Marcelo Leite

Ciência em Dia

 

Ciência e Sociedade

Espiritismo e cientificismo galopantes

 
 

Espiritismo e cientificismo galopantes

Sabia que a coluna "Espiritismo galopante", na Folha. com, despertaria reações de crentes e crédulos no espiritismo. Dito e feito.

Há pouco havia 34 comentários lá, a maioria um tanto irada. Poucos abordam os ARGUMENTOS apresentados na coluna, como seria de prever, e acusam o colunista de ignorante em matéria de espiritismo, o que é a pura verdade.

Trata-se, porém, de opinião sobre um fenômeno cultural, baseada na crítica de dois filmes. Quando falo em "lixo ocultista" e "crendice sem pé nem cabeça", estou me referindo ao fato de esses filmes apresentarem a comunicação com os mortos como fatos reais, com supostas explicações "científicas" (como se esmeram em reiterar alguns comentaristas, sem provas nem referências), não como crenças.

Não foi minha intenção ofender, mas creio que acabei por fazê-lo, uma vez que os adeptos não se encontram preparados para debater o assunto em bases objetivas. Por essa imprevidência me desculpo.

Escrito por Marcelo Leite às 12h57

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Escrever, contar, pensar

 
 

Escrever, contar, pensar

 

A educação no Brasil caiu num buraco tão fundo que se tornou urgente voltar ao básico: reaprender a ensinar português e matemática. Sem essa de comunicação e expressão, desenvolvimento de raciocínio e habilidades, o escambau. A parada é ler, escrever, fazer contas.

Nunca custa, porém, prestar atenção na experiência alheia. Os Estados Unidos já passaram por crises do sistema de ensino que levaram a programas como “No Child Left Behind” (nenhuma criança deixada para trás). A lei de 2002 exigia testes exaustivos em leitura e matemática, da terceira à oitava séries, para monitorar o desenvolvimento de cada aluno e corrigir a tempo os eventuais atrasos.

O problema de toda política pública – ou, em sentido mais geral, de qualquer intervenção em sistemas complexos – são as consequências não pretendidas. Agora os EUA têm uma nova preocupação: suas crianças andam péssimas em ciências. E tem gente culpando o No Child Left Behind.

Foi o que li no boletim ScienceInsider. Um levantamento nacional de desempenho educacional, em 2009, revelou que 40% dos alunos de ensino médio ficam abaixo de um nível básico de compreensão de ciências naturais. E só 1% alcançam o nível avançado.

A Associação Nacional de Professores de Ciência acha que parte da culpa cabe ao programa de 2002, que pôs ênfase demais em língua e matemática, deixando o ensino de ciências de lado. “Durante nove anos, diretores de escolas primárias disseram a professores para não ensinarem ciência, porque não fazia parte do No Child Left Behind”, denuncia Francis Eberle, diretor executivo da associação na Virgínia.

Não há sombra de dúvida de que, por aqui, o estado do conhecimento de português e de matemática é periclitante, e em todas as faixas etárias – sobretudo as mais jovens. Mas alguém, em sã consciência, arriscaria dizer que não é esse o caso em matéria de ciências? Se o ensino de língua e de contas é uma comédia, o de ciências é uma tragédia.

O MEC deveria criar por aqui o NCDPT – Nenhuma Ciência Deixada para Trás. O raciocínio científico, a capacidade de argumentar logicamente e de manter a objetividade são hoje – ou sempre foram – requisitos tão fundamentais para a vida plena quanto ler, escrever e contar.

 

 

Escrito por Marcelo Leite às 18h11

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Mutirão de risco

 
 

Mutirão de risco

 

(Foto: Marino Azevedo/Governo do Estado do Rio de Janeiro)

A Folha de hoje traz reportagem (aqui, para assinantes) com detalhes do sistema nacional de alerta de desastres que o governo federal decidiu criar, com vários anos, se não décadas, de atrasos. A matéria se baseia num documento de 13 páginas apresentado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que aponta dois gargalos para um sistema desses funcionar. Diz a reportagem:

“Os mapas de risco constituem o principal gargalo do futuro sistema de alerta. O plano prevê mapear o risco de deslizamento em 500 áreas e o de inundação em outras 300 áreas. Esse levantamento consumiria os próximos quatro anos, até cobrir a maior parte das áreas de risco do território nacional. (...)

"O esforço abrangeria, eventualmente, até os batalhões de engenharia do Exército. É o que ocorre nos Estados Unidos com o Corps of Engineers, que tem a redução do risco de desastres incluída em sua missão.

“O segundo gargalo é a falta de interligação dos dados produzidos por radares meteorológicos, fundamental para saber com precisão o volume real de chuvas numa região. Há 20 desses radares no Brasil, mas com falhas de manutenção e de cobertura geográfica (boa parte do Nordeste fica de fora).” 

Fala-se muito em inovação, talvez demais, na área de política de ciência e tecnologia no Brasil. Pôr um sistema assim de pé também constitui inovação – social.

Mobilizar o melhor conhecimento e a melhor tecnologia para salvar vidas e melhorar segurança e qualidade dos assentamentos humanos, evitando de quebra parte dos prejuízos materiais e o gasto posterior com salvamento e reconstrução: dá para imaginar aplicação mais necessária, criativa e útil da pesquisa nacional?

Agora, um sistema desses só sai se a presidente Dilma Rousseff cuidar e cobrar pessoalmente. Se for depender de ministérios e da barafunda de instituições de meteorologia e defesa civil, vai acontecer o mesmo que já ocorreu com a comissão coordenada há não sei quantos anos por Luiz Antonio Barreto de Castro, ex-secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia – aquele que chutou o pau da barraca ao sair: “A gente falou muito e fez muito pouco”.

Escrito por Marcelo Leite às 11h01

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Um protestante no Vaticano e um genoma na rede

 
 

Um protestante no Vaticano e um genoma na rede

Dois dropes rápidos:

1. O papa Bento 16 nomeou um protestante para presidir a Pontifícia Academia de Ciências. É o suíço Werner Arber, Nobel de 1978 pela co-descoberta das enzimas de restrição (ferramenta fundamental da biologia molecular).

Trata-se do primeiro não católico a presidir a academia do Vaticano, segundo leio no boletim ScienceInsider. A agremiação conta com 80 membros, entre eles o palmeirense fervoroso Miguel Angelo Laporta Nicolelis.

2. Conhece Steven "Tabula Rasa" Pinker? Pois agora poderá conhecer melhor um dos mais midiáticos pesquisadores dos EUA. O professor de Harvard pôs à disposição em sua página pessoal, ao lado de fotos etc., um link para a ficha individual no Projeto Genoma Pessoal.

Além de detalhes sobre a composição genética do psicólogo evolutivo (leia-se: sociobiólogo pós-moderno), você pode ver ali sua ficha médica e ficar sabendo que o homem toma 83 mg de aspirina todos os dias, já teve um câncer no nariz (em 2000) e sofre com dores lombares.

Escrito por Marcelo Leite às 17h08

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Clima de alarmismo

 
 

Clima de alarmismo

A nova hecatombe na região serrana do Rio sugere que as previsões sobre desastres inomináveis no futuro, em decorrência da mudança do clima, podem não ser tão exagerados quanto afirmam os céticos do aquecimento global. Tudo depende de conectar causalmente esse tipo de desastre, e sua frequência, com as predições dos modelos climáticos de que uma atmosfera mais quente trará mais eventos meteorológicos extremos como esses - o que não é coisa trivial de fazer.

Pressupor tal conexão, no entanto, já foi muito criticado por pesquisadores do clima. Não haveria uma tragédia planetária por acontecer de imediato, como fantasiou o filme "O Dia Depois de Amanhã". Agora, uma pesquisa de psicologia aplicada vem corroborar essa percepção, dizendo que mensagens alarmistas sobre a mudança climática podem ser contraproducentes e alimentar o ceticismo na população a respeito do aquecimento global.

O estudo foi publicado por Matthew Feinberg e Robb Willer em dezembro no periódico Psychological Science. Usaram dois experimentos para "provar" que mensagens alarmistas de fato aumentam o ceticismo por contradizerem a tendência das pessoas a acreditar que o mundo é justo. Se a mudança do clima vai matar, empobrecer ou prejudicar também pessoas inocentes, como as crianças afogadas em lama no Rio, uma reação natural das pessoas seria duvidar de que o aquecimento global seja uma realidade. Li rapidamente o artigo e os dois experimentos não me convenceram muito, mas fica o convite para o leitor formar sua própria opinião.

A tese, porém, é boa. Com efeito, é de pasmar a capacidade de muita gente de não enxergar - ou não querer ver - como são abundantes os indicativos da ciência de que há, sim, uma mudança climática em curso. Uma explicação, obviamente, é político-ideológica. Muitos optam por não acreditar em aquecimento global porque acham que é uma conspiração dos socialistas para extinguir a liberdade empresarial (por meio de regulamentação) ou a liberdade individual de dirigir jipões movidos a diesel, mas também há socialistas e comunistas - como no Brasil - convencidos de que a conspiração é de imperialistas americanos para impedir o desenvolvimento de países emergentes como o Brasil.

Quem reage irracional e psicologicamente ao alarmismo ou ideológica e canhestramente a fantasmas conspiradores vai ter razão de sobra para se tornar ainda mais cético diante do sítio de internet Global Warning (um trocadilho intraduzível entre Global Warming - aquecimento global - e Global Warning - alerta global). Trata-se de um esforço para vincular aquecimento global com ameaças à segurança doméstica dos EUA - de bases militares ameaçadas de inundação à dependência de combustíveis fósseis importados. Ou seja, para sensibilizar o americano médio, conservador e republicano e diminuir seu ceticismo diante do fenômeno.

Se Feinberg e Willer estiverem certos, o tiro vai sair pela culatra. E os socialistas céticos tupiniquins vão babar um pouco mais de raiva dos imperialistas.

EM tempo: recomendo a leitura deste texto de Mac Margolis.

Escrito por Marcelo Leite às 17h04

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O Novo Norte

 
 

O Novo Norte

 

Leia abaixo a íntegra da Entrevista da Segunda publicada hoje na Folha, que precisou ser cortada em mais ou menos 25%:

 


 

Depois dos Brics, os Norcs. Para Laurence C. Smith, geógrafo e especialista em mudança do clima da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a primeira metade do século 21 assistirá à emergência de uma região do globo em que não se presta muita atenção: o Norte. Um Novo Norte, com crescimento econômico e demográfico acelerados pelo aquecimento global e pela globalização.


“Norc” é a abreviação de “Northern Rim countries”, os países da Orla Norte. Em português, soaria melhor Extremo Norte. É das nações que circundam o oceano Ártico que trata seu livro, “The World in 2050 _ Four Forces Shaping Civilization's Northern Future” (O Mundo em 2050 _ Quatro Forças que Moldarão o Futuro da Civilização no Norte”; Dutton, 322 págs., US$ 26,95).


As quatro forças do título são a demografia (a população mundial continuará a crescer até 2050, chegando a 9,2 bilhões), a demanda por recursos naturais (idem), a globalização da economia e a mudança do clima. O Ártico, assinalam modelos climáticos, é a região do globo que mais se aquecerá. Melhor dizendo, já se aquece, à taxa de 1C ou 2C por década, dez vezes mais rápido que a média no restante do globo.


Isso se traduz em invernos mais amenos no norte do Canadá, Sibéria, Escandinávia e Alasca. E, quem sabe, nas próximas décadas, o derretimento completo da calota de gelo sobre o oceano Ártico durante o verão. Grande oportunidade para a navegação (um caminho mais curto entre Europa e Ásia) e para as jazidas já detectadas de petróleo e gás natural, porém de exploração e escoamento difíceis nas condições climáticas atuais.


Smith, no fundo, é um grande otimista. Ele não omite os problemas que serão causados no próprio Ártico pela mudança do clima, como o derretimento do solo congelado conhecido como “permafrost”, que pode arruinar a infraestrutura dos Norcs.


Trata-os, contudo, com fleuma, assim como à temível previsão de que o consumo de combustíveis fósseis _carvão, petróleo e gás natural, motores do aquecimento global_ continuará a crescer. “Na minha opinião, estamos só no início de uma batalha que durará séculos”, como quem diz: não adianta nada desesperar-se.


Smith também prefere acreditar que não haverá graves disputas geopolíticas no Novo Norte, nem guerras ou restrições à imigração. “Não se trata de dizer que a guerra não possa acontecer entre países como Canadá e Dinamarca, mas as linhas de fissura para um conflito estão muito menos aparentes do que para outras partes do mundo”, tranquiliza.


Leia os trechos principais da entrevista realizada por e-mail:



Folha – Se a temperatura não está crescendo tão depressa nos países tropicais, e como o Brasil e nações africanas vêm descobrindo _além de sua biodiversidade e terras agricultáveis_ imensas reservas de matérias primas como petróleo (a exemplo das recentes descobertas brasileiras na camada do pré-sal), não seria mais correto predizer que um avanço mais importante deve ocorrer por volta de 2050 na altura do equador, em parceria com a China, do que na altura do círculo polar ártico?

Smith – Esses avanços pelo restante do mundo também acontecerão, não são mutuamente excludentes. Está muito claro que a Mongólia interior, por exemplo, é uma peça decisiva no futuro energético da China. Está igualmente claro que as areias betuminosas do Canadá e a península Yamal da Rússia são peças decisivas para o futuro da energia na América do Norte e da Europa, respectivamente.

Folha – Levando em conta as areias betuminosas do Canadá, petróleo e gás dos Norcs, mais petróleo no Brasil e na África, carvão abundante nos EUA, na Rússia e na China, pode-se dizer que o mundo já está comprometido com um aumento paulatino das emissões de CO2 e com um aquecimento superior a 2C neste século? O livro afirma que “simplesmente não existe um meio realista de eliminar o petróleo, o carvão e o gás natural do portfólio de energias mundiais em apenas 40 anos”.

Smith – A maioria dos formuladores de políticas concorda, depois dos fracassos de Copenhague e de Cancún em produzir um tratado internacional legalmente vinculante sobre mudança do clima, que estamos provavelmente comprometidos com um aumento superior a 2C na temperatura média global. Mas o aquecimento do clima não para simplesmente por aí, 2C é só o começo, a não ser que tomemos medidas concretas para controlar as emissões de carbono.

Os oceanos nem sequer estão dando conta, ainda, do CO2 que já produzimos. Em nossa trajetória atual estamos a caminho de triplicar a queima de carvão até 2050. Quanto acabarão os seres humanos por aquecer o clima? Quais serão os debates dentro de 20 anos? Na minha opinião, estamos só no início de uma batalha que durará séculos.

Folha – Legisladores americanos parecem apostar na captura e no armazenamento de carbono (CCS) para matar dois coelhos com uma só cajadada: mitigar a mudança do clima, diminuindo emissões de carbono, ao mesmo tempo em que se permite a manutenção da exploração de imensas reservas de carvão. É uma aposta errada?

Smith – A tecnologia CCS, na escala necessária para sequestrar todas as emissões de CO2 do carvão, é algo ainda inteiramente carente de comprovação. Seria uma aposta perigosa contar com isso.

Folha – Quanto mais tarde os EUA enfrentarem a necessidade de cortar suas próprias emissões de CO2, maior e menos resgatável se tornará sua “dívida de carbono” com a atmosfera terrestre. Não será fácil pagá-la sem um desconto ou sem comprometer a competitividade das empresas americanas numa economia globalizada. Como reagirá o governo dos EUA, com medidas protecionistas?

Smith – Futuros políticos são impossíveis de predizer, porque são impelidos pelas decisões de líderes individuais. É muito mais difícil saber se os EUA continuarão com seu modelo de globalização mantido há tempos do que conhecer o futuro da temperatura média global.

Folha – Algumas passagens do livro deixam no leitor a impressão de que o sr. se preocupa mais com a água do que com o esgotamento de reservas de petróleo. A impressão está correta?

Smith – Ambas são criticamente importantes, é óbvio. Mas a água será muito provavelmente a crise definidora do século 21. Podemos encontrar tipos alternativos de energia, mas não tipos alternativos de água.

Folha – Quando o sr. se questiona sobre o que faz as civilizações vicejarem, deixa a guerra fora da equação. Não é muito optimismo?

Smith – Há razões para otimismo quando se considera a probabilidade de guerra aberta entre os países Norc. Não se trata de dizer que a guerra não possa acontecer entre países como Canadá e Dinamarca, mas as linhas de fissura para um conflito estão muito menos aparentes do que para outras partes do mundo.

Folha – Os Norcs, de acordo com sua análise, parecem ter uma faca de dois gumes em suas mãos: o efeito da mudança do clima pode ser visto tanto como um bônus quanto como uma maldição para eles. O petróleo que se espera extrair do Ártico vai acelerar as emissões de carbono e a mudança do clima, que tornará o permafrost instável para construir estradas e prédios. Não estaríamos diante de um ciclo econômico mais do tipo expansão-e-crise (“boom-and-bust”)?

Smith – A desestabilização do permafrost pode tornar certas áreas antieconômicas e talvez forçar seu abandono. Mas petróleo e gás são apenas uma pequena parte deste livro. Em graus variados, os Norcs possuem vantagens crescentes em coisas como água, educação, companhias globalizadas e políticas de imigração favoráveis. Meus argumentos se baseiam nelas, também, e não simplesmente na extração de recursos naturais.

Folha – Por que o sr. está tão seguro de que a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (Unclos, na abreviação em inglês) oferece uma moldura adequada para prevenir disputas perigosas pelo controle das riquezas no leito marinho do Ártico? O direito internacional não impediu os EUA de invadir o Kuait nem o Iraque.

Smith – A convenção parece satisfatória, ao menos por ora, porque todas as cinco potências do Ártico se alinharam com ela de modo unânime. Eles resistem claramente a quaisquer outras propostas de governança para a região, por exemplo a governança internacional da Antártida.

Folha – Sua conclusão é que a questão mais importante não é de capacidade, mas sobre o desejo: “Que tipo de mundo queremos?” Seria um sinal de que os pesquisadores do clima estão finalmente reconhecendo que sua ciência sempre teve uma dimensão ética que a maioria deles tentou soterrar sob toneladas de dados nos últimos 20 anos?

Smith – Essa sentença final fala sobre algo muito além da ciência do clima, sobre enfrentar os muitos outros dilemas éticos aventados pela obra. Até que ponto podemos danificar ecossistemas para obter os recursos naturais necessários para a sociedade moderna? Deveriam os imigrantes globais ser barrados ou cobiçados? Os idosos deveriam receber cuidados de seres humanos ou de robôs? O leitor encontrará muitas dessas questões éticas no livro.

 

Mapa de rotas marítimas no Ártico (Reprodução)

Escrito por Marcelo Leite às 11h05

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Adivinhar e saber

 
 

Adivinhar e saber

 

Minha coluna de hoje na Folha.com versa sobre transgênicos, um tema que me ocupou durante anos, a ponto de cometer um livrinho da série Folha Explica (veja em peu perfil), mas do qual ando afastado. Tento não entrar no clima de Fla-Flu, e quase sempre termino identificado como Fla pelos torcedores do Flu, e como Flu pelos torcedores do Fla.

Exemplo: o primeiro comentário de leitor da coluna. Você concordaria que a coluna é pró-transgênicos, como afirma o comentador?

Não sou tampouco um leitor de poesia, mas ganhei um "Selected Poems" de W.H. Auden e topei com "Archaeology", de 1973, do qual reproduzo as quatro primeiras estrofes, que dizem muito sobre as atitudes prevalentes na blogosfera:

 

The archaeologist's spade

dwelves into dwellings

vacancied long ago,


unearthing evidence

of life-ways no one

would dream of leading now,


concerning which he has not much

to say that he can prove:

the lucky man!


Knowledge may have its purposes,

but guessing is always

more fun than knowing.

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h24

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Deveres com os animais

 
 

Deveres com os animais

Não é sempre que concordo com o colunista João Pereira Coutinho, que escreve às terças-feiras na Ilustrada. Diria, aliás, que se torna cada vez mais raro. Hoje (leia aqui seu texto “Homens e animais”), contudo, faço-o decididamente, ou melhor, só com um grãozinho de sal.

O raciocínio de Coutinho é límpido: touradas e outras formas de tortura (maus-tratos) contra animais devem ser abolidas não porque os bichos tenham direitos, mas porque nós homens temos deveres para com eles. É uma maneira inteligente de afirmar a ampliação da esfera moral advogada por Peter Singer sem enredar-se nas malhas problemáticas da atribuição de direitos às bestas.

Escrevi não faz muito no caderno Ilustríssima, da Folha, a respeito desses dilemas, mais especificamente no contexto do vegetarianismo e do que se poderia chamar de gourmética, ou gourmetiqueta, para cunha neologismos. Leia “A dor dos moluscos” aqui.

O grão de sal vai para o argumento de Coutinho contra reconhecer direitos aos animais: eles não têm deveres, portanto não podem ter direitos. Entendo o que quer dizer, e posso concordar com a leitura de que a impossibilidade decorre de não serem os animais sujeitos morais, pelo menos não no sentido em que nós homens o somos.

Vejo dois senões, porém. Alguns estudos recentes indicam que pelo menos nossos parentes primatas têm rudimentos de uma ética, reciprocidade, senso de justiça ou coisa assim. Não existiria, assim, essa separação categorial tão rígida quanto parece supor o colunista.

O outro senão é o vínculo, de sabor excessivamente conservador para este progressista, entre direitos e deveres. Direitos são direitos, não dependem de o sujeito ter, reconhecer ou cumprir com deveres.

 

Escrito por Marcelo Leite às 11h17

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As escolhas de Mercadante

 
 

As escolhas de Mercadante

 

Volto de viagem para encontrar vários nomes de conhecidos cotados para assumir cargos no Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), na gestão de Aloizio Mercadante. Deduzo que o novo ministro e recém-doutor fez a lição de casa e saiu em busca de gente competente para cargos-chave (se for assinante da Folha ou do UOL, leia reportagem de Sabine Righetti aqui) – com a exceção de praxe que confirma a regra.

Carlos Nobre na Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCT parece uma boa ideia. Embora seja lida uma inflexão ambiental na política do MCT, pelo óbvio interesse do climatologista na Amazônia, cabe lembrar que Nobre é homem de exatas, cria do ITA e do MIT. Que tenha se bandeado para o front verde só fala a seu favor, ou seja, de sua capacidade de intuir qual seria a grande questão do novo século quando poucos ainda se davam conta disso.

Glauco Arbix na Finep também faz sentido. Depois de ter dirigido o Ipea – onde, diante dos ventos que por lá sopram hoje, deve ter deixado saudades – e de mergulhar de cabeça nos nós górdios da incapacidade brasileira para a inovação de ponta, nas empresas e na academia, terá agora a oportunidade de transformar a financiadora de estudos e projetos numa espécie de BNDES da pesquisa aplicada, tirando-a do marasmo que sempre criticou.

Glaucius Oliva no CNPq aparece, igualmente, como uma escolha reveladora de senso de oportunidade. Nunca é demais ficar bem com a comunidade um tanto corporativista da maior universidade do país (USP), que votou nele em peso para reitor apenas para ser contrariada pelo governador tucano José Serra, que se inclinou por João Grandino Rodas. Marco Antonio Raupp na Agência Espacial Brasileira vai na mesma direção, podendo ser vista como uma mesura para o restante da comunidade de pesquisa, sendo Raupp o atual presidente da SBPC.

Agora, esquisita mesmo é a especulação de que a Embrapa poderia ser retirada da guarda do Ministério da Agricultura para o MCT e ser entregue para Evaristo Miranda, segundo li no Painel da Folha sexta-feira. Pode ser um desejo de Mercadante, mas o bastião ruralista na Esplanada dificilmente abrirá mão da mais incensada instituição de pesquisa aplicada do país.

Se o milagre se operasse, seria preciso encontrar sacerdote menos controverso que Miranda para colher os óbulos. Na própria Embrapa ele coleciona adversários e críticos do trabalho sob encomenda da Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA; leia-se senadora Kátia Abreu, DEM-TO) sobre o alcance da legislação indígena e ambiental brasileira. Para Miranda, só 29% do território nacional estariam disponíveis para a agropecuária – cifra desde então questionada por vários grupos de pesquisa, como se pode ler nesta reportagem de junho de 2009.

 

 

Escrito por Marcelo Leite às 19h17

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O papa piscou

 
 

O papa piscou

Bento 16, o papa intelectual (já debateu até com Jürgen Habermas), parece agudamente consciente de que não dá para ignorar a ciência. Como religioso, porém, está obrigado a reafirmar a superioridade da fé - sobre o conhecimento terreno - como reveladora do significado último ("verdadeiro") da realidade.

Não parece ser outra a interpretação do que ele disse em sua homilia de ontem, Dia de Reis, a respeito do Universo (leia a notícia aqui). "O Universo não é fruto do acaso, como alguns querem que acreditemos", disse Bento 16 na celebração da Epifania (comemoração da chegada dos três reis magos até a manjedoura do Menino Jesus, seguindo a estrela de Belém).

É uma maneira antiga de (tentar) conciliar religião e ciência, a preferida por pesquisadores que preservam a própria fé: aquilo que a ciência descobre nada mais seria que as maquinações da mente de Deus. A ordem e a regularidade observadas e reconstruídas, meros reflexos da sapiência e sabedoria divinas. Não deixa de ser uma diminuição da potência divina, como se ela estivesse limitada pela necessidade da ordem. Se fosse um jogo de pôquer, seria como se o papa tivesse "piscado".

Esse modo teológico de conceber as coisas, no entanto, busca salvaguardar a onipotência e a onisciência de Deus diminuindo a própria ciência secular, que produziria só conhecimento parcial da realidade. A totalidade estaria apenas no alcance da mente de Deus. Humanos, desde que crentes, teriam acesso a ela apenas de uma maneira confusa, sensitiva, não precisamente racional: a fé.

Não deixa de ser oportuno um intelectual lembrar que a ciência não produz exatamente verdades, muitos menos imutáveis e completas, como pressupõe o senso comum (ignorante de que o conhecimento científico, embora objetivo, é provisório, sujeito a revisões seguidas). Serve para contrabalançar as tendências maximalistas e absolutistas de alguns propagandistas da tecnociência.

O problema é concluir, num perfeito "non sequitur", que essa limitação do conhecimento humano corrobora a infinitude do intelecto divino. A posição mais equilibrada seria dizer que uma coisa não tem nada a ver com a outra, ou seja, que a religião nada tem a informar ou prescrever para a ciência, e vice-versa (nas palavras mais cultas que aprendi de Stephen Jay Gould, que são "magistérios não coincidentes").

Eis aqui, em italiano, a passagem da homilia em que Bento 16 se estende sobre o Universo:


E veniamo così alla stella. Che tipo di stella era quella che i Magi hanno visto e seguito? Lungo i secoli questa domanda è stata oggetto di discussione tra gli astronomi. Keplero, ad esempio, riteneva che si trattasse di una “nova” o una “supernova”, cioè di una di quelle stelle che normalmente emanano una luce debole, ma che possono avere improvvisamente una violenta esplosione interna che produce una luce eccezionale. Certo, cose interessanti, ma che non ci guidano a ciò che è essenziale per capire quella stella. Dobbiamo riandare al fatto che quegli uomini cercavano le tracce di Dio; cercavano di leggere la sua “firma” nella creazione; sapevano che “i cieli narrano la gloria di Dio” (Sal 19,2); erano certi, cioè che Dio può essere intravisto nel creato. Ma, da uomini saggi, sapevano pure che non è con un telescopio qualsiasi, ma con gli occhi profondi della ragione alla ricerca del senso ultimo della realtà e con il desiderio di Dio mosso dalla fede, che è possibile incontrarlo, anzi si rende possibile che Dio si avvicini a noi. L’universo non è il risultato del caso, come alcuni vogliono farci credere. Contemplandolo, siamo invitati a leggervi qualcosa di profondo: la sapienza del Creatore, l’inesauribile fantasia di Dio, il suo infinito amore per noi. Non dovremmo lasciarci limitare la mente da teorie che arrivano sempre solo fino a un certo punto e che – se guardiamo bene – non sono affatto in concorrenza con la fede, ma non riescono a spiegare il senso ultimo della realtà. Nella bellezza del mondo, nel suo mistero, nella sua grandezza e nella sua razionalità non possiamo non leggere la razionalità eterna, e non possiamo fare a meno di farci guidare da essa fino all’unico Dio, creatore del cielo e della terra. Se avremo questo sguardo, vedremo che Colui che ha creato il mondo e Colui che è nato in una grotta a Betlemme e continua ad abitare in mezzo a noi nell’Eucaristia, sono lo stesso Dio vivente, che ci interpella, ci ama, vuole condurci alla vita eterna.

 

Escrito por Marcelo Leite às 14h52

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Eppur si muove – Burocracia vs. pesquisa

 
 

Eppur si muove – Burocracia vs. pesquisa

Quase um mês atrás, o caderno Ilustríssima da Folha publicou reportagem minha, sobre as agruras enfrentadas por pesquisadores brasileiros de ciências naturais quando se trata de importar insumos e equipamentos para laboratórios. O texto – do qual você pode ter uma ideia aqui – buscava mostrar como, na prática, a burocracia afeta a competitividade dos cientistas daqui diante de gigantes como o Instituto Salk.

A reportagem envolveu uma visita ao LaNCE, laboratório de Stevens Rehen na UFRJ, que também liderou um levantamento online de problemas enfrentados. A publicação dos dados dessa pesquisa nos jornais “O Globo” e Folha suscitou a realização de uma reunião em Brasília, cujo relato – por Rehen – reproduzo agora:


A divulgação do levantamento sobre as dificuldades de importação de material científico no Brasil, realizada pelo LaNCE-UFRJ, motivou o Secretário da Receita Federal do Brasil (RFB), Dr. Otacílio Dantas Cartaxo, a convidar-nos para reunião sobre despacho aduaneiro para importação de equipamentos, reagentes e outros insumos para pesquisas científicas, realizada no dia 25 de novembro de 2010, às 10 horas, no Edifício Sede do Ministério da Fazenda, Esplanada dos Ministérios, Bloco P, Gabinete da RFB.

Participaram diretores da ANVISA (Dr. José Agenor Álvares da Silva e Sra. Roberta Meneses M. de Amorim), FeSBE (Dr. Giles Alexandre Rae), CNPq (Dr. Glaucius Oliva e Dra. Nívia Wanzeller), SBPC (Dr. Lauro Morhy), Ministério da Saúde (Dr. Reinaldo Guimarães e Dra. Leonor Maria Pacheco), representantes do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE) do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, Sr. Leonardo Kastrup, Dr. Daniel Furtado e eu próprio, e da Receita Federal, incluindo os Drs. Otacílio Dantas Cartaxo, Dr. Fausto Vieira Coutinho e Dr. Juraci Garcia Ferreira.


O encontro teve início com a apresentação dos resultados desse levantamento, estudos de caso e propostas para melhoria do processo, respectivamente por mim, Leonardo e Daniel.

Encerramos nossa fala sugerindo 3 propostas para agilizar, sem a necessidade de mudanças na legislação, o processo de importação de material científico no Brasil: 1) treinamento dos fiscais aduaneiros sobre as especificidades dos diferentes materiais científicos (cursos promovidos pelo CNPq, ABC, FeSBE, SBNeC, CAPES, SBPC); 2) criação de instalações especiais para cadeia de refrigerados, congelados e manuseio de animais de experimentação nos terminais de carga das capitais; 3) agilização do processo de importação de material científico a partir da implementação de despacho aduaneiro expresso (Linha Azul) para pesquisadores cadastrados junto ao CNPq.



Em seguida, o Dr. Juraci Garcia Ferreira, Auditor-Fiscal da RFB, apresentou em detalhes as mudanças recentes promovidas pela Receita Federal do Brasil com o intuito de agilizar os processos de importação de material destinado à pesquisa científica e tecnológica.


As principais alterações relatadas foram: 1) criação do decreto 7315/2010 que altera o decreto 6759/2009 e dispensa a necessidade de certidão negativa de tributos federais para autarquias e fundações; 2) elaboração do projeto SISAM 2010/2011 que visa aperfeiçoar o processo de parametrização das mercadorias; 3) divulgação de Guia Orientativo (2008/2009) para importação de insumos para Rede Nacional de Laboratórios Agropecuários; 4) elaboração da Instrução Normativa RFB 1.073 de 01 de outubro de 2010, que dispõe sobre o controle aduaneiro informatizado da movimentação e despacho aduaneiro de importação e de exportação de remessas expressas.

O Dr. José Agenor Álvares da Silva, Diretor da ANVISA, apresentou então números que contradiziam em parte a pesquisa realizada pelo LaNCE-UFRJ. 


Álvares da Silva afirmou, com base em informações obtidas de um diretor da FAPESP, que em São Paulo não haveria problemas de importação de material científico há pelo menos 6 meses e que o tempo para liberação de cargas destinadas à pesquisa científica e tecnológica naquele estado seria de, no máximo, 24 horas. Relatou ainda que após tomar conhecimento do nosso levantamento, criou uma nova Orientação de Serviços, com instruções sobre procedimentos para o despacho de material científico, já divulgada a todos os fiscais da ANVISA.

Os Drs. Glaucius Oliva e Nívia Wanzeller relataram entretanto, que o processo de inspeção da ANVISA para materiais científicos importados por pesquisadores do CNPq na maioria dos estados brasileiros era superior ao descrito pelo Diretor da ANVISA para São Paulo.

Representantes da ANVISA e RFB sugeriram que os principais problemas no processo de importação de material científico são conseqüência do desconhecimento dos próprios pesquisadores e seus despachantes sobre os procedimentos adequados para o preenchimento das documentações requeridas. Eu não diria que seriam esses os principais problemas, mas podem explicar boa parte dos atrasos relatados em nossa pesquisa. 

Nesse momento, o Dr. Juraci Garcia Ferreira da Receita Federal do Brasil questionou o porquê dos pesquisadores não utilizarem a DSI (Declaração Simplificada de Importação) para importações inferiores a US$ 10.000,00, procedimento que não necessita do cadastramento do pesquisador junto ao SISCOMEX (Sistema Integrado de Comércio Exterior) e desburocratiza o processo.

Leonardo Kastrup, do LaNCE-UFRJ, respondeu que importações científicas realizadas utilizando-se a DSI são automaticamente conduzidas para o canal vermelho, ou seja, com inspeção física e documental das mercadorias, o que torna o processo lento e oneroso e maior permanência das mercadorias nos terminais. Este fato não era de conhecimento da RFB e será averiguado.

O Dr. Reinaldo Guimarães, secretário do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde salientou que é crucial o treinamento de todos os envolvidos no processo de importação de material científico.

Ao final do encontro, o Dr. Fausto Vieira Coutinho listou os principais assuntos discutidos, buscando nomear responsabilidades para cada um dos presentes.

1) Cientistas-importadores e despachantes precisarão ser treinados, evitando-se assim o preenchimento incorreto de documentações necessárias à importação de material científico. 

ANVISA e RFB irão divulgar amplamente manuais com instruções sobre o preenchimento desses documentos. 

O CNPq propôs criar um tutorial online para auxiliar os pesquisadores. 

O LaNCE-UFRJ também criou um canal online para responder questionamentos da comunidade científica sobre esses procedimentos.

2) A ANVISA irá averiguar possibilidades de reduzir o período de inspeção de material científico importado;

3) A RFB irá discutir internamente a possibilidade de criar espaços aduaneiros capazes de receber adequadamente, e de forma exclusiva, mercadorias destinadas à pesquisa científica e tecnológica, incluindo material perecível, células e animais;

4) A RFB se comprometeu a revisar a aplicação de multa e do canal vermelho a material científico importado;

5) A RFB irá elaborar proposta sobre especificação e demanda para canal de remessa expressa através do Sistema Único Informatizado para material científico.

Cabe registrar a disposição de todos os presentes em eliminar os entraves burocráticos que interferem no processo de importação de equipamentos e reagentes essenciais ao progresso científico brasileiro, com destaque para o Dr. Otacílio Dantas Cartaxo e sua equipe.

Devemos agora monitorar se de fato as alterações discutidas no encontro irão surtir o efeito desejado.

Escrito por Marcelo Leite às 11h49

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Tropicalismo científico

 
 

Tropicalismo científico

Leio no Jornal da Ciência que o neurocientista Miguel Nicolelis lançou seu "Manifesto da Ciência Tropical: um novo paradigma para o uso democrático da ciência como agente efetivo de transformação social e econômica no Brasil". O documento pode ser lido aqui.

Achei que tinha cara de plataforma de candidato a ministro da Ciência e Tecnologia, ainda mais agora que a Pasta deve sair do feudo do PSB em que permaneceu durante os oito anos de Lula (Roberto Amaral, Eduardo Campos e Sérgio Rezende). Mas Nicolelis, que sempre teve bom trânsito em Brasília, nega de forma terminante a possibilidade: "Ministro, nem morto", diz. "Nem passa pelo meu radar."

De todo modo, é um texto interessante, cheio de ideias e propostas que merecem discussão. Gosto em especial do plano de espalhar 16 ITAs pelo país.

Conheça as 15 propostas do documento:

1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional;

2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência;

3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais;

4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país;

5) Criação de 16 Cidades da Ciência;

6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia;

7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira;

8) Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro;

9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica;

10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década;

11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa;

12) Criação de “joint ventures” para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil;

13) Criação do Banco do Cérebro;

14) Ampliação e incentivo a Bolsas de Doutorado e Pós-Doutorado dentro e fora do Brasil;

15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil.

Escrito por Marcelo Leite às 17h23

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Complexo do Nobel

 
 

Complexo do Nobel

"Chegou a temporada dos prêmios Nobel, e o Brasil se entregou a seu acesso anual de torcer de mãos: por que o país que inventou o samba e a feijoada - e que recentemente decolou da pobreza para tornar-se potência global - não consegue ganhar um dos prêmios venerados?"

O parágrafo acima soa estranho? Substitua agora "Brasil" por "China", além de "samba e feijoada" por "bússola e pólvora". Faz mais sentido?

É a abertura da interessante reportagem de Chichi Zhang, da Associated Press, sobre o inconformismo chinês com a falta de um Nobel autóctone.

Se nem os descobridores da pólvora detêm um Nobel, por que cargas d'água a pátria das chuteiras e do rebolado mereceria o seu? Mais sobre a pergunta que não quer calar abaixo, ou na coluna Ciência em Dia.

Para piorar o complexo de vira-lata, o Nobel de Literatura tinha de sair logo para Mario Vargas Llosa, do vizinho Peru, que agora está na companhia de Argentina, Venezuela e México para nos humilhar.

Escrito por Marcelo Leite às 13h39

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Brasil provinciano e sem Nobel

 
 

Brasil provinciano e sem Nobel

Minha coluna de hoje na Folha.com oferece alguns pitacos sobre razões para explicar a falta de um prêmio Nobel de ciência para o País dos Papagaios. Como aperitivo, aqui vai a conclusão:


Nacionalismo, em ciência, é sinônimo de provincianismo e paroquialismo. Não combina com Nobel.

 

Escrito por Marcelo Leite às 13h59

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Nobel para bebê de proveta

 
 

Nobel para bebê de proveta

É mais do que merecido o Prêmio Nobel em Medicina ou Fisiologia conferido hoje ao médico britânico Robert Edwards, pela criação do primeiro bebê de proveta em 1978. Com algum atraso, mas justo.

Quem já tinha noção de alguma coisa 32 anos atrás se lembrará das intermináveis discussões sobre a legitimidade dessa intervenção tecnológica na esfera da vida, hoje mais conhecida como fertilização in vitro (ou FIV; "bebê de proveta" soa irremediavelmente datado, até porque ninguém sabe mais o que é uma proveta - parente do tubo de ensaio). Em matéria de celeuma, acho que só rivaliza, nas últimas décadas, com o primeiro transplante de coração, pelo sul-africano Christiaan Barnard em 1967, e a clonagem humana, ainda por realizar-se.

Hoje a FIV é um artigo de consumo. Está disponível até em hospitais públicos no Brasil. Ninguém mais considera imoral - com exceção talvez de padres e outros religiosos mais conservadores - retirar os óvulos de uma mulher para reuni-los fora do corpo com espermatozoides, na esperança de gerar uma criança para o casal que a deseja. Virou uma indústria.

Edwards deu a largada nisso. Nem mesmo os transplantes de coração tiveram tanto impacto na vida de tanta gente e na mentalidade de uma época.

Perde para a pílula anticoncepcional, vá lá, mas esta não tem o peso de uma intervenção direta no corpo e na concepção realizada por terceiros (os médicos). A pílula está na farmácia e toma quem quer. A FIV depende de muito mais.

Escrito por Marcelo Leite às 18h24

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Marcelo Leite Marcelo Leite é repórter especial da Folha e autor do livro "Promessas do Genoma".
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