O compositor Walter Franco enviou uma simpática mensagem a respeito de minha coluna "Berço e criação". Com sua autorização, e algo cabotinamente, reproduzo-a abaixo:
É necessário e sintético o seu perfeito artigo intitulado "Berço e criação". "O Determinismo genético saiu de moda na academia". Saiba que me sinto homenageado imerecidamente e com meu walter ego em perigo.E não é prá menos.
Transcrevendo suas palavras. "Incrível: descobri no Google que o imortal Walter Franco tem uma música intitulada "Quem Puxa aos Seus Não Degenera". Nela se encontra a seguinte estrofe, que talvez nos inspire a ser mais tolerantes com as feras criadas por aí: "Daí meu pai disse / meu filho, espera / a inocência que há / no olhar da fera".
É fundamental a leitura e a reflexão do seu texto na íntegra, na parte mais interna, no cerne da alma, na essência. Com tamanho elogio, o melhor é que eu tente me reduzir a zero. Por nossos ancestrais e nossos filhos. Por todos os que fizeram, os que fazem e os que farão parte da Raça Humana receba o meu abraço mais o agradecimento.
Ninhada de camundongos (Foto: Universidade da Califórnia em Riverside)
Saí do berço ouvindo que quem herda não furta. Pode-se entender o provérbio em sentido jurídico, mas o contexto sempre apontava outra coisa: não é crime parecer-se com alguém. Algo como, para ficar nos provérbios, "quem puxa aos seus não degenera".
A biologia é obcecada com o sentido desse verbo, "herdar". (...)
É a velha questão "nature X nurture", que traduzo livremente do inglês como berço X criação. A genética, turbinada pelo Projeto Genoma Humano, teria resolvido o dilema em favor do primeiro termo. Até os anos 1980, houve certo predomínio da psicologia (ambiente, ou criação), logo substituída por explicações "mais científicas", genéticas (natureza, ou berço). (...)
Mais um estudo que põe essa dicotomia em xeque foi publicado eletronicamente pelo periódico científico "Nature Neuroscience" na semana passada. Chris Murgatroyd, pesquisador do Instituto Max Planck de Psiquiatria, de Munique, mostrou que experiências traumatizantes na primeira infância podem deixar marcas duradouras na fisiologia e no comportamento que nada têm a ver com o conteúdo dos genes, mas sim com a expressão desse conteúdo. (...)
A equipe descobriu que, já adultos, os roedores estressados quando filhotes tinham níveis elevados de um hormônio, a vasopressina, associado com o humor e, em humanos, com a química da depressão. Viu, ainda, que esse aumento decorre de marcas indeléveis deixadas no DNA.
É óbvio que o mecanismo pode não ser o mesmo em seres humanos, mas é difícil de acreditar que não haja coisas similares agindo dentro de nós. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Sinal dos tempos: a eleição para reitor da USP pode ter de ser realizada fora do campus, porque uma espécie de piquete impediu o comparecimento dos 324 delegados votantes. Mesmo quem não morre de amores por esse colégio eleitoral dominado por docentes (nem por eleição direta com a participação igualitária de funcionários e estudantes) percebe que tem alguma coisa errada aí.
Não acho que a suspeita de plágio no qual se viu envolvida a reitora Suely Vilela (leia mais aqui) tenha alguma relação direta com isso, a não ser pela coincidência da denúncia com a aproximação do pleito - imagino que alguém tenha interesse em queimar o grupo político da reitora. De todo modo, a acusação tratada neste blog suscitou uma correspondência com leitores bem mais interessante que a questão do plágio em si, e por isso vale a pena voltar a ela.
Um desses leitores é o físico Peter Schulz, da Unicamp. Em reação à minha primeira nota e a comentários de leitores, ele escreveu:
Esse novo caso, levanta, entre outros, um aspecto importante: responsabilidades e contribuições de autores em trabalhos com um grande número de autores. É uma questão que vem sendo tratada há um bom tempo na comunidade, por exemplo, de física de partículas com experimentos realizados em grandes aceleradores. Mais recentemente temos os grandes projetos em rede, como os dos diferentes genomas.
Outras áreas da comunidade científica ainda não têm talvez uma "prática de gestão" de equipes com 10 ou mais participantes. Essa falta de gestão chega ao cúmulo de que o orientador da principal autora não revisa a versão final do artigo e nem se dá conta de que imagens estão sendo usadas.
Mas eu gostaria mesmo de chamar a atenção a vários comentários que levantam a questão de quem deve ser co-autor em um artigo. E alguns desses comentários precisam de respostas atentas.
A orientação de estudantes de pós-graduação não é uma atividade homogênea entre as diferentes áreas acadêmicas. Pelo que consegui vislumbrar ao longo dos anos, há diferenças importantes e o conhecimento dessas diferenças deve ser premissa do debate.
Nas chamadas ciências duras, os orientadores normalmente propõem o tema, introduzem o orientando à metodologia e discutem muito de perto os passos da pesquisa. Os resultados e o artigo são escritos a quatro mãos. Isso caracteriza claramente co-autoria.
Em humamanas esse prática é muito diferente, caracterizada por uma autonomia maior do estudante, que muitas vezes propõe o próprio projeto de pesquisa. Uma possível co-autoria aqui já é menos evidente.
Em orientações no âmbito de grandes projetos de pesquisa a identidade de uma dissertação ou tese é menos evidente a alguém de fora da comunidade.
Resumindo: estabelecer pontes entre as diferentes culturas acadêmicas parece-me cada vez mais uma condição importante para uma melhor avaliação pública de problemas éticos como os levantados na atua ldiscussão.
Respondi, então: Acho um pouco complicada essa argumentação em favor da co-autoria, porque no limite ela implica que o trabalho de mestrado e doutorado em ciências humanas tenha mais valor que o de ciências ditas duras, quase escolares. Será que os praticantes destas estarão dispostos a dar esse passo?
Schulz voltou à carga:
Questão complicada. Acho que não concordo contigo, mas sinto-me inquieto e com vontade de discutir o assunto. Abaixo vai, portanto, o meu relato pessoal, pois nisso minhas ferramentas de análise são bem escassas e preciso compartilhar então experiências pessoais.
Eu comecei a carreira como físico em meados da década de 80 e segui os passos do meu orientador, que propôs um projeto de mestrado (e depois também de doutorado). Era uma época em que a pressão por papers não era nem de longe tão intensa como é hoje e, mesmo assim, a prática de orientação/co-autoria parecida com o que acontece agora. Eu não questionei o modelo na época, nem discuti com amigos das humanas.
Quando me tornei um pesquisador independente segui o mesmo modelo de atuação e a minha produção científica é praticamente toda vinculada a orientação e colaboração com ex-orientandos. Sempre senti orgulho disso e agora com o teu questionamento preciso parar para pensar um pouco.
Vejamos:
1. A física se move por modas (outras ciências também, mas vou falar só da minha experiência pessoal), e os assuntos em moda são bastante competitivos, um monte de gente trabalhando neles no mundo todo. A chance de propor um projeto com o qual você se deparará publicado por outro grupo alguns meses depois é grande. Já aconteceu comigo e com vários colegas. Tem a ver com a grande internacionalização na Física.
2. Eu tenho a impressão de que em humanas o estudante tem uma tranquilidade maior para organizar seu projeto. Um grande amigo meu propôs um projeto sobre crônicas de um determinado autor sobre futebol. Conversando com ele, percebia-se que o temor de que alguém fizesse algo muito parecido em alguma outra parte do mundo era muito pequena. Às vezes trabalha-se com documentos originais cujo acesso chega a ser praticamente exclusivo etc...
3. Em física, mesmo quando o orientador redige um projeto de doutorado, costuma existir uma espécie de cláusula (eu sempre coloco) que diz mais ou menos assim: "dada a dinâmica da área, o projeto proposto poderá ser modificado no decorrer de sua execução". E, em geral, as modificações acontecem e são relevantes. Aí entra o exercício de independência de um bom orientando. Uma vez acostumado a uma rede de referências que se modifica rapidamente, ele tem a segurança de propor essas mudanças de rumo.
4. Na minha vida profissional (e à minha volta) eu percebo que as orientações acabam sendo processo intensos. O contato com o orientando em vários momentos ocorre várias vezes por semana e durante horas, com intensas discussões sobre o projeto em si, que empaca, não avança, e uma descoberta parece ir para o ralo (não estou dizendo que seja seminal essa descoberta, mas a idéia é gerar conhecimento original num ambiente em que se sabe que a chance de "perder a corrida" para outro é grande).
Nesse momento não importa tanto se o currículo Lattes terá um item a menos ou não, mas o envolvimento pela oportunidade de ter a propriedade intelectual sobre a explicação de um fenômeno contagia orientando e orientador. Orientando e orientador passarem juntos noites em claro terminando juntos um manuscrito para uma conferência (antes das facilidades das TIC) era bastante frequente... Bem como reuniões nos fins de semana em função do entusiasmo do orientando querendo compartilhar uma sacada ou a "grande medida" que faltava para finalizar o trabalho, e não dava para esperar a segunda-feira.
Aliás, no meu departamento orientandos e orientadores convivem muito porque todos têm sala, computador e ficam no departamento quase que por tempo integral. Tenho algumas poucas informações de que isso é bastante diferente em vários outros departamentos em ciências humanas.
5. Em física não encaramos um estudante de pós-graduação como alguém que precisa mostrar sua independência com muita precocidade, embora alguns o sejam. Ele é orientado para obter essa independência ao final do doutorado. Casos como Einstein, trabalhando isoladamente em um escritório de patentes para revolucionar o mundo, são extremamente raros. Acho que esse exemplo em particular ajuda a sustentar uma lenda que não condiz em nada com o cotidiano da prática científica em física.
6. Para se ter uma idéa dessa competição, eu busquei no "scitation" (que é um buscador acadêmico com um recorte significativo, mas bastante incompleto, de revistas especializadas) a palavra "graphene" (grafeno, o tema de duas orientações minhas): aparece em 608 artigos em 2009, até 7/11.
Olhando essa lista rapidamente, notei 3 entre os 10 primeiros diretamente relacionados com os aspectos das duas orientações.
7. Bem, eu oriento no momento 3 estudantes em conjunto com uma pós-doutoranda, que assina/assinará artigos de pesquisas em conjunto. O meu desejo íntimo, nem sempre realizado, é que o orientando acabe fazendo um trabalho sozinho, no final, quando consegue se defender das feras nessa selva. Antes disso seria uma frutração muito grande, a chance de sempre perder a corrida é muito alta.
Enfim, acho que existem diferenças culturais importantes e acho que você chama a atenção a um problema que merece uma visão de vários ângulos: afinal o que é orientar nas diferentes áreas?
A propósito do post abaixo, recebi as seguintes observação de outro leitor (que também pede para ficar anônimo):
1 - Primeiramente, uma correção: Marcos Fontes é da UNESP de Botucatu, atualmente vice-chefe do Departamento de Física e Biofísica do Instituto de Biociências.
2 - Uma frase do texto: "Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?" R.: Não é o ideal, mas sim. A área de pesquisa de Andreimar Soares tem poucos pesquisadores formados, então acaba sendo natural que co-autores de trabalho acabem sendo membros de banca, por entenderem do assunto.
3 - Outro trecho: " É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês." R: Andreimar Soares é pioneiro no Brasil no isolamento e estudo de toxinas de jararaca. Em função disso, muitos pesquisadores pedem ao prof. Andreimar que ceda estas toxinas, para utilizarem em seus respectivos trabalhos. Provavelmente, a "moeda de troca" que o professor pede é que ele seja co-autor dos artigos resultantes dos trabalhos. Daí a grande quantidade de artigos publicados.
Hugh Lacey é um filósofo da ciência australiano que trabalha nos EUA, mas também por aqui (na USP). Seus fãs tupiniquins aprenderam a admirá-lo por razões acadêmicas e humanas, entre elas a destreza no manejo da lógica contra a injustiça social. Se ele investir contra o muro que separa ciência de religião, pense antes de reagir. (...)
A defesa do pluralismo em ciência por Lacey (...) se encontra muito bem articulada em seu artigo "The Interplay of Scientific Activity, Worldviews and Value Outlooks" (a interação entre atividade científica, visões de mundo e perspectivas de valor), publicado em agosto de 2007 no periódico especializado "Science and Education".
Simplificando o argumento exposto em 22 páginas, Lacey deplora o sequestro da pesquisa científica atual pelo materialismo, definido como a metafísica inconfessada por trás da valorização do progresso tecnológico. Argumenta que tal valor não é inerente ao escopo da ciência. De fato não é. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo(aqui, só para assinantes).
Aos poucos parece que o caso do suposto plágio em artigo com co-autoria da atual reitora da USP, Suely Vilela (leia aqui e aqui), vai deixando a questão localizada do plágio para suscitar uma discussão mais ampla das duvidosas práticas de autoria de artigos científicos.
É a coisa certa a fazer - ampliar o diagnóstico. É opinião corrente nos meios acadêmicos e intelectuais que a pressão por publicações, a organização semi-industrial da pesquisa científica e a competição entre periódicos acadêmicos estão conduzindo a um relaxamento ético no setor, com aumento da frequência de fraudes, manipulações e deslizes.
O jornalismo científico investigativo precisa se debruçar sobre o fenômeno, se os próprios filtros acadêmicos não estão dando conta de separar o joio do trigo - ou publicando o joio, como diz a boutade de H.L. Mencken. É a fé pública da ciência que está em jogo.
Recebi de um leitor, que pede para manter sua identidade oculta (o que me parece justificável no caso), algumas observações sobre fatos colhidos nos currículos Lattes de envolvidos no caso. Eles sugerem que pode haver algo de anormal na produtividade e nos costumes do grupo que produziu a pesquisa ora sob sindicância:
Carolina Dalaqua Sant´Ana defendeu o doutorado em 2008. Segundo o Lattes de seu orientador, os membros da banca eram: FONTES, M R M; RODRIGUES, V. M.; ALBUQUERQUE, S; dos Santos. A.C.; SOARES, A. M. Dois desses membros da banca são também co-autores de Carolina em artigos publicados em 2008 e 2007 (e 2006, e 2005). Um dos membros da banca é co-autor do artigo com o suposto plágio. Papers de 2005, supõe-se, já poderiam fazer parte de seu doutorado. Co-autores do estudante podem participar da banca do estudante?
Os pesquisadores-colaboradores-participantes da banca da Carolina são M.R.M Fontes (físico que agora estuda toxinas) e o biólogo Sergio Albuquerque (especialista em tripanossoma, organismo supostamente retratado na foto sob suspeita). Todos livre-docentes da USP, pesquisadores de primeiro escalão do CNPq.
O orientador de doutorado Andreimar Soares e a orientadora de mestrado Suely Vilela estão presentes na maior parte desses artigos. É quase como se fosse uma organização para publicar papers em escala industrial. Andreimar Soares publicou 21 papers apenas neste ano (2009) - dá dois artigos por mês.
Eis a legenda, em inglês, da figura em questão (acima):
Fig. 3. Transmission electron microscope of parasites treated with Bothrops jararaca LAAO. Trypanosoma cruzi epimastigote forms were incubated for 24 h with 5 and 15 μg/ml of BjarLAAO-I. (A) untreated parasite showing kinetoplast (k) and nucleus (n); (B) treated parasite with 5 μg/ml of BjarLAAO-I exhibiting kinetoplast disorganization. Note the gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins. (C) Parasites completely destroyed after treatment with 15 μg/ml of BjarLAAO-I. Transmission electron microscopy of Leishmania amazonensis promastigotes cultivated in untreated (D) and treated medium with BjarLAAO-I (E). Promastigotes treated for 24 h with enzyme (5 μg/ml) showing alterations in the flagella or nucleus (arrows). Bars = 0.5–1.0 μm. These data are representative of three experiments.
Não consegui encontrar no site da USP a nota da reitora Suely Vilela sobre o caso de plágio de artigo científico em que aparece como co-autora, segundo reportagem (aqui, só para assinantes) de Eduardo Geraque na Folha de hoje. O que li no "outro lado" publicado pelo jornal não chega a ser esclarecedor.
Parece provável que a reitora não tenha tido participação direta no suposto plágio. Mas isso quer dizer que não tenha responsabilidade? Não é de hoje que se discute na comunidade acadêmica como é frouxa a noção de autoria em artigos científicos, certamente uma deterioração ética induzida pela pressão por produtividade.
A reitora quer distanciar-se de Carolina D. Sant'Ana, a autora da tese de doutorado que virou artigo do periódico Biochemical Pharmacology agora posto em questão. Segundo a Folha, a nota de Vilela afirma: "Minha colaboração com o docente [Andreimar Martins Soares, orientador de Sant'Ana] é na área de isolamento e purificação de toxinas animais, matéria distinta em relação às passagens e imagens questionadas."
Fiquei curioso em saber se Vilela vai mencionar em alguma nota que foi orientadora do mestrado defendido por Sant'Ana em 2005, como se pode verificar em seu currículo Lattes. Ali também se podem contar mais de 30 trabalhos da pesquisadora em que Suely Vilela aparece como co-autora, a maioria de 2004 a 2008, quando já era pró-reitora e reitora.
Seria interessante se a reitora também esclarecesse qual foi exatamente sua participação no artigo em tela e nas outras dezenas (vários periódicos já exigem dos autores que detalhem quem fez o quê). Se não o fizer, deixará no ar a suspeita que tenha melhorado seus índices de produtividade por meio do que se chama eufemisticamente de "autoria honorária". Uma enganação, incompatível com a ética acadêmica, que proíbe levar crédito pelo trabalho alheio.
Adendo às 19h30: Graças ao leitor Roberto Takata, descubro que a nota da reitoria pode ser lida aqui, tendo sido divulgada às 16h20 de hoje. Leia e diga se esclarece alguma coisa.
Este blog andou meio largado, por força de uma viagem - mas mesmo assim me desculpo, o leitor não tem nada a ver com isso.
Começo pondo as coisas em dia com a pequena polêmica que me opôs a Demétrio Magnoli, a propósito de seu livro Uma gota de sangue. Escrevi em 26 de setembro uma resenha que terminava assim:
Não se busque neste livro de combate a propalada generosidade da mestiçagem. Para Magnoli, políticas racialistas ressuscitam o racismo e, em essência, não diferem das políticas do nazismo e do apartheid. Pouco importa se de um lado está o sujeito do preconceito e, de outro, seu objeto -a crença em raças os irmana.
Não há e não pode haver aperfeiçoamento das ações afirmativas. Aos pardos e pretos pobres de hoje, no Brasil, sob o fardo extra de descender mais obviamente de escravos, resta a esperança de que um dia a nação brasileira cumpra a promessa de dar oportunidades iguais para todos -seja em que geração for.
Magnoli não gostou, entre outras coisas, provavelmente, porque avaliei a obra como "regular". Replicou em 10 de outubro com o texto "Resenha expôs leitura apressada da obra", que começa assim:
Resenhar livros dá trabalho. Demanda um tempo desproporcional ao que se paga pela resenha, especialmente no caso inconveniente de livros extensos. Marcelo Leite não é o único a resolver o problema saltando a leitura da maior parte do livro. Mas, ao empregar o "método" na resenha publicada na Ilustrada (26/9) de meu "Uma Gota de Sangue - História do Pensamento Racial", falseou o argumento central da obra. Leite quer que o leitor faça como ele, economizando tempo e reflexão. Ele decreta que o livro é "um texto de intervenção no debate brasileiro sobre cotas raciais" e sugere que se salte tudo que não incide diretamente sobre o Brasil, como as "partes três e quatro, por exemplo".
Começa mal e termina pior, acusando-me de desonestidade intelectual. É seu direito (e por isso dou aqui acesso ao que escreveu, para que o leitor forme a própria opinião). É também uma boa maneira de ficar falando sozinho.
Não pretendia voltar ao tema da quase candidatura de Marina Silva à Presidência da República pelo PV. Persiste, porém, a questão sobre a defesa do ensino do criacionismo em todas as escolas que teria sido feita pela ex-ministra do Meio Ambiente. Defendeu ou não?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que Marina Silva de fato não defendeu na entrevista o ensino do criacionismo, em pé de igualdade, com o ensino da evolução darwiniana. Não literalmente, nem em todas as escolas. (...)
[O]utras respostas na entrevista explicitam que Marina Silva não subscreve a separação entre ciência e religião consagrada como base da educação leiga e republicana.
"No espaço de fé, a ciência tem todo o acolhimento. Gostaria muito que no espaço científico existisse o acolhimento para a fé que a fé dá para a ciência", disse. Não há acolhimento possível da fé pela ciência, se por isso entende-se a admissão de que existam verdades além e acima das corroboradas com observações e medidas. (...)
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, para assinantes). Ou assista ao vídeo todo (quase 12 minutos) da entrevista:
Entrevista com a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva from Matheus Siqueira on Vimeo.
(...) Diante da pobreza das ideias contemporâneas, melhor revisitar os velhos mestres. Um bom antídoto contra esse veneno chegou à praça na série da Editora Unesp batizada, sem trocadilho, de Coleção Pequenos Frascos. É "Escritos sobre Ciência e Religião", do britânico Thomas Henry Huxley (1825-1895).
Huxley ficou conhecido como "o buldogue de Darwin", pela defesa encarniçada da obra do autor de "Origem das Espécies", publicado há exatos 150 anos. Nesta coletânea brasileira reúnem-se três breves ensaios: "Sobre a Conveniência de se Aperfeiçoar o Conhecimento Natural" (1866), "O Natural e o Sobrenatural" (1892) e "Ciência e Cultura" (1880). (...)
Huxley aponta que a influência do sobrenatural na vida das pessoas está diminuindo (mal podia saber...), em favor do conhecimento objetivo da natureza. Sustenta que isso constitui um progresso espiritual. Como no caso da astronomia, que nasceu para calcular a sucessão das estações ou as rotas dos navios e terminou por povoar a mente dos homens com noções tão distantes da vida prática: "Ao buscar pão, colhem ideias".
Não se iluda com a fineza: Huxley está em campanha para extraditar a religião aos confins da vida privada. (...)
O melhor ensaio é o último, sobre ciência e cultura. Huxley apoia a proposta de um mecenas de criar uma escola exclusivamente voltada ao ensino de ciências, sem espaço para a cultura literária - base da educação clássica da época. O buldogue advoga que o conhecimento da natureza tem tanto ou mais potencial para elevar o espírito.
Huxley localiza a essência da cultura no que chama de crítica da vida. "Cultura (...) envolve a posse de um ideal e o hábito de estimar criticamente o valor das coisas tomando como base um padrão teórico", afirma.
Acima da crítica literária, ele defende a crítica científica da vida, que "convida o estudioso a procurar pela verdade não entre as palavras, mas entre as coisas". Ideia simples como o cão, com presas sob medida para os pedestres de hoje.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Vocês leram os artigos de João Pereira Coutinho ("Até tu, São Paulo?", 18/8) e de Luiz Felipe Pondé ("A volta das freiras feias sem Deus", 24/8) na Folha de S.Paulo, contra a nova lei antifumo paulista? Ambos a qualificam como fascista e sustentam que a raiz dessa inclinação totalitária está no recurso à ciência.
O primeiro afirmou, com a empáfia habitual:
Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer. O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.
O segundo empesteou de vez o ar:
O outro veneno é a associação com a ciência. Aqui tocamos o fundo do poço. Só idiotas, ou fascistas confessos, mesmo que mentirosos, creem em verdades científicas como parceiros éticos. A rejeição de comportamentos construída via argumento científico tem a seu favor do ponto de vista do fascista a segurança de que ela é inquestionável. E se a "ciência" tivesse provado que os judeus eram mesmo seres inferiores e eticamente poluidores do mundo, seria correto exterminá-los? Ou pelo menos confiná-los? Imagine, caro leitor, se em alguns anos "a ciência descobrir" que fumantes e ex-fumantes emitem partículas cancerígenas pela respiração. Claro que esse "a ciência descobrir" pode significar uns quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes. Como proceder? Arrisco dizer que nossas freiras feias sem Deus proporiam campos de concentração para os fumantes. Assim garantiríamos um ar sempre puro.
Luiz Roberto Barradas Barata, médico sanitarista e secretário de Estado da Saúde de São Paulo, respondeu ao primeiro noutro artigo da Folha, "O 'mito'(?) do fumo passivo". Decerto tem mais autoridade científica que Christopher Booker, um historiador e colunista do diário inglês Sunday Telegraph e da revista Spectator que defende a pseudoteoria do design inteligente e ataca o que considera dogmas da ciência, como o aquecimento global, malefícios do amianto, do tabagismo passivo e da doença da vaca louca para seres humanos. Leia o que diz o médico:
Insistir nessa tese surrada, como no artigo "Até tu, São Paulo?", publicado nesta Folha no última dia 18 (Ilustrada), é o mesmo que desacreditar toda a comunidade médica mundial e os inúmeros trabalhos científicos que contribuíram para a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificar o tabagismo passivo como a terceira causa de morte evitável do planeta. Em 1993, a Agência de Proteção ao Meio Ambiente dos EUA publicou o primeiro estudo científico mostrando que a fumaça do cigarro no ambiente causa câncer. Encerrava-se aí a polêmica sobre os malefícios do fumo passivo. Na década de 90 do século passado, a Associação Médica Americana publicou estudo demonstrando que a incidência de câncer no pulmão era 30% maior nas mulheres que, embora nunca tivessem fumado, tinham inalado fumaça do cigarro no ambiente em que viviam. Aqui no Brasil, um estudo divulgado em 2008 pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer) revelou que pelo menos sete pessoas morrem diariamente por doenças provocadas pela exposição passiva à fumaça do cigarro, como câncer de pulmão, doenças isquêmicas do coração e derrames. São inúmeras, portanto, as evidências científicas que mostram a relação entre tabagismo passivo, câncer e doenças cardiovasculares e que respaldaram, inclusive, a Convenção-Quadro para Controle do Tabaco, tratado internacional da OMS que recomenda a proibição do fumo em espaços coletivos.
Posso até discutir que haja excessos autoritários na lei antifumo, mas no restante a argumentação de Coutinho e Pondé é de doer. Quem são eles para pontificar que "ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre 'fumo passivo' e câncer", ou lançar a suspeita de que os estudos antitabagismo sejam "quatro ou cinco trabalhos financiados por lobbies contra os fumantes"?
Não se trata só de uma questão de credibilidade e autoridade, claro, que não resolvem todas as questões, embora sejam guias úteis para a vida prática. Um ponto de vista minoritário pode estar correto, decerto. Mas aí é preciso partir para o mérito, ou seja, pôr as evidências sobre a mesa. É a regra do bom debate.
E que evidências Coutinho ou Pondé trouxeram para o debate? Zero. Falta-lhes até verossimilhança, como na fantasiosa fabricação de lobbies contra fumantes - quem ganharia dinheiro com isso, os fabricantes de remédios e chicletes para parar de fumar? Faz favor.
Fumei durante sete ou oito anos, dos 13 aos 20. Até hoje sonho que estou fumando, e posso garantir que é ótimo. Não suporto mais o cheiro de cigarro, em especial o de cinzeiros cheios, mas tolero as pitadas de minha empregada. Incomoda-me receber baforadas num restaurante, mas nunca pedi para um vizinho de mesa apagar o cigarro. Tenho sido o primeiro a criticar a tecnociência e suas seitas, mas acho irresponsável desqualificar de vez a noção de que os ganhos racionais possíveis na algaravia da opinião pública dependem, em última instância, de testes de objetividade (observações, medições e suas interpretações).
Leio com boa vontade, de vez em quando, os artigos dos pós-conservadores Coutinho e Pondé, que redescobriram o filão "épater le gauchiste", mas não lhes perdoo o rebaixamento do nível do debate. Quem recorre à ciência ou a ataca para apoiar seus pontos de vista está obrigado, na minha cartilha, a citar fontes e dados. Sem eles, o argumento fica um tanto esfumaçado.
O que a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) tem a ver com ciência? Nada, à primeira vista. A ciência é que tem algo a dizer sobre o PCC. (...)
Foi o que fez a socióloga Camila Nunes Dias com o PCC. Após entrevistar dezenas de "irmãos" (integrantes), a doutoranda da USP reconstituiu o esquema de funcionamento da organização. O trabalho, apresentado ao 14º Congresso Brasileiro de Sociologia no final de julho, ajuda a entender o enigma da redução da violência no Estado de São Paulo nesta década.
Apesar de ter voltado a crescer no primeiro semestre de 2009, o número de homicídios vinha caindo desde 1999. Em 2000 eram 15 por dia na capital paulista; hoje são 3,5. Há muita discussão, e pouca conclusão, sobre as causas do fenômeno. (...)
Há uma (...) possibilidade (...) perturbadora: o PCC pode ser responsável por parte dessa redução.
Camila Nunes Dias constatou que o "Partido" se encontra hoje estruturado de maneira empresarial e com domínio completo sobre os presídios paulistas. Cada um deles é gerenciado pelo "piloto", que se reporta à cúpula de 18 líderes. Fora das prisões, seus representantes são os "torres", com jurisdição sobre cada área de código DDD do Estado de São Paulo.
Não foi só o número de homicídios que recuou, mas também o de rebeliões e assassinatos dentro das penitenciárias. A violência aberta tornou-se contraproducente para os negócios do PCC e hoje vigora mais como "ultima ratio", medida excepcional. Para matar, todo irmão precisa de autorização da direção do Partido.
Para o bem e para o mal, o PCC racionalizou-se, mostram as ciências humanas. Se quisermos entender melhor o que está acontecendo, nós jornalistas precisamos conversar menos com policiais e políticos e mais com politólogos, sociólogos e antropólogos -além de presos e criminosos, como fez Camila Nunes Dias.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Aos 11 anos de idade, no final dos anos 1960, o clímax do entusiasmo de qualquer menino era alcançado com um foguete Saturno-5, que levou o homem à Lua em 20 de julho de 1969. Depois da Lotus verde de Jim Clark, claro, que voava baixo na Fórmula 1. Tudo de bom ainda era "made in USA", como as cobiçadas calças Lee (Clark, um escocês, e a Lotus, escuderia inglesa, excediam-se só para confirmar a regra).
Hoje as façanhas da corrida espacial são produzidas na China, como tudo o mais. Prepara-se a Longa Marcha para a Lua e, talvez, Marte. (...).
O pouso na Lua não foi só o ápice da corrida espacial. Foi também o passo inicial do turbocapitalismo que dominaria as três décadas seguintes. Dependente, porém, de matérias-primas do século 19: aço, carvão, óleo.
Lançar-se ao espaço implicava algum reconhecimento dos limites da Terra. Ela era azul, mas finita. Com o império da tecnociência ascendeu também sua nêmese, o movimento ambiental, como assinalou Marcos Nobre neste jornal. (...)
Uma missão a Marte trará outros benefícios para o imaginário terráqueo. Se Neil Armstrong e Buzz Aldrin encontraram na Lua um satélite morto, cinzento, desértico e coberto de cicatrizes, Marte serão outros 500.
Em primeiro lugar, é um planeta de verdade, não um apêndice. Mais vermelho do que cinza. Em vez de crateras e mais crateras, algumas paisagens familiares aos humanos: vales, ravinas, dunas, montanhas. Um mundo morto mais recentemente, quem sabe apenas moribundo, com resquícios de água e de microrganismos.
Marte é o futuro da humanidade. Ele nos fornecerá a experiência vívida e a imagem perturbadora de um planeta devastado, inabitável. Destino certo da Terra em vários milhões de anos. Ou, mais provável, em poucas décadas, se prosseguir o saque a descoberto de tanta energia fóssil pelo hipercapitalismo globalizado, inflando a bolha ambiental.
Todo sucesso, portanto, à Missão Planeta Vermelho. Ela nos trará de volta ao Azul.
Leia a íntegra da coluna Ciência em Dia na Folha de S.Paulo (aqui, só para assinantes).
Aequorea victoria, a água-viva a partir da qual se obteve a GFP
Um ponto alto da 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau (sul da Alemanha), encerrada no último dia 3, foram as palestras dos ganhadores de Química no ano passado. Não tanto por Osamu Shimomura, e mais por Martin Chalfie e Roger Tsien, que levaram um pouco de cor -em sentido literal e figurado- à audiência de mais de 600 pessoas.
Havia na plateia 580 jovens pesquisadores, convidados para conviver com outros 20 Nobel por uma semana, e bem uns 30 jornalistas. A maioria ficou mesmerizada com Chalfie e Tsien, que transformaram a proteína fluorescente verde (GFP, na abreviação em inglês) numa ferramenta crucial da biotecnologia. (...)
Chalfie e Tsien (...) contaram para os ávidos estudantes e jovens pesquisadores da plateia casos nada edificantes sobre a revista "Science", um dos mais influentes periódicos científicos do mundo. Ambos os artigos sobre a GFP que lhes valeram o Nobel enfrentaram resistência de editores e revisores.
No caso de Chalfie, os editores implicaram com o título e com a cor verde, que não ficaria bem na capa. Queriam mudar ambos, mas Chalfie só aceitou a primeira proposta. A capa ficou linda.
No caso de Tsien, um obstáculo mais sério: o artigo foi rejeitado, a princípio. Entre outras razões, porque um revisor anônimo alegara que a estrutura da variante mais útil de GFP projetada e decifrada pelo grupo nada revelaria sobre a função ecológica da proteína (coisa que ninguém estava procurando).
Circulou pela internet, na mesma época, o rumor de que a revista "Nature Biotechnology", uma concorrente, iria publicar a estrutura da GFP comum. Havia grande expectativa nos comentários. Tsien copiou-os e colou num e-mail para o editor da "Science". Seu artigo foi aceito.
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