta referente Carta para a seção Local da Associação/AGB para que todos e todas possam acompanhar com Vossa Senhoria esta nossa luta.
Certos da responsabilidade de Vossa Senhoria com os cidadãos e cidadãs da Nação Brasileira, nós geógrafos e geógrafas contamos com Vossa sensibilidade política e humana.
No Dia Mundial do Meio Ambiente, 5 de junho, caderno especial da Folha trouxe reportagem deste colunista sobre um estudo controverso, "Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista". Dados da Embrapa Monitoramento por Satélite afirmavam que só 29% do território nacional estariam disponíveis para a agropecuária.
A reportagem chegou a conclusão diversa da que animava o trabalho realizado sob coordenação do chefe da unidade da Embrapa, Evaristo Eduardo de Miranda, encampado pela senadora ruralista Kátia Abreu (DEM-TO) e pelo ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes (PMDB-PR). "Sobra terra para a agropecuária no Brasil", avisava o título. E, mesmo que fossem só 29%, já daria para triplicar a safra nacional de grãos. (...)
As objeções ao trabalho não partem só de ONGs ambientais, mas da própria Embrapa. (…) Um argumento é que o trabalho vem sofrendo seguidas modificações. Outro, que não passou pelo crivo de outros especialistas, como é praxe para estudos científicos. (…)
Miranda pondera que a publicação na internet funciona como uma consulta pública. À medida que surgem sugestões, críticas e discussões, os ajustes são feitos, diz. "O site não é uma publicação análoga a uma revista [científica]." Ele faz um paralelo com os dados de desmatamento na Amazônia produzidos periodicamente pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Estes tampouco são submetidos a periódicos científicos antes de publicados pela internet e anunciados pelo Ministério do Meio Ambiente.
O questionamento interno ao estudo da Embrapa subiu de patamar há duas semanas com a retirada dos nomes de dois coautores, Daniel de Castro Victoria e Fabio Enrique Torresan. Segundo a coluna apurou, o motivo seria discordância com modificações feitas sem consulta a todos os autores do levantamento.
Miranda confirma a exclusão, mas afirma que os resultados obtidos pelos dois pesquisadores não sofreram alteração. Diz que a iniciativa teria menos a ver com o conteúdo do estudo do que com a sucessão na chefia da unidade da Embrapa.
Do ponto de vista do público, pouco importa. Relevante é saber se o estudo realmente para de pé, e isso compete a especialistas dirimir. (…)
Leia a integra da coluna Ciencia em Dia (com desculpa por esta falta de acentos) na Folha de S.Paulo (aqui, so para assinantes).
Há dez dias estive em Recife. No voo de volta, o Airbus-310 despegou-se da pista às 17h30. O céu já estava escuro, quase noite, como que agourando um percurso em que não faltariam avisos de apertar os cintos por causa de turbulências. (...)
Recife fica na longitude 35 Oeste. Geograficamente isso põe a cidade dois fusos horários à esquerda do meridiano de Greenwich (0). Ou seja, com duas horas a menos que Londres (UTC -2, na nomenclatura).
Pela lei nacional, porém, aquele extremo oriental do Nordeste e do Brasil está no fuso UTC -3. O sol se pôs naquela sexta-feira às 17h11, mas essa era a hora de Brasília, não de Recife. "Pela hora de Deus", como dizia o padre de Ubatuba que se recusava a adiantar o relógio da igreja no horário de verão, eram já 18h11. (...)
Leio agora que a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou a unificação de todos os fusos horários do Brasil. (...)
Nada mudaria no Nordeste. Pense, porém, na cidade de Cruzeiro do Sul (73 Oeste), no extremo ocidental do Acre. Até um ano atrás, e isso desde 1913, estava onde deveria estar, no fuso UTC -5 (duas horas a menos que Brasília). Mas a lei nº 11.662/2008 arrastou-a para o fuso UTC -4.
Vingando o que os senadores ora ensaiam, o pessoal de Cruzeiro do Sul avançaria mais uma hora, para o fuso UTC -3. (...) O nascer do sol foi às 7h01 na última sexta-feira. Imagine se os relógios estivessem marcando 8h01.
Seria uma crueldade com as crianças que vão à escola de manhã. Não basta levantar cedo, num horário em geral incompatível com a fisiologia do aprendizado. Para piorar, ainda teriam de sair de casa e começar as aulas no escuro. (...)
Brasília é um lugar estranho. Ali se acredita que, se a lei disser, as suas 19h valem para todo o país. Como se o Brasil inteiro falasse numa única voz -a voz do dono.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
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